O Direito de Amar

O polivalente Gustavo Neves Filho, que dentre outras atividades no rádio era escritor e ator, colocou no ar pelas ondas da Diário O Direito de Amar, uma história seriada que abordava a questão racial. No drama um jovem contabilista, negro, começou a namorar a filha do patrão, que era branca.
Por Ricardo Medeiros

Um dia, ele tomou coragem e foi falar com o chefe sobre a amada, pois queria pedi-la em casamento. Sobre a possível união entre os dois jovens, o patrão de forma enfática perguntou ao rapaz : « você acha que eu daria a mão da minha filha a um negro ? ».
Depois desse impasse, o casal conseguiu se unir, prevalecendo a democracia racial, mesmo numa Florianópolis repleta de preconceitos. Gustavo Neves Filho admite que decidiu evocar esse tema justamente porque na cidade, na década de 1960, reinava um certo apartheid que começava pelos clubes, onde o Doze de Agosto, por exemplo, não aceitava a presença de negros em seus salões : « Era uma vergonha essa atitude e tiha que ser combatida.  A novela foi uma das formas que eu achei para criar uma harmonia entre negros e brancos ». 
No drama o Pecado Daquela da Noite, também de Gustavo Neves Filho, a indignação do público se concretizou contra o criador da RDM. Devido a cenas de atos sexuais e violência, os ouvintes ligaram para a emissora demonstrando o seu desagrado. Na novela um médico sentiu-se atraído por sua sobrinha e numa certa noite a estuprou. Envolvendo um outro drama, o descontentamento da população se manifestou em plena rua quando se encontraram ator/personagem e ouvintes.
Duas senhoras fizeram questão de conversar com Rozendo Lima, quando o radialista transitava nas imediações do Palácio Cruz e Souza, no centro da cidade. As senhoras ordenaram ao ator, vilão de uma novela, para deixar em paz a mocinha.
Caso isso não fosse cumprido no próximo encontro entre eles, Rozendo Lima seria um forte candidato a ganhar uma sombrinha na cabeça. 
Mas na maioria das vezes o público louvava os atores e atrizes, encantando-se com o trabalho dos artistas da Diário da Manhã. A menia Valéria Verani passou por uma experiência inesquecível quando foi apresentada pela mãe à Alda Jacintho, a sua atriz preferida : « Lembro que minha mãe me ligou do trabalho, pedindo para que eu fosse lá. Quando cheguei no emprego dela, minha mãe me disse : ‘filha essa é a Alda Jacintho’. Eu quase explodi de felicidade ».  Os elogios também vinham de fora do Estado, pois pelas ondas curtas da RDM a emissora conquistava outros ouvintes, a exemplo da senhora Celina Maria Rezende, de Brasília, que assim como a menina Valéria era fã de Alda Jacintho : « (…)Talvez, nem acredites, que, aqui, neste fim de mundo, posssa existir, uma fã, que tem por você, uma imensa, devotada, e, sincera admiração.
Considero você, a voz máxima do elenco da Diário da Manhã ! No teu gênero de interpretação, tua doce vozinha de ‘ anjo’, nada deixa desejar!
Ela traduz, a melodiosa sinfonia do paraíso ! É privilégio, possuir tão grande dom ! Só peço aos deuses, que te conservem sempre assim ! Adoro você, em todos os papéis que vives nas novelas ! A queridíssima Cassilda ! A Lavínia correta ! A buliçosa Hilda ! Todas perfeitas ! Parabéns querdinha ! Desejo de todo coração, o teu sucesso, a tua glória ! Felicidades Alda ! Carinhosamente abraça-a a fã : Celina Maria de Rezende ».


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Por Ricardo Medeiros

Doutor em Rádio pelo Departamento de História da Université du Maine (Le Mans, França). Radialista, jornalista, escritor e professor de rádio do curso de Jornalismo da Faculdade Estácio de Sá de Santa Catarina e assessor de imprensa da Prefeitura de Florianópolis. É um dos fundadores do Instituto Caros Ouvintes.
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