O Diário de Bordo traz hoje a segunda crônica da série ligada ao rádio

Casildo ouvia mal

“O governador como se pode ver é um mestre em esquivar-se de questões que não lhe interessam com graça e esperteza, quase sempre perceptíveis”.

Por Marcelo Fernandes

O ex-senador Casildo Maldaner, é o terror dos apresentadores de televisão que não o conhecem. Ainda não vi forasteiro que dissesse o nome dele direito – o problema é que o nome foi registrado errado mesmo, no lugar do “s” do Casildo deveria ser “c” para sair a pronúncia correta, além do Maldaner, onde a sílaba tônica é desastradamente feita no “ner”, mania de tupiniquim, que adora “inglesar” tudo. O senador deve odiar quando ouve a pronúncia alienígena, um golpe cruel para homens públicos que perseguem obsessivamente segundos e milímetros de espaço em televisões e jornais. Paciência. Falem de mal de mim , mas falem. Não é assim?…

Falar de uma história de Casildo é desafiar o ineditismo, visto que todo catarinense razoavelmente bem informado conhece pelo menos uma boa passagem engraçada ou pitoresca dele. O Dorvalino Furtado, com muita graça e prontidão, já reescreveu o “Casildário”, um “best seller” catarinense, com as melhores do ex-governador e senador. Arrisco aqui, portanto, uma que se passou comigo e, imagino, é inédita para as grandes platéias.

Foi no ano de 1990, quando Casildo deixou de ser “vice” e assumira o posto de governador, substituindo Pedro Ivo Campos que falecera há poucos meses.

Na época eu apresentava na Rádio Guarujá de Florianópolis, o programa Guarujá Repórter, uma réplica modesta do “Gaúcha Repórter”, do mestre Lasier Martins. Neste programa, à noite, fazia uma resenha dos acontecimentos políticos e econômicos do dia, projetando assuntos da semana, através de entrevistas pelo telefone e no estúdio. Fiz este programa com grande prazer, com a produção criteriosa do competente amigo Celso Martins.Um modelo básico dos programas de radiojornalismo.

Pois bem. No Guarujá Repórter daquela noite, o governador Casildo Maldaner foi entrevistado por telefone. Ele estava em Maravilha, sua terra de origem política, mais precisamente na Linha Modelo, seu distrito afastado.

Casildo vivia um momento difícil de um governo que estava terminando. Ainda não tínhamos idéia do arrasador caso da Ponte Pedro Ivo Campos, que levou anos mais tarde o engenheiro Miguel Orofino à cadeia e muito mais gente a um silencioso desespero. Este escândalo estouraria mais tarde. A crise da hora era uma greve dos professores, orquestrada pela então presidente do Sinte, Ideli Salvatti. Aliás, vale uma apropriada digressão, sobre esta greve. Como repórter setorista do Palácio, trabalhando para o jornal O Estado, presenciei com alguns colegas um dos episódios mais engraçados, dentro daquele universo tão árido de confrontos entre governo e servidores. Pode-se reclamar tudo do então governador, mas sua forma aberta de governar era inquestionável. Vez por outra, Casildo descia de seu gabinete e despachava com os professores nas escadarias do Palácio, sabendo de ante-mão que iria levar uma sonora vaia com o devido registro da imprensa. Era um destemido, “não nasci em noite de trovoada”, diz ele até hoje.

Numa das tantas vezes que ele recebeu o comando de greve, Casildo era um ator para uma platéia de repórteres. Na mesa de reuniões, sentado à cabeceira, rodeado de sindicalistas ferozes, ouvia serenamente as reivindicações da professora Ideli. Sem nenhuma cerimônia, Casildo contra-argumentava, segurando a mão de Ideli carinhosamente, esfregando-as com boa dose de sedução, constrangendo sobremaneira a brilhante vocação guerreira da sindicalista. Casildo castigava um discurso emotivo, levando a discussão para o campo pessoal e sentimental, quase íntimo, uma pérola.

-Olha, quero dizer que estou sensibilizado com as reivindicações, estamos estudando a receita, já pedi aos secretários da Administração e da Fazenda que façam um estudo o mais rápido possível, mas greve, não, pelo amor de Deus, grave não. Olha, professora Ideli, chego até ficar meio tonto só de pensar em greve, pelo amor de Deus isso não, não me fala em greve, Deus me livre, vamos conversar… E não parava de suplicar, como uma matraca. Era muito engraçado. Nem Ideli resistia, olhava para nós, indefesa, acarinhada pelas mãos do governador. Depois da reunião, Casildo dava entrevista, arrematando:

-Acho que o caminho é o diálogo, não posso nem ouvir falar em greve. Mais vale dez minutos de conversa do que cinco de tiroteio, quero dizer isso com muita clareza.

Apropriada e extensa digressão. Voltemos ao Guarujá Repórter, com Casildo na linha, lá em Maravilha.

O governador como se pode ver é um mestre em esquivar-se de questões que não lhe interessam com graça e esperteza, quase sempre perceptíveis. Naquela entrevista, é claro, falaria do motivo de sua viagem ao Oeste do Estado, na sua região, onde inauguraria uma obra importante. Um prato cheio para ele. Mas, também é claro, que depois de deixá-lo afagar seu próprio ego com a festa local, entraria nos assuntos mais ácidos, como a greve dos professores que começava a ganhar proporções. Minha tentativa de arrancar uma boa declaração foi frustrante.

-…Mas governador, quero aproveitar esse contato para falar de um assunto mais difícil com o senhor. A greve dos professores.

Governador, o senhor já tem uma proposta concreta?

-Alô, alô, Marcelo, a ligação ficou ruim, muito ruído, você pode repetir a pergunta?

Repeti.

-Alô, tá muito ruim, o que é que foi?

Repeti.

-Mas tem uma interferência, alô, alô, Marcelo…

Mudei a pergunta.

-Governador, esta sua obra beneficia quantas pessoas aí em Maravilha?

-Ah, agora melhorou, estou te ouvindo bem. Olha Marcelo este é mais um esforço de governo, blá, blá, blá…

Voltei àquela pergunta.

-Hein? Alô, a ligação ficou ruim de novo, desculpe não te entendi, repita, por favor, Marcelo…

A ligação caiu. Linha ocupada até o fim do programa.

Chamei o intervalo. Rimos muito, eu e Celso Martins.

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