O almoço

Juvenal chegou empolgado à barbearia e disse:

– Bom dia! Estou pensando em abrir um restaurante com meu filho. O ramo vem crescendo cada vez mais. Afinal de contas, quando homem e mulher trabalham fora mais restaurantes são procurados. Creio que há boa margem de lucro.

O barbeiro diz a Juvenal e aos demais amigos:

– Só um instante pessoal, o Antunes Carriel vai dar uma notícia interessante sobre os presídios; vou aumentar o volume do rádio. Escutem, ele vai começar:

– Há dois anos a então ministra presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e também presidente do (CNJ) Conselho Nacional de Justiça, Cármen Lúcia, disse que o Brasil gasta 13 vezes mais com um preso do que com um aluno da rede pública de ensino. Por exemplo, enquanto um preso custa para o Estado 2,4 mil reais – por mês um aluno do ensino médio custa 2,2 mil reais – por ano. Segundo pesquisas a população carcerária no Brasil hoje deve ser de aproximadamente 750 mil. Então faço uma breve reflexão com os amigos ouvintes. Todos sabemos quem paga as despesas dos presos. Vou ficar em apenas uma delas, a alimentação, os almoços, por exemplo. Imagino que um almoço deva custar hoje, levando em conta alguns fatores como o local onde fica o restaurante, o tipo de comida servida e assim por diante que um almoço talvez custe em média, digamos, uns 20 reais. Agora, pessoas que servem, que vendem, que vencem licitações para fornecer almoços para os presos, os vendem por quanto? Pelo valor mais em conta possível? Haveria possibilidade de ter superfaturamento? Digo mais, caros ouvintes, imagine você vencendo uma licitação e fornecendo o almoço para um presídio que comporta, digamos aí, uns 10 mil presos.

Suponhamos que cada almoço custasse, chutando em média, 50 reais; isso os levaria à matemática; 10 mil almoços por dia vezes 50 reais. Detalhe, todos os 365 dias do ano. Quem está ganhando com isso? Podemos imaginar que são mais de 700 mil presos sendo alimentados todos os dias do ano. E não é só o almoço; há o jantar, o café, o leite, o pão. Sem contar escovas de dentes, preservativos e aí vai Então, meus caros ouvintes, feliz de quem fornece essas coisas ou o almoço. Procurem calcular o valor total, talvez se aproxime, talvez passe longe. Mas uma coisa é certa, dá pra começar a entender o porquê parece mais interessante gastar 13 vezes mais com uma população carcerária que não para de crescer do que com alunos da rede pública de ensino. Presos amontoados e não sendo preparados para voltar a vida em sociedade. Do outro lado, crianças que chegam à escola sem educação, que deveria vir de casa, e então jogam na sala de aula aos professores todas as dificuldades dessa falta de educação trazida de casa. Se um preso custa 2,4 mil reais por mês não queiram saber quanto ganha um professor. Talvez o radialista, o barbeiro, o professor e sabe lá quem mais gostaria de montar um restaurante. Não para ter sobras e prejuízos; sim, há os dias de pouco movimento em que há perdas para os donos desses restaurantes. Venda garantida e bem paga a todos, todos os dias do ano, só em alguns lugares e para os privilegiados. Por ora é isso meus amigos; me aborreci; perdi a fome. Intervalo comercial e já voltaremos com mais informações. São 10 horas e 47 minutos.

– Caramba – disse o Felisberto, e acrescentou – eu nunca havia pensado nisso.

O barbeiro baixou o volume do rádio e disse ao Juvenal:

– Me desculpe, Juvenal. Tu estavas falando do restaurante que pretendes abrir com teu filho quando te interrompi para ouvirmos o Carriel. Afinal de contas, onde pretendem abrir o restaurante?

Juvenal coçou a cabeça e disse meio atordoado:

– O quê? Ah, sim, o restaurante. É. Acho que… Bem, estou com outra ideia e vou falar com meu filho. Até mais tarde!

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