O apostador

Os amigos Felisberto e Torquato estavam em um bate-papo especial, aliás, o bar do Felisberto assim como a barbearia do Otávio, vizinha sua, têm essas características: sobre quase tudo se discute, mas raramente chegam a alguma conclusão lógica. Barbearias, bares, bem como motoristas de táxi e os de aplicativo sabem que de certa forma são também psicólogos; está incluído no “cardápio”.

Mas nesse dia Felisberto ficou preocupado. Torquato o deixou com uma pulga atrás da orelha. Torquato era muito otimista, embora vivendo um momento financeiramente muito difícil. Tanto era assim que quando Torquato disse:

– Do jeito que vai a situação, meu amigo Felisberto, daqui a uns 10 anos, vai haver muita gente comendo lixo.

Com o peito estufado e a mão direita levantada, Felisberto acrescentou:

– Dúvido que terá lixo pra todo mundo.

Torquato achou o comentário de Felisberto muito pessimista. Perguntou ao amigo quanto devia em seu bar. Felisberto, sabendo da situação de Torquato disse que era a 4ª vez que ele fazia a mesma pergunta em apenas 4 dias. Que não era para esquentar a cabeça. Ainda assim, vendo a preocupação do amigo, Felisberto disse que ele devia 444 reais, mas que o amigo não devia se preocupar. Queria que resolvesse seus problemas, suas contas mais importantantes e que deixasse o bar por último. Disse que estava tudo bem. Torquato abriu sua carteira e tinha 44 reais. Iria visitar seu irmão, João, que mora em Curitiba e já tinha ganhado dele a passagem de presente. Fez questão de mostrá-la a Felisberto. O amigo pegou sua passagem e disse que era um bom lugar, bem lá atrás, tranquilo, poltrona número 44. Torquato despediu-se e foi para sua casa.

Quando Torquato entra em casa vê uma mala na sala e pensa que a esposa com quem está casado há 4 anos fez a gentileza de ajudá-lo. Assim que a viu ela lhe soltou todos os cachorros da vizinhança. Disse que estava cansada. Cansada de um homem de 44 anos que depois de 4 anos de casado estava há 4 anos cada vez mais endividado e há 4 meses desempregado. E o pior, sua mania de achar que a solução viria por uma loteria, jogo de bicho ou corridas de cavalos. E corrida de cavalos não saia mesmo da cabeça de Torquato. No dia seguinte estaria em Curitiba e daria um jeito de apostar com a certeza de ganhar. A esposa, Noeli, jogou num gesto de raiva as contas no chão. Pelo menos 4 delas estavam com mais de 4 meses de atraso. E a mala que Torquato viu assim que entrou em casa não era para ele, havia mais 3, eram de Noeli. Com 4 malas prontas ela disse que tudo entre eles estava acabado, que estava de partida e se foi.

Torquato entrou em seu quarto. Sentou-se na cama. Abriu a gaveta. Pensou se a esposa não estava mesmo certa, se já não era hora de parar, mas parar como, com tantas dívidas, a maioria por causa dos jogos? Abriu sua gaveta. Viu seu revólver calibre 38. Abriu-o para ver se estava carregado. Havia 4 balas. Pensou em fazer besteira; no instante seguinte viu sua certidão de nascimento. Emocionou-se. Lembrou dos pais já falecidos. Reparou na data de seu nascimento: dia 4 de abril de 1944. Viajou em sua mente, “nasci em 4 de 4 de 44. Seu pai o havia registrado com data errada, o fizera alguns anos mais velho por uma bebedeira antes de ir ao cartório.

Uma luz parecia brilhar na mente do otimista Torquato. Para ele era como se fosse um aviso, um sinal dos céus. Seria muita coincidência. Tudo veio à sua mente: Seu nome, Torquato, a conta no bar do Felisberto, 444 reais, a passagem marcava a poltrona número 44. E havia mais. Só tinha 44 reais. A dívida total era de 44 mil reais. A mulher o lembrou de que estavam casados havia 4 anos e há 4 meses estava sem emprego e com 4 contas muito atrasadas. No revólver havia apenas 4 munições. O dia seguinte seria dia 4. Havia nascido ou sido registrado mesmo que por engano em, 4 de 4 de 44. Arrumou as malas e quando acordou assustado com medo de perder a passagem seu relógio marcava 4:44 da madrugada. Pulou da cama. Foi pegar suas cuecas, havia apenas 4 e isso o empolgou ainda mais. Ao sair de dentro de casa olhou para o lar que não queria perder por causa das dívidas, só então reparou que o número da sua casa era, 44.

Chegou em Curitiba dormindo. O motorista o chamou. Olhou no relógio, a viagem havia durado exatamente 4 horas. Torquato desceu do ônibus, olhou para o céu e agradeceu 4 vezes. Hoje, dia 4, seria o grande dia de mudar sua vida. Pagar as contas, reconquistar a esposa e voltar a ter crédito. Antes de ir até à casa do irmão resolveu primeiro fazer uma aposta na corrida de cavalos. Ainda tinha os 44 reais. Havia pegado uma carona até a rodoviária de Florianópolis e nem comeu nada até chegar em Curitiba. Ficou pensando em como conseguir mais dinheiro. Seu irmão sabia da sua situação e não emprestaria nada. De repente, vê um táxi parado. Pensa em perguntar o preço da corrida até o Jockey Club. Antes mesmo que calculasse o preço, olhou para a placa do táxi: VAI 4444. Torquato entrou no carro e abriu a vida ao taxista. Fez ele saber de tudo em uns 20 minutos. Pediu desculpas ao motorista por não ter perguntado seu nome. Ele disse que seu nome era, João 4 olho. Explicou que era um apelido que trazia da infância por causa dos óculos. Disse que estava feliz. Estava de aniversário. Torquato perguntou quantos anos o taxista estava completando. Ele disse que estava completando 44 anos. Só estava um tanto saudoso porque nesse mesmo dia fazia 4 anos que sua mãe havia morrido. Havia morrido no dia em que ele completou 40 anos e 4 anos atrás, pensou Torquato.

Toda a história de Torquato, suas dívidas, a partida da esposa, seu incrível otimismo e todas aquelas coincidências com o número 4, acabaram sensibilizando o motorista, João 4 olho, que ofereceu a Torquato, 4 mil emprestado para apostar no cavalo certo. O taxista tinha só aquele dinheiro, mas julgou que o pobre homem precisava mais do que ele. Torquato fez questão de dizer ao taxista que pagaria a ele o dobro do valor em poucos minutos, em uma hora no máximo.

Torquato entra no hipódromo correndo e mais ansioso do que nunca. Parece que todos ali sorriem para ele. Seria o hoje o grande dia. O dinheiro viria às suas mãos. As contas ficariam em dia. Faria uma poupança. A esposa voltaria orgulhosa para ele. Torquato era puro otimismo. Na hora da aposta quando perguntaram em qual cavalo apostaria, Torquato sorriu como nunca antes; disse com toda a convicção que faria a aposta num valor total de 4 mil e 44 reais. Aposta feita, hora de acompanhar a corrida. O cavalo em qual apostou, o número 4, saiu em disparada. Torquato pensou que quase fizera uma bobagem no dia anterior quando viu o revólver. O disparo certo estava bem ali, fugia aos seus olhos como um relâmpago. O valor do prêmio era grande, resolveria sua vida por muito tempo. Instantes antes da chegado do garanhão em que Torquato havia apostado seus 44 reais e os 4 mil do taxista e quando ele já pulava e gritava de alegria, 3 cavalos passaram à frente do número 4. O cavalo número 4 chegou em 4° lugar. Torquato não conseguia acreditar. Eram tantas as evidências de um sinal. Todas aquelas aparições do número 4; aquilo não podia estar acontecendo. O que diria ao taxista?

Quando João 4 olho vê Torquato à distância começa a pular de alegria. Torquato aproxima-se e diz que perdeu. Disse que o cavalo número 4 havia chegado em 4° lugar e não tinha como pagar nem a corrida nem os 4 mil. O taxista sentiu-se triste pelos dois, era tudo o que ele tinha. A única coisa que Torquato tinha a mais eram as dívidas e eram muitas. João 4 olho depois de passar a mão no ombro do apostador foi embora. Torquato estava arrasado e com muita fome. Viu um carrinho de cachorro-quente logo em frente. Levou a mão ao bolso e para sua surpresa havia 4 reais. A aposta havia sido arredondada para 4 mil e 40 reais. Ele aproxima-se do carrinho e pergunta o preço. O dono diz que custa 5 reais.

Torquato pensa que se tivesse apenas mais 1 real poderia comer um cachorro-quente. De repente vê uma moeda de 1 real no chão. Fica feliz de que vai matar a fome. Quando olha os 5 reais em sua mão e o preço do cachorro-quente, 5 reais, como que por uma luz, lembra que 5 é o número do cachorro no jogo do bicho. Ele pensa: “Cachorro é o número 5. O preço do cachorro-quente é 5. Tenho 5 na mão. O cachorro é quente, o palpite só pode ser quente”. Pensa também que pode não ser um sinal, apenas coisa da sua cabeça voltada aos jogos e atribulada com as dívidas. Pensa em comer o cachorro-quente. Nesse momento, distraído, começa a atravessar a rua. Um carro quase o atropela, buzina, desvia e para. O motorista salta e ergue a mão como que perguntando se ele está bem. Torquato faz sinal de que sim, está tudo bem. Ele pensa nos 5 dedos do homem acenando para ele. Quando olha a placa do carro que quase o atropelou, lê: SIM 5555. Ele olha para o céu e diz em seus pensamentos que é um sinal; a placa, SIM 5555, mais os 5 reais em sua mão, o preço do cachorro-quente, 5 reais e o número do cachorro no jogo do bicho, 5. Olha no relógio e são 5 e 5 da tarde e no dia seguinte será dia 5. Torquato vê uma casa de jogos bem discreta e vai fazer sua nova aposta convicto de que será dessa vez.

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