O brasileiro, o catarinense e o ilhéu

Para entendermos as primeiras tentativas de se dar vida ao negócio da comunicação em Santa Catarina, proponho voltarmos o olhar para o início dos anos 1940 em Florianópolis.

Pracas-e-monumentos

Nosso mirante é a Empresa Guarujá de Propaganda – o serviço de alto-falantes instalado por Ivo Serrão Vieira nos altos da Confeitaria Chiquinho na esquina da primeira quadra da Rua Felipe Schmidt, em 1942.

Você, jovem leitor – estudante, professor, pesquisador, publicitário ou não – já deve ter esbarrado em muitas dúvidas sobre como eram as relações sócio-econômico-culturais que predominavam em Santa Catarina na década de 1940. A começar pelo fato de que os anos 1940 tiveram dois períodos diametralmente opostos: os primeiros quatro anos foram consumidos pelo terror da Segunda Guerra Mundial e os seguintes até o final da década foram anos de intensas mudanças políticas, econômicas e sociais.

O Brasil e Santa Catarina viveram episódios marcantes. A ditadura Vargas que se iniciara em 1930 foi derruba em 1945 com a deposição de Getúlio Vargas e em Santa Catarina, como nos demais estados, a efervescência política predominava com a mobilização proporcionada pelas eleições que voltariam a ser realizadas e pelas mudanças que os resultados da guerra impunham como imediatos. Mas, o contexto em sua complexidade, por mais favorável que fosse, mantinha entraves atávicos que se opunham à velocidade das transformações propostas.

Percebendo a distância que estamos dessa época e daquela realidade, quando escrevíamos o livro Caros Ouvintes – Os 60 anos do Rádio em Florianópolis, Ricardo Medeiros e eu, solicitamos ao professor e pesquisador Celestino Sachet que nos desse uma panorâmica de contextualização daquela época. Destaco a seguir o trecho em que ele retrata numericamente o que eram o brasileiro, o catarinense e o ilhéu com dados a partir de 1940.

“O Recenseamento Geral de 1º de setembro de 1940 garante que a população brasileira alcançava 41.236.315 habitantes. Desse total, 32% viviam na zona urbana e 68% fora das cidades. Apenas 43% dos recenseados, com mais de cinco anos sabiam ler e escrever”.

“Segundo o mesmo documento, a população de Santa Catarina atingia 1.178.340 habitantes. A proporção de alfabetizados, com mais de cinco anos, era praticamente a mesma da média nacional. Mas 82% dos catarinenses viviam na zona rural, precisamente 924.623 habitantes”.

“A organização administrativa de Santa Catarina contava com 44 municípios. Florianópolis, com 46.771 habitantes não era o mais populoso. Perdia para Araranguá, com 59.273; Tubarão, 53.717; Lages, 53.697 e Campos Novos, 52.689”.

“A população da cidade-sede do município, a Capital, com 25.015 habitantes, perdia para Joinville, com 30.040; Itajaí, 25.324; Blumenau, 25.130 e Rio do Sul, 25.076”.

“As sedes dos municípios próximos à Capital eram pequenos aglomerados já que Biguaçu contava com 10.251 habitantes; Palhoça, 7.375; São José, 5.787 e Tijucas, 9.681. O distrito de João Pessoa, hoje Estreito, então pertencente a São José, tinha 13.175 habitantes. Somando a população da Capital, com o distrito do outro lado da Ponte e mais o distrito da Trindade, com 3.447 habitantes, a Grande Florianópolis de 1940 sediava 41.625 habitantes, de longe o maior conglomerado urbano do Estado”.

“Analisando o exercício das profissões exercidas na Capital, chama a atenção o pequeno número de mulheres em atividade. Na Indústria Extrativa trabalhavam 1.210 homens e quatro mulheres; no Comércio de Mercadorias, a proporção era de 1.397 para 121; no Comércio de Imóveis, 1.074 para quatro; no Transporte e Comunicações, 739 para quatro; na Administração Pública, 996 para 298; na Defesa Nacional e Segurança, 1.156 para zero”.

“Nesse mesmo ano, em todo o Estado, o número de inscritos nas escolas públicas e particulares atingia 124.192 alunos, cerca de 11% da população. No entanto, 118.025 freqüentavam o ensino elementar – 1ª a 4ª séries – e apenas 4.322 estavam matriculados no ensino médio – 5ª a 8ª séries. Muito pior, era a situação do ensino superior que contava com 133 alunos matriculados na Faculdade de Direito de Santa Catarina, a única instituição desse nível de ensino implantada em nosso Estado.

Trinta e seis alunos estavam matriculados em outras instituições de ensino superior pelo Brasil afora. Em 1940, viviam em Santa Catarina 1.439 homens e 80 mulheres, portadores de curso superior. Desse total, 276 homens e 15 mulheres residiam na Capital”.

Na próxima, e semanas seguintes, vamos ampliar esse quadro de referência até chegar, novamente, aos investimentos pioneiros que resultaram no atual mercado de comunicação catarinense que em 2012 já havia ultrapassado o primeiro bilhão de reais.

Os dados dessa etapa da pesquisa fazem parte do livro Caros Ouvintes – Os 60 anos do Rádio em Florianópolis, de autoria de Ricardo Medeiros e do locutor que vos fala e que foi lançado em 2005 pela Editora Insular sob bênção da Associação Catarinense de Imprensa (Casa do Jornalista) com apoio do governo do estado de Santa Catarina. E também com dados do livro Memórias da Radiodifusão Catarinense editado por iniciativa da ACAERT e coordenado por Marco Aurélio Gomes e eu, Antunes Severo.

Este artigo faz parte da série Apontamentos para a História da Propaganda em SC

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *