O Aguerrido de Martyrios

Antunes Severo apresenta conto inédito de Marco Antonio Arantes que tem Rozendo Vasconcellos Lima como um dos personagens centrais.
Por Antunes Severo

Tenho alguns amigos eternos que mal conheço pessoalmente. Quando trabalhava na Rádio Diário da Manhã, por volta de 1960, fiz amizade com um ouvinte mineiro. Ele tinha 15 anos, vivia com a família em Itabira e me contava as suas angustias existenciais. Seu maior e mais imediato drama: como fazer o segundo grau, se na sua gloriosa Itabira não havia escola de segundo grau. Um dia chega uma carta imensa.
Cinco folhas manuscritas de bem organizada fala e de incertezas sem conta. Um verdadeiro rosário de angústias. Durante a audição daquele dia do programa Ponto de Encontro, apresentado pelas ondas médias e curtas da Rádio Diário da Manhã, acusei o recebimento da correspondência e terminei dizendo que ia responder pelo correio. Não tive dúvida, ao final do programa, ao meio dia, desci do prédio da emissora e fui ao correio que ficava ali do lado, aonde ainda está até hoje. Peguei um formulário para telegrama e escrevi: “Um homem é um homem PT Um rato é um rato PT. Antunes Severo”. 
Nossa correspondência manteve-se por mais de 20 anos até nos encontrarmos um dia no Rio de Janeiro. O meu amigo, casado, pai de duas filhas, graduado em administração, com pós-graduação em Gestão Estratégica de Organizações, era um dos executivos do primeiro escalão da Vale do Rio Doce, onde havia ingressado por concurso.
Mais tarde (ou mais cedo?), em 1987 fui apresentado ao jornalista Marco Antonio Arantes durante uma jantar na casa dele. Ele convidou o então governador Pedro Ivo, que me convidou (eu era secretário de comunicação do governo) e lá fomos. Fiquei sinceramente cativado pela maneira singela e simples com que fomos recebidos.
Depois de outro tanto de anos acabo descobrindo o Marco Antonio escritor. Agora, em 2005, fui surpreendido por um amigo comum – o Chico Socorro – com um presente inesperado: Romãs Maduras de Marco Antonio Arantes e esta dedicatória: “Meu querido Antunes; Espero que gostes do meu livro – ele gosta muito de ti. Abração, Marco”. Não deu outra, me apaixonei pelo livro.
De lá pra cá temos trocado mensagens pela internete. As últimas foram por conta da passagem de ano. A do Marco veio no meio de dezembro, a minha foi no início deste janeiro. Sim, foi com atraso, mas – vereis – o motivo era justo. Tenho um pé de romã na frente da janela da minha sala de trabalho. Pela segunda vez ela floriu e algumas romãs vingaram. Nenhuma madura até o final de dezembro. Nas dez vezes que passo pelo pé de romã todos os dias, são dez olhadas naquela danadinha que parece me olhar também.  Penso: “assim que tu ficares madura, tiro uma foto e vou mandar pro Marco”. A foto é essa aí.

Aí desandou e virou esta crônica. Para contar que com o agradecimento, Marco Antonio envia o conto que vai aí abaixo. Para publicá-lo fiz alguns juramentos que mais abaixo ainda vão publicados. Por favor, desça até o último degrau.


Nosso Onze
Por Marco Antonio Arantes* 
“O nosso onze”, fui repetindo mentalmente para não esquecer, “fará o possível para levar muita alegria a essa torcida maravilhosa e brilhar dentro das quatro linhas do gramado com muito respeito pelo adversário, graças a Deus”. Essas belas palavras não eram minhas; eram do Professor Valcério, mas caberia a mim dizê-las ao ser entrevistado pela rádio. Nosso onze, o “Aguerrido de Martyrios”, ia jogar na capital.
De início, achei que o convite fosse brincadeira. Cidade pequena, longe de tudo, time pobre, sabe como é. Recém tínhamos conseguido, afinal, comprar um jogo completo de camisas iguais para todos os atletas. Escolhemos as cores do Fluminense, do Rio – ou melhor, do Rio de Janeiro – melhor ainda, da Capital da República. Calções, meias e chuteiras tiveram que sair de um bingo feito às pressas, assim que eu, o técnico, obtive confirmação do convite, por telegrama de ninguém menos que Rozendo Lima, comentarista esportivo do jornal e da rádio da capital. Joelho mole, frio na boca do estômago, li de novo a mensagem: “Tenho grata satisfação informar estimado desportista seu time aguerridos de martyrios selecionado disputar troféu AS Propague vg campeonato várzea versus interior a vinte sete corrente vg nesta capital pt esquadra deverah comparecer véspera vinte e seis mariohotel pt hospedagem alimentação atletas por conta patrocinador óleo glostora pt confirmar pt sds desportivas Rozendo Lima”. Esquadra. Éramos nós. Saudações desportivas – esse Rozendo Lima era um danado.
Pois fomos. Chegamos. “O nosso onze fará o possível para levar muita alegria a essa torcida maravilhosa e brilhar dentro das quatro linhas do gramado com muito respeito pelo adversário, graças a Deus”. A viagem toda aquilo foi zumbindo na minha cabeça. Fui repetindo para mim mesmo, baixinho, tentando diversas entonações. Com a voz bem profunda, e fazendo uma pausa dramática, um elemento de suspense entre o “gramado” e o “respeito aos adversários”, ficava ainda mais bonito. Aquele professor Valcério era um poeta, um Castro Alves, um Portinari. Eu queria que ele também tivesse mencionado o “nobre desporto bretão”, mas não deu para encaixar. Pois fomos; pois chegamos. Não havia, na rodoviária, o comitê de recepção que, supusera eu, viria dar-nos as boas-vindas. No hotel, tampouco. Modos da capital. Ninguém da rádio; ninguém do jornal. “O nosso onze fará o possível …”. De muito favor, o gerente do Mário Hotel sabia que chegaríamos. Éramos doze. Três quartos, banheiro no fim do corredor. Comida passável; sendo véspera de peleja, proibi o consumo de álcool ou saídas após o jantar: era a esquadra em concentração. Coisa de profissional.
Dia seguinte, estádio. Vestiário. O adversário seria o Alonzanfã, da várzea – mas várzea da capital. E nada de imprensa. Já íamos adentrar “as quatro linhas do gramado, com muito respeito pelo adversário, graças a Deus”, quando, afinal, materializa-se à minha frente, microfone em punho, ninguém menos que ele, o comentarista; ele, o jornalista, ele: Rozendo Lima. Gelei. “Temos aqui conosco, estimados rádio-ouvintes, o brioso técnico da esquadra interiorana, nosso estimado amigo … nosso particular amigo …” – cobrindo o microfone com a mão, perguntou-me “Como é mesmo o teu nome, querido?”;  “É José Eleutério, seu criado”; “ … nosso particular amigo José Rogério, que vai nos dar as suas impressões sobre o embate que está por travar-se – o microfone é seu, João Silvério”. O microfone. Meu. Lembro que o céu era azul, que havia eucaliptos, tão altos, do outro lado do campo – e que o mundo rodou. O microfone. Ouvi, longe, um fiapo de voz dizendo “O nosso onze … o nosso onze”. Pronto, o nosso onze. Diabos, como era o resto? “O nosso onze …”. Aí lembrei: “O nosso onze graças a Deus”.  Foi o que eu consegui responder ao microfone de Rozendo Lima: “O nosso onze, graças a Deus”. Morri. A vergonha era tanta que nem quis mais saber do jogo. Vir de tão longe para dar vexame na capital; matuto metido a falar na rádio dá nisso. O nosso onze graças a Deus. Só eu mesmo. Martyrios inteira tinha ouvido; o bar do Nicanor, em peso, estaria numa gargalhada só. O nosso onze, graças a Deus. 
Emplacamos um gol já de saída, e nem chegou na metade do primeiro tempo, pimba, o segundo. O juiz roubando que era um descaramento para o time deles. Segundo tempo; mal apitou, outro nosso. Três a zero. Aí, no finzinho, o juiz cavou um pênalti pro adversário. Bateu Edejaime; nosso guarda-valas, Devanyl, segurou bonito. Placar final, três pra nós, banana pra eles. Vergonha coisa nenhuma; vergonha é roubar e não poder carregar. Não vi mais nada; era só abraço, muito tapa nas costas; botávamos o nome de Martyrios lá no alto do desporto estadual. À nossa frente, Rozendo Lima entrevistava o árbitro da peleja, Sargento Blênio, vulgo Bocachucha pela falta de dentes, em cima e em baixo – além de desdentado, larápio, o desgraçado. O céu era azul. Havia eucaliptos, e a vida era bela. Fui até eles, arranquei o microfone do repórter e declarei, alto e bom som: “O nosso onze, estimado rádio-ouvinte, o nosso onze é foda!!!”. E enfiei-lhe a mão, merecidíssimamente, nos cornos do Meritíssimo.
*Marco Antonio Arantes é autor de Romãs Maduras. Contos, lançado pela editora Terceiro Nome, em 2005. www.terceironome.com.br  


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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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