O CHEIRO DO CAFÉ A GENTE SENTE PELO RÁDIO

A primeira pessoa a ter um rádio em Braço do Norte, no sul catarinense, é o senhor Jacó Batista Leandro, um rádio à bateria. A vizinhança, formada pelos que não tem rádio, juntam-se na casa dele para escutar aquelas vozes maviosas oriundas do receptor.
Por Ricardo Medeiros

O aparelho fica numa mesinha e ao redor todos sentam ao chão, velhos, adultos e crianças. Num determinado dia a dona da casa diz para o pessoal:
-Enquanto vocês ficam escutando o rádio, eu vou fazer um cafezinho.
Por coincidência, no mesmo momento em que a senhora passa o café na cozinha, é veiculada no rádio uma propaganda sobre uma marca do produto. Presente à casa do senhor e senhora Batista Leandro, uma mulher faz a seguinte observação:
-Engraçado, até o cheiro do café a gente sente pelo rádio.
A história ilustra o poder e a fascinação deste meio de comunicação junto à população. Nascido em território brasileiro em 1922, o rádio trilha por várias fases e sobrevive, ao contrario do que muito pessimistas apregoavam.
As décadas anteriores aos anos 1940 e 1950 servem de experiência para o que vai se suceder. Ao serem fabricados no país, os receptores ficam mais baratos e acessíveis, pelo menos para quem mora nos centros urbanos. O rádio começa então a ser considerado uma necessidade, um objeto fundamental dentro de casa. Mais um utensílio a ser adquirido pela família.
Não importa a marca do aparelho-seja Philips, cujo receptor é anunciado como « A chave que lhe abre o mundo », seja General Eletric, RCA Vítor ou Semp- ele ganha um lugar de destaque nos lares : ele repousa sobre uma mesa na sala de estar ou na sala de jantar. É uma era , considerada a de ouro do rádio, em que cantores e cantoras, radioatores e radioatrizes,  e locutores, os « speakers », tornam-se famosos e venerados pelo público. É a era de cantar com as irmãs Miranda: « Nós somos as garotas do rádio, levamos a vida a cantar”.
Quando da chegada da televisão, diversos programas e muitos profissionais migram para o veículo que une a imagem e som. Assim sendo, em momentos de incertezas, o rádio vira um vitrolão deixando de lado as grandes produções em prol da música. No entanto, o setor se reergue e vai ocupar o espaço que sempre foi seu no seio brasileiro.
As emissoras buscam o seu caminho, através de rádios genéricas, de músicas, notícias e de utilidade pública. Em tempo de bonança, o público continua fiel e seguindo o ritual de ligar o aparelho do Telégrafo Sem Fio (TSF) para ouvir as “últimas” proporcionadas pelo imediatismo do veículo.
Com a transmissão digital, o companheiro de todas as horas, ganha mais fôlego. Pelo sistema, haverá maior capacidade de transmissão de informações, podendo ser inseridos dados na programação veiculada, com grande capacidade de oferta de serviços. O som da emissora AM terá som de FM e a freqüência modulada terá som de CD.
Há 84 anos o rádio faz parte do nosso cotidiano. Vibramos, choramos, sonhamos com esse velho-moço. Todo dia é dia de rádio. É dia de emoção.


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Por Ricardo Medeiros

Doutor em Rádio pelo Departamento de História da Université du Maine (Le Mans, França). Radialista, jornalista, escritor e professor de rádio do curso de Jornalismo da Faculdade Estácio de Sá de Santa Catarina e assessor de imprensa da Prefeitura de Florianópolis. É um dos fundadores do Instituto Caros Ouvintes.
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