O boletim

O guri levou bomba no ano passado, ouviu o que ninguém com um pingo de consciência gosta de ouvir, e já vai mal neste ano também. As notas que está trazendo são dramáticas.
Por Flavio José Cardozo

– Tu não tens vergonha? – indaga o pai, agitando-lhe o boletim nas proximidades do nariz.
É sempre a mesma pergunta e são sempre as mesmas desculpas: os professores não explicam direito, a preocupação em fazer boas provas atrapalha a memória, tem certa incompatibilidade com algumas matérias.
– Com algumas? Tens coragem de dizer algumas? Tua incompatibilidade é com todas elas, seu cínico! A maior nota que vejo aqui é 4.
– Tá, tá! – diz o garoto.
A mãe tenta acalmar a conversa, pede que os dois sejam ponderados, não briguem, aquilo não é jeito de pai e filho se tratarem, grito não resolve nada. Ao marido, num tom mais baixo, sugere que tenha paciência, lembre-se de que também ele foi um pré-adolescente. Não se lembra?
– Me lembro, sim. Me lembro é que levava porrete no lombo da minha pré-adolescência se não estudasse direito. Pensa que meu pai era assim mole como eu? Pois eu que não me cuidasse. Mas nunca foi preciso, nunca. Está aqui uma coisa de que me orgulho: nunca precisei de porrete no lombo para estudar.
Ninguém contesta, só ele é que estava lá mesmo. Nenhum dos três fala por um bom pedaço, cada um fica moendo seus pensamentos. O pai, catastrofista por natureza como é, já vê o filho perdido nos precipícios do mundo, um marginal, no mínimo. A mãe já não se abala tanto e tem fé no futuro. E o garoto está preocupado mesmo é em ver um jeito de se mandar dali, que aquilo está chato que só vendo.
– Li uma coisa muito interessante ontem – diz a mulher, quebrando o silêncio incômodo e disposta a restabelecer um clima de paz em casa.
     Ninguém pergunta o que ela leu.
– Li que uma porção de grandes homens foram péssimos na escola. Einstein foi um deles, os professores até achavam que ele devia ser retardado. Imaginem, o grande Einstein um retardado…
O pai levanta os olhos do mísero boletim e vê que a cara do filho ganhou uma certa luz. O crápula está gostando da conversa fiada da mãe sobre os grandes homens que foram péssimos na escola. Safado.
– E o Edison? – prossegue ela. – O Edison só tirava nota lá em baixo. Acho que nem 4 ele chegava a tirar. Depois passou a vida inventando aquele montão de coisas. Dizem que fez pra mais de cem invenções.
– Quem mais, mãe?
– Pasteur. Newton. Balzac. Esse também era outro que diziam ser retardado. Pois sim! Quando davam aquele castigo de escrever mil vezes alguma frase, sabem o que ele fazia?
– O quê, mãe?
– Usava uma caneta de três penas que bolou especialmente para esse fim. De cada vez, matava três frases.
– Legal, mãe.
– Um sem-vergonha – diz o pai.
– Tudo bem, meio sem-vergonha, mas lá um dia, bum!, virou um grande homem, escreveu uma porção de livros – defende a mulher.
– Gostei desses caras, mãe.
– E não ias gostar, vadio? – grita o pai. – Imagina se  não ias gostar. Vai, vai, já me enchi contigo. Vai, vai inventar alguma coisa.
     O guri nem pisca, sai repetindo o santo nome de Balzac (dos outros já nem se lembra) e a mãe e o pai ficam atracados numa encrenca dos setecentos diabos.
(Do livro Uns papéis que voam, São Paulo, FTD, 2003) 


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Por Flávio José Cardozo

Jornalista e escritor, nasceu em Lauro Müller no Sul de Santa Catarina e reside em Florianópolis. Integra a Academia Catarinense de Letras desde 1985. Autor de uma dúzia de livros mantém intensa atividade junto às escolas em decorrência da adoção e estudo de seus livros. Trabalhos seus têm sido adaptados para o teatro e o cinema.
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