O bolachão e aquela música que você e eu ouvimos no rádio

Desde que o rádio e as gravadoras, de modo quase casual, informal mesmo (exceto nos casos de jabá), desenvolveram uma espécie de parceria, os ouvintes convertidos em consumidores repetiram a frase e suas diversas variantes milhares de vezes nas lojas de discos:

– É o daquela música que está tocando no rádio…

Ou:

– Não lembro bem o nome, mas diz mais ou menos assim…

Parecia eterna a associação entre a escuta no aparelho de rádio e a compra de um bolachão de acetato ou de vinil ou, mais recentemente, do disquinho prateado do CD.
Aí apareceram a internet, os downloads e o MP3 player. Mudou tudo. Ficou mais fácil, acessível mesmo. Você pode dizer que é ilegal, mas se tornou fácil e de difícil controle. Vai surgindo um novo mundo em que o direito autoral – Quem sabe? – também vai se tornando coisa do passado.

Ah, a modernidade (ou será pós-modernidade)! Penso nela, refletindo sobre a perda de certo romantismo em tudo isto. Na mão, um velho LP. Jair Rodrigues e Elis Regina, meados dos anos 1960 (mania nova esta também de escrever “anos 1960” e não mais “anos 60”, como nós, gente de outro século, sempre fazíamos antes da virada, de 2000 para 2001). Um título – 2 na Bossa  – e, embaixo, o complemento: “Show gravado ao vivo no Teatro Paramount  – São Paulo”. Mais abaixo ainda, uma dedicatória escrita de punho, a caneta, é óbvio:

“My Fair Lady:
O Rio está um estouro. Fez dois dias de rigoroso inverno, mas ele já me pediu escusas. Aqui, está o presente prometido. Ouça-o, mas ouça mesmo. É Elis e Jair cantando músicas suas para minha gente. Mas um dia vai chegar. Elis não está cantando, está ‘agredindo’. E o Jair? Nem te conto.
Ouça-os. Este é um presente deste ‘Príncipe Etíope’ que é fã de toda menina bonita e inteligente como você.
Lídio
P.S.: Não deixe Dona Bárbara ouvir.”

Fico imaginando, nesta noite de sexta-feira, momento de alheamento, taça de vinho na mão, olhar passando de disco em disco da coleção… Porra, onde andará esse tal Lídio e essa tal My Fair Lady? Quem terão sido? E Dona Bárbara, então?

Com a capa na mão, preto e verde sobre papel acartonado branco, disco rodando em contato com a agulha, penso, entre uma baforada e outra do cigarro, onde terá ele ou ela ouvido pela primeira vez essas canções cheias de bossa? Na TV, a Record dos tempos dos Machado de Carvalho? Ou nas emissoras de rádio? Com certeza, cantarolou várias vezes escutando no radinho, talvez na Globo do Rio. Ah, esta cidade que “está um estouro”. Mas concluo mesmo: como raios alguém iria escrever uma dedicatória destas em um arquivo eletrônico, frio e insosso, um destes .mp3, que eu também, marca deste tempo, tenho aos montes gravado no minúsculo aparelho pendurado no pescoço, preso a fones igualmente minúsculos?

No áudio postado uma miscelânea com a colaboração do MSN.

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