O Boi de Mamão do Ribeirão da Ilha

A cultura pode até claudicar quando as pessoas estão vivas, seja por falta de recursos, de apoio, de interesse.

boi-de-mamao

As pessoas se vão, mesmo assim, a cultura sobrevive. Não importam os percursos e percalços, a humanidade seguirá produzindo cultura. Tem sido assim desde os tempos mais remotos. A cultura humaniza as sociedades e nos torna vivos. Esse é nosso ponto de partida pra falar do Boi de Mamão.

Quando o rádio não ecoava suas ondas, a TV não reluzia o brilho e o contraste nos atentos olhares dos telespectadores, já existia um entretenimento nas encostas litorâneas de Santa Catarina. Popular, alegre, espontâneo, o Boi de Mamão surgiu como um folguedo genuinamente catarinense e feito pela comunidade. Foi e continua sendo um encontro, uma festa, uma reunião, uma farra.

Sua origem suscita controversas versões. Alguns dizem que tem DNA espanhol, outros que ele surgiu com a presença portuguesa, há ainda aqueles que encontram influências nas brincadeiras de bois do Nordeste brasileiro. Boi de Pano, por ser feito com tecido, Boi Mamado, já que alguns de seus integrantes participavam bêbados, ou Boi de Mamão por causa de uma cabeça feita com a fruta. Diversas são as explicações para o seu batismo. Todo esse debate é controverso e fascinante, rende saliva e tinta. Faz parte.

Mas o que vale é a essência do Boi de Mamão e a sua capacidade de arrastar as pessoas pra fora de suas casas, sobrevivendo durante séculos. O Boi de Mamão é uma brincadeira, reúne crianças, homens e mulheres. É um rito. Congrega um esforço da comunidade em seu processo criativo, conta com a confecção de roupas, adereços e bonecos, ensaio de vozes e instrumentos musicais, preparação de coreografias e encenações. É uma brincadeira livre, despretensiosa e popular. É de todos e de todas. Tem dança, música e teatro. Conta com um enredo que balança os corpos, uma estória que cativa a imaginação e uma musicalidade que mexe com os ânimos. Como uma simbiose, estabelece uma sintonia entre os participantes e os espectadores. Todos compartilham uma mesma felicidade.

O Boi de Mamão segue sua luta pela sobrevivência, na disputa com tablets, smartphones, games, TVs, numa sociedade que flerta com o consumismo e com a superficialidade. Heroicamente, sua natureza ainda consegue tirar as crianças do controle e dos controles quando elas veem uma apresentação de Boi de Mamão. Um ótimo sinal, não é? Folclore pelo folclore se tornaria cansativo e banal, passaria desapercebido pelas crianças. Em festas da comunidade, a apresentação do Boi de Mamão continua sendo o momento mais esperado, mais aguardado, um genuíno entretenimento. É arte de crianças, jovens e velhos. É para todos e para todas. É cultura, é popular!

No Ribeirão da Ilha, um bairro que preserva e cultua muitas de suas tradições, o Boi de Mamão segue vivo e reluzente. Já faleceu, mas foi ressuscitado. Percebeu-se que sem ele a vida não tinha a mesma graça, a mesma alegria. Eis que, nessa altura, o projeto Conexões Culturais e o Instituto Caros Ouvintes têm a honra e o prazer de compartilhar uma das primeiras apresentações do Boi de Mamão do Ribeirão da Ilha, depois de seu retorno. Foi numa festa do Camarão, nos idos de 1985. A comunidade passou alguns anos arrecadando dinheiro e depositando seus esforços pra que ele ressurgisse com vitalidade. Essa apresentação selou o seu regresso. Alguns dos participantes já se foram, outros continuam brincando. De qualquer forma, todos fizeram história e lutaram pela sobrevivência desse folguedo popular. Vale citá-los.

Vaqueiros: Humberto Deu e Valcir – Titi; Cabrinha: Fernando; Bicho Selva: Aurélio Lelo; Cavalinho: José; Boi: Osvaldo; Anão: José; Doutor: Zé da Ica (In memorian); Maricota: Carlinhos; Cavaquinho: Seu Hermínio (In memorian) e Jaci (In memorian); Violão: Neri; Pandeiros: Alcides e filho do Nivaldo; Agogô: Manduca; Tambor: Olavo (In memorian); Voz: Nivaldo; Confecção dos bonecos: Nei Baptista e Ita.

Enquanto a vontade de estar nas ruas, o desejo de unir e alegrar as pessoas, e o esforço para preservar nossa cultura prevalecerem, vai continuar existindo Boi de Mamão. “Olê, olê, olê, olê, olá, arreda do caminho que a bernunça quer passar.”

Que assim seja.

Apresentação do Boi de Mamão Ribeirão da Ilha (1985)

Obs. Um agradecimento ao professor Nereu do Valle Pereira por preservar um acervo com registros em VHS dos Bois de Mamão da cidade.

Para saber mais, ver:

– Tema e variantes do mito: Sobre a morte e a ressurreição do boi – Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti

– O Boi de Mamão  –  Folguedo  Folclórico  da  Ilha  de  Santa  Catarina, Nereu  do  Vale  Pereira

 

Por Diego Pacheco e Tiago João José Alves

Categorias: , Tags: , , ,

Por Diego Pacheco

Doutorando em História pela UFSC, é um dos idealizadores do “Conexões Culturais”, projeto que busca estreitar os laços entre a comunidade e a universidade. Participa também do projeto “Entre histórias”, um estudo sobre a televisão pública como espaço de crítica e reflexão historiográfica e um programa televisivo em formato de mesa redonda onde serão debatidos temas da atualidade e de interesse público.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *