O dia em que matei “Irmã Dulce”

Era diretor da Rádio Excelsior da Bahia AM, ligada à arquidiocese de Salvador, então sob orientação de D. Avelar Brandão Vilela, cardeal arcebispo e primaz do Brasil à época.

A Rádio Excelsior foi uma tentativa de se ter uma rádio baiana inteiramente voltada para a informação, coisa que o temperamento baiano, principalmente dos radiodifusores sempre rejeitara até então. Tanto que os colegas de outras emissoras criticavam-me, alegando que eu queria fazer uma rádio que ninguém iria ouvir.

Mas, para sustentar essa idéia de rádio jornalística, tínhamos nossos programas de variedade e uma boa equipe de produtores e jornalistas para introduzir noticiário atualizado em todos os programas. Até então, as rádios nunca haviam trabalhado com equipe de produção para cada programa.

Introduzir essas modificações, disciplinar profissionais, incutir-lhes senso de responsabilidade era uma dura tarefa. Muitas vezes precisei ir ao Maciel, o antigo brega do Pelourinho, para trazer de volta meu chefe de jornalismo, que se recolhia ao pitoresco recanto, acompanhado de alguns de seus comandados para tomar umas cervejinhas e curtir carícias, às três da tarde. Eles reclamavam:

“- Vá devagar, companheiro. Você não está em São Paulo. Aqui é Bahia, o ritmo é outro…”

Foi por conta desse tipo de displicência que cometi uma de minhas maiores “barrigas” no rádio.

Por ser ligada à Igreja Católica a Excelsior tinha um relacionamento estreito com Irmã Dulce e seu trabalho social. A bondosa freira participava sempre dos programas, solicitando alguma coisa, pedindo ajuda para seus pobrezinhos, dando orientação aos que sofriam. Era, sem dúvida, uma figura carismática e querida de todos, até por não religiosos. Por isso era chamada pelo povo baiano de “anjo bom” em razão de sua luta, cuja história é maravilhosa.

Mas a nossa Irmã Dulce tinha uma saúde muito frágil, falava muito baixinho, devagar, andava arcada, era muito magrinha, pequenina. Isso tudo ressaltava seu aspecto doentio. Constantemente era internada com sérios problemas respiratórios.

Toda vez que isso acontecia, surgiam especulações de que estaria à beira da morte.

Num desses internamentos mais longos, a percepção geral era de que ela não sobreviveria. Boletins médicos preocupantes, tensão geral nos corredores, a impressão de que, a qualquer momento teríamos de anunciar o pior.

Como sempre fazemos nessas ocasiões, mandei preparar um programa especial, contando sua trajetória, para divulgação no dia de sua morte que parecia iminente. Várias sonoras com suas participações nos programas entrevistas com autoridades, prefeito, governador, presidente, enfim, tudo o que era preciso para a hora do desenlace.

Para não sermos “furados” pelas concorrentes, o que seria um desastre para nós, escalei um repórter exclusivamente para acompanhar de perto tudo o que se passava no hospital. A orientação era a de informar tudo e, se ocorresse o passamento, ele deveria entrar no ar imediatamente.

Assim foi. Numa tarde creio de uma quarta ou quinta feira, nos idos de 86 ou 87, não me lembro bem, o repórter liga para a rádio. Atendi. Ele estava aflito.

“- Chefe. A Irmã Dulce acaba de falecer. Posso entrar no ar?”

“- Você tem certeza? Está tudo confirmado? Você verificou tudo?”

“- Claro, chefinho… tudo quentinho. Em cima da hora. Acabou de acontecer…”

Corri para o estúdio, pedi ao operador que colocasse no ponto o necrológico antecipadamente preparado e chamei o repórter. ´

Ele entrou solene, com voz entristecida, quase chorando.

“- Informamos aos ouvintes da Rádio Excelsior, em caráter extraordinário, que Irmã Dulce acaba de falecer. Estamos aguardando informações da equipe médica que fará um pronunciamento especial dentro de alguns minutos. Voltaremos daqui em instantes. Pimentel”.

Entrei do estúdio, chamei a edição especial que tinha, mais ou menos, uma hora de duração. Depois de uns 10 minutos de gravação toca o telefone no estúdio. Era Zezé, a telefonista.

“- Pimenta. A Irmã Dulce no telefone”

“- Como é? É alguma brincadeira?

“- Não. É a Irmã mesmo. Atende ela ai”.

Do outro lado, a voz fraca e arrastada de Irmã Dulce:

“- Pimentel, meu filho. Aqui sou eu, a Irmã Dulce. Eu ainda não morri não. Estou viva, graças a Deus. Pára com isso, que já tem uma multidão aqui em frente ao hospital”.

O repórter, irresponsável, ao invés de ficar em seu posto, conforme o combinado, escapava para a casa, possivelmente, de uma namorada, ali por perto do Hospital. Tinha deixado uma funcionária encarregada de ligar para ele assim que houvesse um fato novo, o típico jeitinho brasileiro. Não sei por qual razão essa funcionária ligou dizendo que Irmã Dulce havia morrido. Ele, sem verificar e sem se dirigir para o local, acreditou na fonte e “matou” a combalida irmã, que continuava vivinha e que só veio a falecer alguns anos depois, em 1992.

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *