O cidadão, Mané Rei, Aldírio Simões

Memória | Tributo ao mané Aldírio Simões de Jesus

O CD Zininho – Jamais algum poeta teve tanto pra cantar – é o resultado de uma promoção em homenagem ao compositor, poeta e cantor Cláudio Alvim Barbosa coordenada pelo radialista, apresentador de TV e jornalista Aldírio Simões, também cronista e escritor. O show que deu origem ao CD foi realizado à noite no Teatro Álvaro de Carvalho, na Praça Pereira Oliveira, Centro de Florianópolis. Era uma segunda-feira, primavera ainda, 28 de novembro de 1994. Eu conhecia o Aldírio como fã: admirava sua atividade profissional e curtia os seus livros. Nossa intimidade ficava no “Alô, como é que vai; qual vai ser a próxima sacada?”. Ele vivia inventando coisas, eventos, promoções e atolado até o pescoço nos assuntos de carnaval.

Nesse dia do show, lá pelas duas da tarde ele me telefona e vai falando aos borbotões misturando a gíria ilhoa com suas tiradas de humor:

–       Eu to com um show hoje a anoite no TAC – aquele pra fazê a homenagem pro poeta Zininho e to precisando que você faça a apresentação.

–       Mas Aldírio eu tenho aula hoje à noite na pós-graduação…

E ele me interrompe fazendo caricatura.

–       Ah, dá uma folguinha pra rapaziada… Me safa dessa, mano!

–       Ta bom rapaji, estarei lá, brinquei.

–       Mas não vai de beca não que a noite é de samba!

Sete e meia da noite, cortina do palco fechada, subo a escadinha lateral e esbarro logo num dos músicos que estava terminando a montagem do equipamento de som. E o Aldírio? Nada do mandrião. Pergunto quem tem um roteiro pra eu me situar no barato. Um olha pro outro. Ninguém tem.

Cinco para as oito, hora marcada para começar o show, chega o Aldírio, fala com três pessoas ao mesmo tempo e vai amassando um molho de papel, folha A4, entre as mãos descuidadas.

Me meto na conversa e pergunto pelo roteiro. E ele rápido me entrega o rolo de papel.

–       Tá tudo aí, irmão. Fica tranquilo que as coisas vão rodar direitinho.

Oito e quinze, logo depois da chega do Zininho, toca a campainha com o terceiro sinal e abrem-se as cortinas. Platéia lotada. Cadeiras, camarotes, corredores, 600 pessoas fervilhando no pequeno teatro.

No palco, umas 30 pessoas, entre músicos, cantores, técnicos e o apresentador. Aldírio na coxia, atento a tudo, fazendo sinais de “tudo bem” acompanhados de um sorriso maroto que era sua marca registrada.

Final das contas: o espetáculo é um sucesso e está para acabar quando vou ao encontro do Zinho para informar que a seguir ele será anunciado para agradecer a homenagem.

O Ziza, falando baixinho e fazendo aquela cara de pidão – que era um dos seus truques favoritos:

–       Mano eu to muito emocionado…

Enquanto falava foi puxando do bolso do paletó uma folha de papel datilografada.

–       Tunico, lê isso por mim…

A última composição anunciada estava terminando.

Pego o texto, olho. A respiração aumenta,  o coração dispara, mas a responsabilidade chama o profissional. Informo a plateia do pedido do Zininho e leio:

Amigos, boa noite.

Boa noite e muito obrigado por dizerem presente nesta noite.

Muito obrigado por hoje, por sempre e por tudo.

Muito obrigado aos cantores, aos músicos, aos maestros e arranjadores, aos técnicos; enfim a todos que aqui vieram prestigiar e enriquecer esta noite.

Muito obrigado por virem lapidar as pedras brutas que são meus versos e minhas canções.

Aos novos, alguns que eu só conheço pelo seu talento e seus sucessos, e outros com aquém tenho tido o prazer de conversar vez ou outra, que tenha cada um, o seu momento, a sua glória, como a que estou tendo aqui esta noite.

Muito obrigado aos velhos e antigos companheiros, que foram sempre para mim, na longa estrada da vida, cada um deles, uma sombra amiga.

Muito obrigado a vocês, público amigo, que tem como eu o privilégio de viver neste pedaço de paraíso.

Muito obrigado por terem vindo aplaudir carinhosamente a todas essas pessoas que vieram, despreendidamente, participar deste imenso carinho que me está sendo prestado esta noite.

Muito obrigado e a minha gratidão aos meus familiares: minha esposa, meus filhos, meus netos, genros e nora.

Muito obrigado por jamais permitirem que eu me sentisse, em nenhum momento, um velho e pesado fardo.

Que de suas sementes o mundo colha os melhores frutos.

Obrigado pelo amor de vocês.

Às pessoas, empresas e órgãos públicos que direta ou indiretamente apoiaram e viabilizaram esta noite, a minha mais sincera gratidão.

Bem, amigos.

No velho armário onde eu guardo, intocáveis, as minhas boas lembranças, os meus afetos e minha gratidão, há um nicho muito especial para um grande e querido amigo. O cidadão, Mané Rei, Aldírio Simões. Obrigado, irmão.

Aos que foram embora antes de nós e que hoje se chamam saudade, o meu muito obrigado por também terem vindo nesta noite. Por terem vindo, não infelizmente, para participar do espaço físico, mas para partilhar comigo, das minhas emoções.

Faço minhas as palavras de Zininho, quando hoje presto essa homenagem simples, mas cheia de ternura a quem tanto honrou o bom nome desta terra, Aldírio Simões de Jesus.

No podcast você ouve o Rancho do Amor à Ilha, composição de Zininho, interpretada por todos os integrantes das orquestras e conjuntos que participaram da homenagem: Márcio Martins, Edi Santana, Leleco Lemos, Neli Silva, Jane Pereira, Soninha, Cristina Vianna, Gisele Vianna, Elisah, Luiz Carlos Adriano, Janet Machnacz,  Patrícia Ribeiro, Janaína Ribeiro, Márcio Cavalheiro e Cláudia, Jair Dutra, Detto, André Calibrina, Maria Helena, Paulinho Carioca, Sabará e Alberto Vitor.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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2 respostas
  1. Murilo Ribeiro says:

    Hoje tive a felicidade de conhecer o samba Deixa a Porta Aberta, e pesquisando na internet, descobri se tratar de uma obra do Zininho. No fim das contas, acabei vindo parar aqui nesta postagem e fiquei sabendo da existência deste CD (Zininho – Jamais algum poeta teve tanto pra cantar). Procurei feito um louco na internet em busca de algum site ou blog onde pudesse baixá-lo, mas foi em vão.
    Existe a possibilidade de disponibilizá-lo de alguma forma para que eu possa ter uma cópia? Agradeço a atenção, e os parabenizo pelo belo trabalho.

    Abraços,
    Murilo Ribeiro

  2. Antunes Severo says:

    Caro Murilo,
    O CD foi gravado em em 1994 quando da promoção de um show em homenagem ao Zininho, promovido pelo Aldírio Simões, com o patrocínio do Besc – Banco do Estado de Santa Catarina.
    Temos um exemplar no acervo do Instituto Caros Ouvintes, mas não temos a autorização de ceder cópias.
    Na próxima semana vamos contatar com a Cláudia Barbosa que administra o acervo musical do Zininho e então voltaremos ao assunto.
    Grato pelo contato.

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