Números que traem

Qualquer manual de jornalismo ensina que não se deve engolir informações oficiais sem ruminá-las minimamente. Isso me veio à mente na semana passada, ao ler as notícias de que Santa Catarina figurou, em 2011, entre os estados que menos reprovaram no ensino médio e que avançou sete posições em relação ao ano anterior. Os dados são do Inep, instituto acima de qualquer suspeita vinculado ao Ministério da Educação, mas que nem por isso devem ser interpretados ao pé da letra, porque envolvem condicionantes que nos escapam numa análise superficial. Neste caso, há várias leituras que extrapolam o enfoque frio da reportagem. Em primeiro lugar, é difícil entender como um Estado pode ganhar tantas posições em tão pouco tempo, sem que haja razões substanciais para isso. É nessa hora que as estatísticas pecam, porque usam critérios técnicos que nem sempre, paradoxalmente, são científicos.

Outra coisa é que nem o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, levou os números tão a sério, porque eles denunciam oscilações decorrentes da troca de secretários estaduais de Educação e novos procedimentos pedagógicos que podem interferir na avaliação de resultados neste campo minado que é o ensino público no país.

Mais grave do que aceitar esses dados como definitivos é não levar em conta que está em curso o processo de aprovação automática, sobretudo nas séries iniciais. Nesta faixa, o percentual de repetência no Estado caiu de 6,1% para 4,4% no mesmo período. Até onde isso é real, considerando esta praga engendrada nos gabinetes para evitar a necessidade de construir mais escolas e salas de aula?

Além das informações dadas sem questionamento, houve até o caso de uma jornalista de primeira viagem que se julgou no direito de fazer uma análise do quadro, louvando o desempenho catarinense nessa área. Tudo bem, ela talvez tenha atendido a pedidos de superiores para respaldar, com um toque opinativo, aquela temeridade. Mas, admitamos, está longe de ser a melhor pessoa para fazer isso.

Depois de ver o secretário Eduardo Deschamps ser vaiado na transmissão de cargo de reitor na UFSC, no dia 10 deste mês, concluí que nem notícias alvissareiras de procedência dúbia podem salvar a imagem da nossa educação. Nosso ensino avança, mas não no ritmo que querem dar a entender alguns incautos que se esquecem de visitar as escolas para conferir em que ritmo estamos evoluindo e se, contrariando as estatísticas, patinamos numa área que é fundamental para o desenvolvimento do país.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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