O amigo Salim

A grande maioria dos catarinenses conhece Salim Miguel pelas suas magníficas obras. Mas eu acrescentaria outras virtudes deste amado mestre e grande amigo.

Salim Miguel

Salim é um dos grandes conhecedores da literatura brasileira e de muitos outros países. Certa vez, no começo dos anos 1980, o telex (aparelho que nos enviava notícias internacionais e nacionais) comunicava, por volta das 20 horas, em O Estado, que o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura era um grego, cujo nome desconhecíamos. A alternativa seria aguardar a matéria da Associated Press ou do Jornal do Brasil (é bom lembrar que não havia internet). Mas resolvi ligar para Salim.

Ao pronunciar o primeiro nome do Nobel, Salim não esperou para me dar detalhes do autor, além de enumerar obras. O jornal O Estado foi um dos três do Brasil – além de Jornal do Brasil e O Estado de S. Paulo – a publicar uma ampla matéria sobre o grego desconhecido pelos catarinenses.

Salim era funcionário federal, da Agência de Notícias, e estava marginalizado pelo seu pensamento de esquerda e por ser um cidadão sério e convicto, abominado pela ditadura militar.

imgres-2Conseguimos, em 1981, transferir Salim para a UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina. Foi uma conquista, graças também ao esforço do reitor Ernani Bayer e dos pró-reitores Sílvio Coelho dos Santos e Hamilton Savi, três grandes gestores e professores, que marcaram presença na Universidade pela competência, pesquisa, docência e gestão.

Salim Miguel ajudou-me a estruturar a Comunicação da UFSC voltada para a participação comunitária. Assim, a UFSC passou a desenvolver eventos marcantes, facilitados pela visão do reitor e dos pró-reitores. Realizamos os “150 Anos da Imprensa Catarinense”, uma semana com grandes profissionais, como Mino Carta, Millôr Fernandes, Marcos Sá Corrêa, Barbosa Lima Sobrinho, Villas Boa Corrêa e tantos outros admiráveis profissionais do Brasil.

Também trouxemos para a UFSC a “Bienal Nestlé de Poesia”, com Ricardo Ramos, filho de Graciliano Ramos, e inúmeros poetas, como Paulo Leminski, Mário Quintana e tantos outros. Aliás, fizemos uma gravação intitulada “Poetas entrevistam o grande poeta”, com Quintana sendo questionado. Infelizmente, essa gravação foi perdida.

Salim Miguel, na sua simplicidade e competência, construiu um prédio de três andares para a Editora da UFSC, que ele dirigiu de forma ímpar. Foi presidente da Fundação Franklin Cascaes, onde fez um excelente trabalho. E para mostrar o quanto esse querido amigo dedicou-se a Santa Catarina sem rancor ideológico, ele foi convidado pelo governador Jorge Bornhausen, em 1980, a organizar um concurso nacional de literatura, cujo nome dedicou a Cruz e Sousa. Foi considerado o maior concurso literário da América Latina na época.

Por isso, quero aqui homenagear meu amigo e guru Salim Miguel, que vai completar 90 anos em janeiro. Meu beijo a essa figura inigualável, bem como à Eglê Malheiros, sua esposa, cuja inteligência é invejável, tanto pelo conhecimento quanto pela energia crítica e ideológica. Eglê é hoje uma das poucas reservas comunistas, que veem a necessidade de o estado trabalhar a preservação social e moral, ditando as normas de uma economia imune à discriminação e ao protecionismo.

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