O comércio da dignidade

selo-armazemÉ tempo de aumentar o número de ditados conhecidos pelos homens, ou refrescar a memória dos mais sabidos com palavras que eles já conhecem. Um dito popularesco é a base desses pensamentos, e outros vêm de brinde. Sem mais suspense, eis a libertação dos dizeres que são o eixo dessa narrativa. Não é comum aos autores entregar tudo no primeiro parágrafo, mas no auge do bom humor de um ranzinza, tudo é possível, então aí está: o trabalho dignifica o homem!
Agora, vamos criar cenário e ilustrar a força dessa reflexão com um pobre coitado personagem. Deixemos de lado quaisquer identificações. Trata-se de um garoto que ainda não é dono do próprio nariz (mais ditado), para ser mais exato, no cume da puberdade, quando as espinhas e os cravos sintetizavam uma bela descrição da face e as preocupações são a escola e os romances possíveis com as menininhas difíceis da mesma idade.

O rapazola é o genro que toda sogra queria ter. Sua idade é pouca para entrar num emprego, mas ele trabalha curtas quatro horas por dia, com folga nos feriados e finais de semana. Ganha um salário mínimo, mas seu combustível é ouvir dos seus colegas, pessoas bem-sucedidas, que está no caminho certo. O nosso inocente trabalhador deu passos maiores, ao deixar seu primeiro emprego, para trabalhar na empresa que o encaminharia a carreira por ele desejada, a de jornalista e, nesse caso, nada melhor que experimentar a rotina de um jornal.

O bode foi amarrado no lugar errado e o coitado deu com os burros n´água. Lá está o precoce trabalhador pensando que garante o próprio futuro. Dois anos de dignidade assinados na carteira e a conhecida distração trazida pela rotina e pela expectativa de ascender profissionalmente, socialmente, financeiramente, exemplarmente.

Quem não tem cão caça com gato. Esse ditado irrita o sonhador personagem. Ele quer achar a matilha de cães e deixar os felinos miando sozinhos. Não dá pra caçar com gato. Oras, é ridículo sair com um deles preso a uma coleira. Tudo bem que são rápidos, mas são sensíveis e independentes, enfim, não são ferozes como alguns cães e nem os melhores amigos do homem. A ideia dele é realizar caçadas perigosas com seu companheiro predador.

Esse é o caso de um apressado. E a pressa tem dois ditados para discriminá-la. O apressado além de comer comida crua, também não faz as coisas com perfeição. Diante dessa pressão pessoal, a angustia trancafiou-se na razão deste impaciente trabalhador. Dores de cabeça começaram a visitar sua vida. Ocorreu então, um encontro entre ele e a reflexão, o que se pode considerar um fenômeno da atitude humana nesses tempos.

Chega de ditados iniciando parágrafos! E de acompanhar a vida do nosso verdadeiro personagem de ficção. É hora de filosofar. O mundo é o melhor lugar para quem pensa . É ótimo para os filósofos e para os escritores. Pois nele, está o ser humano, que num golpe de sorte virá a ser discípulo das gotas de razão deixadas através da palavra escrita. É verdade que o mesmo também serve para os músicos e, hoje, principalmente para uma centelha de idiotas que aproveita a fama para disseminar na cabeça de outros idiotas tolas convenções como aquela do primeiro parágrafo.

O jornalista, profissional que o garoto pretende ser, também é um pouco escritor. É muito menos responsável. É mais cobrado, menos importante, mais mentiroso, tão arrogante quanto. Mas a maior das vantagens do escritor sobre o jornalista é a liberdade. O escritor é tolhido em pouquíssimas ocasiões, o jornalista todos os dias em que trabalha.
Imaginem se no próximo primeiro de maio, Dia do Trabalho, algum colunista de jornal dissesse para todos os seus leitores que o trabalho dignifica o homem. Não seria nenhuma novidade, a não ser que ele finalizasse o texto lembrando que o trabalho enriquece o patrão, e que os empregados são comerciantes da própria dignidade.

Vamos além: imaginemos também que o editor falhe na revisão e permita a publicação dessas palavras. Ora, no dia seguinte, o jornal carregado de notícias velhas, traria também essa nova notícia a respeito do trabalho. Na verdade, não é essa uma novidade, todos sabemos disso. Uns entenderam tão cedo que conseguiram virar patrões de outrem. Outros, preferiram trabalhar como autônomos ou liberais. Tem ainda os mais ousados, que preferiram a mendicância e os que se acham espertos e saem a roubar o suado dinheirinho dos que trabalham cegamente.

A novidade é a publicação. No dia seguinte, os dois, jornalista e editor, estariam no olho da rua por ordem de um patrão enfezado, irado, que teme uma rebelião de seus funcionários. Se todos lembrassem que não estão enriquecendo mais e mais como ele, seria como se um fósforo fosse riscado perto da gasolina. É o despertar de uma anárquica explosão de consciência que não levaria ninguém a lugar algum.

A capacidade de pensar e mais do que isso, de mobilizar o pensamento da maioria está com os mais poderosos financeiramente, socialmente, profissionalmente, infelizmente. Esses mesquinhos não querem largar seus grandes ossos e o lambem como cachorrinhos famintos, ávidos por mais, mais, mais. Do lado de fora da casinha desses cachorros, os vira-latas caçam mais alimento para os cães com pedigree roerem e matarem sua insaciável fome.

Essas palavras bem poderiam sair da boca daquele decepcionado e desempregado garotinho. A frustração, já se sabe, é a expectativa não correspondida. Quando se erra na dosagem dos sonhos e na velocidade para atingi-los a frustração se deita conosco à cama. Essa é a situação de quem não tem a paciência de erguer um castelo colocando tijolinho por tijolinho como fazem os homens empregados. Esses se sentem felizes porque não estão na taxa de desemprego anual mostrada, notem a ironia, pelo jornal.

A credulidade dos homens é a razão da sua resistência e por isso mantêm vínculo empregatício e são funcionários da high society. Há que se lembrar que o trabalho é pago com dinheiro, substantivo começado em D e que, verdadeiramente dignifica o homem. É com ele que se pode comprar o poder. É com ele que se compra o trabalho. É com ele que se compra o suor alheio. O dinheiro é responsável pela existência dos jornais, que mesmo tendo poucos leitores, existirá com uma meia-dúzia de patrocinadores.

Sujos pelo suor da rotina, os homens chegam cansados em casa e não têm condições para dar mínima atenção aos filhos, ao casamento, aos cães. Eles não são mais jovens na puberdade que se preocupam apenas em passar minancora na cara para sumir com as espinhas. Eles também já conquistaram o amor da garota do colégio. Sua preocupação é controlar as despesas da casa, a fim de fazer alguma reserva, para daqui uns anos adquirir bens materiais. Assim os casais se separam, assim os filhos entram nas drogas e assim os cães deixam de ser o melhor amigo do homem.

É essa gente cansada de assunto sério que venera lama musical, ama literatura porca, exalta astros medíocres, vota em políticos, ri do cinema podre, fuma maconha, acelera carros alcoolizada e encerra suas vidas sendo assim desprezíveis. Que uma sociedade com esses hábitos é tola todos sabem. Isso parece assunto de jornal, ou seja, notícia velha, porém, uma parcela da humanidade que prefere viver na surdez não pode calar os falantes, ou serão todos burros.

Nos confins da vida, os sobreviventes da contemporaneidade serão salvos pela aposentadoria. Um benefício que se encontra logo ali, no ponto mais alto dessa vidinha banal, quando poucas forças restam para viver. Mas, se eles pagarem uma academia e cuidarem da alimentação, talvez tenham saúde para morrer bem. O importante é que os trabalhadores mantenham viva a senhora que por último morre. Enquanto respirar a esperança, a existência fútil do homem merecerá algum crédito.
Epílogo:
E viva a democracia e viva a liberdade de expressão e viva a greve que é a máxima expressão de liberdade dos empregados da contemporaneidade. Quanto mais eu conheço a vida na Terra, mais eu tenho curiosidade sobre a vida dos loucos.

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Por Nicolas David

Estudante de jornalismo. Aos 13 anos, rabiscou as primeiras ideias, sentado no sofá de casa, brincou de fazer poesia e depois disso não parou de exercitar a escrita e a leitura. Costuma viajar em crônicas e se mete a analisar o mundo em artigos de opinião. O pretexto é ver integrados os distintos e distantes universos do acadêmico e do profissional da redação.
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