O boi de mamão vai ao Teatro Guaíra, em Curitiba

Em 1978, me encontrava com problemas econômicos e não sabia como resolver, pois aguardava a chamada da Caixa Econômica Federal, onde tinha passado em concurso público.

Teatro GuaíraFoi quando minha esposa Clarice, com o ator Oswaldo Rocha e Aldo Bastos, sugeriram fazermos um teatro de bonecos, utilizando as figuras do boi de mamão. A peça chamava-se “As Bruxas na Ilha da Magia” e conseguimos algumas apresentações. Mas a grana ainda era muito pouca.

Kachias, Miro, Marcio, Erico e Mursa

Assim, com a ajuda do artista folclórico Nei, fizemos um boi de mamão no tamanho natural, convidamos meus irmãos e colegas para participar, e começamos a nos apresentar pelo Estado.

O auge foi um convite para participarmos de um Festival Nacional de Dramaturgia Infantil, realizado no Teatro Guaíra de Curitiba.

Além de Aldo, Mursa, Nilo e outros músicos, resolvi convidar um gaitista para compor a troupe. Enquanto ainda trabalhava no Laboratório Central da Telesc, em Capoeiras, sempre que saia do serviço, passava em frente a uma casa onde se ouvia um acordeom muito bem executado.

Quando chamei por alguém para me atender, apareceu um garoto ainda imberbe, para o qual perguntei pelo seu pai ou por aquele que tocava a sanfona e, qual foi meu espanto em saber que era o próprio: Cristaldo.

O convidei para a viagem, no que aceitou prontamente.

A organização do festival nos mandou um ônibus de viagem, no qual rumamos para a capital paranaense, ficando hospedados num belo hotel.

Clarice, Aldo e eu comandávamos uma turma de mais de trinta componentes, o que não foi nada fácil, principalmente porque o casal já estava pensando em se separar.

No dia da apresentação, que seria no palco do Guaíra, sugerimos à organização que o “boi” precisava estar mais perto do público e, momentos antes da apresentação, nos dirigimos à Rua XV de Novembro, onde desfilamos e conduzimos os transeuntes para frente do teatro, onde nos apresentamos.

O sucesso foi tão grande que fomos convidados a nos apresentar diariamente daquele modo, mas por compromissos dos demais elementos, não pudemos concretizar.

Mesmo sendo combinado que todos os grupos retornariam às suas cidades após sua participação, aqueles do nosso grupo que não retornaram foram convidados a acompanhar o evento até o final; eu fui um dos que ficou.

Mas isso me trouxe grandes problemas. Primeiro foi uma viagem de trem dos participantes a Paranaguá, quando, no retorno, os guardas do trem resolveram descarregar seu preconceito racial num tal de Pedrinho, de um grupo de São Paulo.

Era uma figura negra maravilhosa, uma criança em corpo de adulto.

Após uma discussão, o levaram preso numa pequena cidade do percurso, o que fez com que Eliane, a coordenadora do Festival invocasse a presença de seu pai, advogado, para soltar o garoto antes que os policiais apelassem para a violência.

Soubemos que fora transferido para a Capital, onde o advogado já esperava na delegacia e conseguiu sua soltura imediata.

Eliane era uma garota fantástica, apesar de patricinha. Trabalhava na Secretaria de Cultura e no Teatro Guaíra, tinha perto de 25 anos, extremamente calma e cordata e de origem privilegiada.

Aquela correria na noite fria do interior do Paraná nos aproximou, principalmente por meu casamento em crise e pela atração que exercemos um no outro.

Mas, para mim, nunca passou de uma grande amizade e fui surpreendido, meses depois de voltar pra Floripa: meu relacionamento conjugal estava novamente se ajustando quando ela apareceu num hotel da cidade, cobrando um compromisso nunca assumido.

Quando fui procurá-la para esclarecer a situação, fomos flagrados pela Clarice e meus pais em frente ao hotel, apenas conversando, mas minha esposa a reconheceu e o rolo foi grande.

Mesmo assim, acabei o diálogo deixando claro que continuaria a viver casado e que não conseguiria ficar longe do meu primeiro filho, com pouca idade. Voltei para casa e expliquei o acontecido.

Na manhã seguinte, acordei sozinho e pensei ter sido abandonado, mas horas depois ela voltou dizendo ter visitado Eliane no hotel, confirmado minha verdade, e que se tornara amiga da mesma. Mantiveram contato por mais algum tempo.

Conversando com o Bido Muniz, que nos acompanhara em Curitiba, este eticamente me informou que falara a Cristaldo que seu irmão Marcelo montara o Grupo Engenho e que precisava de um acordeonista.

Este resolveu fazer uma experiência e se encaixou no grupo como uma luva, o que quer dizer que, mesmo indiretamente, tive uma pequena participação na inclusão de Cristaldo ao Engenho.

Vale a pena comentar que “Boi Eletrônico” é o título pejorativo de uma matéria de Franklin Cascaes sobre o uso de instrumentos elétricos na cantoria do Boi de Mamão, que usávamos em algumas ocasiões.

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