O abraço

Na barbearia do Otávio a turma falava sobre como mudou de maneira positiva o modo como os pais têm demonstrado seu amor pelos filhos; mais sentimentos e menos vergonha. Beijos, abraços e outras expressões de afeto demonstradas em público pelo pai e até pelo avô; gestos e palavras que antes ficavam restritos a elas, mães e avós.

O radialista, Antunes Carriel, resolveu contar uma história real; havia acontecido com um amigo, também radialista. Ele começou:

– O radialista, Antônio Gonçalves, estava no início de sua carreira quando conheceu uma linda moça que logo comentou que estava grávida. Gonçalves, apaixonado, disse que registraria a criança e a criaria como se fosse seu filho de sangue. Eles se casaram, o tempo passou, e mais dois filhos nasceram. Agora eram três meninos.

Antônio Gonçalves aumentava em fama pela competência e dedicação; se tornava a cada dia, mês e ano um radialista mais conhecido. E os filhos cresciam.

Quando ainda eram meninos, Felipe, o mais velho; assumido com amor e coragem por Gonçalves, sentia que o pai, o qual tinha por pai de sangue, pois nunca soubera da verdade, demonstrava algo especial por Rafael e Gabriel, seus irmãos mais novos.

Tanto Rafael quanto Gabriel pareciam ser os primeiros a receber o carinho e atenção do pai. A mãe, dona Vera, demonstrava amor e carinho de igual maneira, mas o pai deixava Felipe com uma dúvida; seria por eles serem mais jovens? Talvez Rafael e Gabriel por serem menores precisassem de mais demonstrações de amor, de carinho, de afeto e atenção.

O tempo foi passando e as demonstrações de carinho se davam aos três, mas de maneira especial aos menores. Felipe acreditava entender, mas havia algo, um gesto, que fazia com que Felipe sentisse, não inveja, mas um desejo de ter algo igual, sem que isso fosse tirado dos irmãos mais novos. O pai, o conhecido radialista, abraçava a Rafael e Gabriel de um jeito que Felipe nunca havia experimentado. Às vezes olhava de longe. O pai quando abraçava seus irmãos os apertava em seu peito; parecia os querer dentro dele. Nunca era assim com Felipe. Ele recebia alguns abraços do pai, mas distantes do peito e do coração, era evidente a diferença no abraçar.

Felipe pensava em maneiras de agradar o pai, em ter sua aprovação, e em especial, de experimentar aquele abraço; como seus queridos irmãos. Então, aos sábados, como não tinha aula, acordava mais cedo; deixava o jornal da assinatura do pai a mensa. Engraxava os sapatos do pai e os colocava num lugar facilmente visto. Preocupava-se até em saber dos programas favoritos de TV do pai. O carro era lavado e encerado por Felipe todas as semanas. O primogênito acreditava que as boas notas na escola, o bom comportamento e as coisas que fazia pelo pai logo lhe traria o seu mais aguardado presente.

Como o pai apresentou por muitos anos programas pela manhã era comum Felipe desembarcar do ônibus no Centro de Florianópolis e ouvir a voz do pai em vários rádios dos motoristas e cobradores. Depois foi se saber que por muitas vezes Felipe sentia vontade de dizer que era filho daquele locutor.

Numa noite de sábado houve uma festa na casa de Antônio e sua esposa. O radialista havia marcado um churrasco para a família e amigos. Em certo momento, Felipe, aos 12 anos de idade se aproximou de um tio, irmão de sua mãe, e perguntou:

– Tio João, por que será que meu pai gosta mais dos meus irmãos do que de mim? Ele é um ótimo pai. Me orgulho dele. Quando desço do ônibus no Centro de Florianópolis e escuto os motoristas e cobradores, além de outras pessoas, dizendo que gostam muito de ouvir meu pai no rádio, sinto vontade de gritar a todos que sou seu filho, me orgulho muito dele. Mas infelizmente, ele não tem orgulho de mim, só dos meus irmãos. Não consigo entender.

O tio João, emocionado, perguntou:

– Tu nunca soube de nada? Quero dizer, teus pais nunca contaram como se conheceram?

Felipe, respondeu que não. Então, o tio lhe contou toda a verdade, todos os detalhes. A verdade que Felipe jamais imaginara. Uma verdade que lhe daria um presente inestimável.

No dia seguinte, no domingo, já no final da tarde, Felipe se aproximou de seu pai e disse:

– Pai, preciso muito falar com o senhor – O radialista, Antônio Gonçalves, diz ao filho que tudo bem, que pode falar; imaginara o veterano da comunicação, que o filho do coração fosse lhe fazer alguma confissão sobre algo errado que havia feito.

Felipe estende sua mão direita ao pai. Gonçalves, sem entender, aperta a mão do filho. Então, a surpresa. Felipe, falou:

– Estou o cumprimentando por duas razões. Primeiro, por ter aceitado minha mãe já grávida. E também, por ter me registrado e me criado como seu verdadeiro filho; com todo amor e carinho. Agora sei de tudo. Me orgulho muito do senhor. Só tenho que agradecer por tudo que tem feito por nós, pai.

Antunes Carriel, que se emociona sempre que lembra ou conta essa história, continua:

– O veterano comunicador, Antônio Gonçalves, com um enorme nó na garganta, um aperto no coração e um súbito abalo mental, sentiu o que muitos escritores chamam de epifania. Um momento único; universal, que ultrapassa tudo. Sentiu só e naquele momento que nunca tinha visto um filho tão real, tão presente, tão amável, tão próximo; ainda que feito por ele tão distante.

Antônio Gonçalves puxou o filho de 12 anos para o seu peito; o mais próximo possível do coração. Um abraço como nunca havia dado antes naquele filho do coração. Só não sabia o radialista que aquele era o presente mais desejado pelo filho. Felipe sentia as lágrimas do pai caírem sobre sua cabeça. Mas Felipe ganhou ainda outro presente, além daquele tão sonhado abraço, ouviu o pai dizer entre soluços:

– Eu te amo muito meu filho, eu te amo muito meu filho.

Antunes Carriel termina assim a história:

– A difícil confissão do tio, João. A coragem de Felipe, de apenas 12 anos, e o meu amigo que nem sabia quão grande era o seu coração. Até hoje o Antônio me diz, já passados mais de 30 anos que isso aconteceu; que até hoje, Felipe é o filho mais próximo dele.

A turma que se reúne ora no bar do Felisberto e mais das vezes na barbearia do Otávio têm mantido grandes conversas. Mas depois de ouvir esse relato não havia nem sequer um deles que não tivesse os olhos cheios de lágrimas. Alguns ameaçavam abrir a boca, tinham algo a dizer, mas não lhes saía nada além de lágrimas. E nem era por causa de um mero abraço, mas havia sido – o abraço!

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