O aprendizado da música pelo rádio…

Cena Musical: o que me lembro com carinho

[ Por Ilmar Carvalho ]

Primeiro, meu pai, tocando violino (aprendeu e tocou em orquestras), com dueto vocal feminino de minha mãe, Rita e a mana Rosi. Seu César Carvalho agregava, ao ensejo, músicas que compôs, que lamento não ter guardado.Eu ia de gaitinha de boca, que andei tocando até na Rádio Difusora de Joinvile, num programa estudantil (Instituto Bom Jesus). O rádio Silvertone, comprado na casa Pieper, entre 1941/1942, completou a “iniciação musical”. Em casa, o quarteto familiar preferia canções, cançonetas, valsas alemãs, algumas. Mas o grosso do repertório eram as valsas seresteiras criadas por Carlos Galhardo, Orlando Silva, Sílvio Caldas, as marchas-rancho, os sambas-canção e as marchinhas de carnaval, o que não era pouco.

Em 1942, parece, surge a ZYA-5, Rádio Difusora de Joinvile, que na ocasião atendia meus reclamos de repertório diversificado e agregado de foxtrots, jazz quase nenhum (música Standard norte-americana), música popular européia, mais francesa, italiana, alemã, ritmos latino–americanos, em geral, mais boleros (uma praga!) e tangos. Discos clássicos eram reduzidos. Não havia, nem há hoje, passados mais de 60 anos, público. Na proporção ficou no mesmo ou diminuiu bem, ficando esse pasto de música idiota, bate-estaca ou “aporrinhola”, como assinalava Tom Jobim.

A Rádio divulgava também muita música caipira, e de boa, mas nem sempre, porque as indefectíveis duplas Ernestino & Gabardino já estavam fazendo seu pé de meia com seu bestialógico nas então chamadas “ondas hertzianas”. Havia programa próprio caipira. Havia rádio-teatro, a música para o seu almoço, uns conjuntos com canto ou instrumentos, muito chatos. Predominavam a música ligeira alemã, austríaca (operetas e valsas); as norte-americanas idem, algumas italianas e certas zarzuelas espanholas, que na ocasião ditavam moda com a opulência repetitiva dos passos-dobles. De clássicos lembro de trechos de “La Gioconda”, de Ponchielli (“A dança das horas”, de que gosto até hoje), uns concertos de Mendelsohn (violino e orquestra), um famoso violinista Fritz Kreissler, Toscanini regendo “sua orquestra”, na NBC nova-iorquina, provavelmente Brahms, Beethoven ou trechos de óperas italianas e alemãs. Foi minha iniciação.

Medularmente em casa, pois, ouvidos atentos ao que o rádio da época transmitia: música popular, quase toda do Rio, os ritmos cariocas: o samba, a marchinha carnavalesca. O chamado repertório de meio-de-ano: valsas, serenatas, tangos, milongas, polcas paraguaias, ouvidas nas estações do Cone Sul.

A Rádio Difusora de Joinvile, ZYA-5, ficou mais perto do ouvido e, além do repertório já citado, foi ampliado pela discoteca da emissora, de modo quase absoluto, pois conjuntos locais populares e de música ligeira e erudita eram raros em estúdios radiofônicos. Até 1946, meu último ano em Joinvile, a música que ouvi, grosso modo, era da emissora.

A ZYA-5 continuava a “irradiar” novidades: trechos de operetas e fragmentos de óperas, música ligeira de autores alemães, austríacos, italianos, poucas peças de concertos de Mozart, trechos de óperas italianas (Dança das Horas, balé da ópera “Gioconda”, de Ponchielli), além de Mendelsohn, Schubert, música popular latino-americana, predominância do bolero, mambo, além de foxtrots e grande parte de música standard norte-americana, algumas orquestras de jazz que figuravam em filmes de Hollywood da época: Glenn Miller, Benny Goodmann, Alvino Rey, Tommy Dorsey, primeiras gravações de Sinatra, música sertaneja, nem sempre da melhor qualidade, pois a rádio tinha até programa de dupla caipira.

Um adendo sobre a ZYA-5: A rádio era bem eclética. Além dos programas de música, dispunha de cast de rádio-teatro e programas de variedades. Lembro-me da Hora de Arte e Elegância (primitivos programas para a mulher e para a jovem), além do noticiário, voltando-se também para narrações de partidas de futebol. Paralelamente o sinistro programa de dedicatória de músicas para aniversariantes, casórios etc…

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