O Escândalo do Concurso ´Rainha do Rádio´

Durante 21 anos, de 1937 a 1958, o rádio brasileiro teve sua “Rainha”. No total, dez cantoras acumularam a honraria, com direito a coroa, cetro e homenagens onde quer que fossem.O concurso para a escolha da Rainha do Rádio era promovido pela ABR – Associação Brasileira do Rádio e em determinado momento passou a ser comandado, também, pela “Revista do Rádio”, fundada em 1948 por Anselmo Domingos.

O Concurso e as Rainhas
A idéia surgiu em 1936, quando a ABR resolveu arrecadar fundos para a construção de um hospital destinado a abrigar seus associados.
Neste primeiro ciclo , a venda de votos colocou no trono em 1937, e sucessivamente até 1947, a cantora Linda Batista. Coube a sua irmã, Dircinha Batista, eleger-se em 1948. Marlene, um mito da música popular brasileira, foi a rainha de 1949 e 1950.
A partir de então, a “Revista do Rádio” publicava os cupons de votação que, recortados e preenchidos, eram colocados nas urnas para o cômputo final. Não havia venda de votos; o custo era apenas o preço de capa da revista.
Ninguém poderia imaginar o “escândalo” que este tipo de votação iria gerar anos depois. 1951 marcou a presença de Dalva de Oliveira como rainha. Veio depois, em 1952, Mary Gonçalves. Enquanto isto, as fãs de Emilinha Borba estavam impacientes. A sua grande rival, Marlene, já havia sido coroada duas vezes.
Chegou então a vez de Emilinha Borba ser a Rainha do Rádio: isto aconteceu na eleição de 1953. Em 1954 outro grande mito foi eleito: a cantora Ângela Maria. As três últimas “rainhas do rádio” foram Vera Lúcia (1955), Dóris Monteiro (1956) e Julie Joy (1958). A eleição de Julie, uma quase desconhecida, tirou o gás da promoção, que deixou de existir a nível nacional.
Fatos Pitorescos
Corriam muitas fofocas e lendas sobre a eleição destas cantoras. Algumas campanhas eleitorais foram tumultuadas, como a de Dóris Monteiro.
Outras vezes, a confusão acontecia na festa da coroação, como na vez de Vera Lúcia, entre risos, brindes e até decepções, com vencedora e vencidas confraternizando “na marra”. A consolação ficava por conta das posições de 1ª e 2ª princesas.
Sua majestade, Vera Lúcia!
No dia 15 de fevereiro de 1955 a cantora Vera Lúcia foi coroada Rainha do Rádio em um espetáculo no mínimo inusitado.
Sua entrada no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, foi triunfal. Ela foi conduzida em um andor por quatro atletas que vestiam a camiseta do Clube de Regatas do Flamengo.
Como estava sucedendo a Ângela Maria, era esta quem, por tradição, deveria colocar a coroa sobre a cabeça de Vera Lúcia. Mas não foi o que aconteceu.
Na hora chamaram para coroar a rainha a presença mais ilustre da festa, Carmem Miranda, em visita ao Brasil para tratamento de saúde.
Ângela Maria não gostou, torceu o nariz e nem ficou para o baile.
O presidente da Associação Brasileira de Rádio era Manoel Barcelos, que apresentava um programa de auditório na Rádio Nacional do Rio. Ele tentou contornar a gafe, mas era tarde demais.
Entre as presenças, além de Carmem Miranda (que morreria nos Estados Unidos apenas 5 meses depois, em 5/8/55), podiam-se ver o então Rei do Rádio (sim, tinha também), João Dias; Heron Domingues, o Repórter Esso carioca; Orlando Silva e muitos outros “tops” daqueles anos dourados do rádio.
A revista “O Cruzeiro” publicou uma reportagem narrando estes acontecimentos em sua edição do dia 5 de março de 1955.
É uma ordem: Dóris Monteiro têm que ganhar!
Já com Dóris Monteiro, no ano seguinte, 1956, a coisa transformou-se em escândalo e abuso do poder. Assis Chateaubriand, dono das Emissoras de Rádio Associadas, resolveu eleger a cantora Dóris Monteiro, sua protegida. Mas Dóris não ia nada bem na votação, aquela do recorta cupom, preenche cupom, coloca na urna o cupom da Revista do Rádio…
Na véspera da apuração final os votos para Dóris Monteiro não davam nem para ela ser princesa. Chatô, como era conhecido Chateaubriand, o magnata das comunicações da época, mandou chamar o tesoureiro dos Diários Associados e deu-lhe uma ordem:
– Consiga 5 milhões de cruzeiros, e agora !
Era noite, bancos fechados. A solução foi pedir o dinheiro a um magazine carioca que anunciava no “O Jornal”, de Chatô. Dinheiro na mão, veio o restante da instrução para o tesoureiro, como conta Fernando Morais no seu livro “Chatô, o Rei do Brasil”, da Editora Cia. Das Letras:
“Mande comprar tudo em Revista do Rádio e ponha o pessoal da redação (de O Jornal) a preencher o cupom com o nome da dona Dóris. E tem que ser já, porque as urnas fecham à meia-noite.” O tesoureiro coçou a cabeça e fez ver ao chefe que a revista custava 5 cruzeiros. Com 5 milhões dava para comprar um milhão de exemplares, o equivalente a 5 edições da revista. E para passar das favoritas, Bárbara Martins com 160 mil votos, e Julinha Silva, com 70 mil, seria necessário preencher mais de 100 mil cupons, algo irrealizável.
Então Chatô mostrou o quanto era poderoso:
“Então o senhor leve este dinheiro ao Manoel Barcelos da ABR e ao Anselmo Domingos da Revista do Rádio e diga que eu compro todo o encalhe da revista acumulado desde que começou o concurso deste ano. E não precisa mandar ninguém preencher nenhum cupom. Diga que aqueles votos devem ser considerados para dona Dóris.”
Na apuração final Dóris Monteiro obteve 875.605 votos!
A primeira princesa, Bárbara Martins, ficou com 161 mil e Julinha Silva recebeu a faixa de segunda princesa, com 76 mil votos. São fatos históricos, mas que, cinqüenta anos depois, se incorporaram ao divertido folclore do rádio brasileiro… e viva a Rainha do Rádio”, daqueles tempos que não voltam mais.


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Por Carlos Braga Mueller

Radialista, jornalista e escritor. Iniciou fazendo locução e radiojornalismo na Rádio Clube de Blumenau. Também pioneiro na televisão, foi o primeiro apresentador de telejornalismo na TV Coligadas, atual RBS TV de Blumenau. Articulista, escreve sobre os meios de comunicação em SC no blog do Day e no site Caros Ouvintes.
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4 respostas
  1. romeu maccione says:

    o glamour dos concursos de RAINHA DO RÁDIO, consagrou várias delas, só acho injusto quando falam de JULIE JOY, a ultima rainha como inexpressiva. qual nada JULIE era uma das mais berlas vozes da rasdio nacional, ´e é considerada rainha até hoje, pois quando um concurso é extinto, sua ultima rainha permanece como imortal
    portanto JULIE JOY E FRANCISCO CARLOS são os eternos rei e rainha do rádio

  2. Luiz says:

    Impressionante a desinformação de quem escreveu a matéria. A Revista do Rádio nunca patrocinou nem nunca publicou cupões para votação de Rainha do Rádio.Os cupões (tijolinhos) eram de responsabilidade da ABR O primeiro grande escandalo do concurso foi a vitória de Marlene em 1949 que arrumou uma empresa patrocinadora e compareceu na apuração com um cheque em branco. Em 1952 a eleição de Mary Gonçalves deu-se porque a segunda colocada (Carmélia Alves) passou todos os seus votos para a terceira (Mary), que assim derrotou a candidata que seria vitoriosa (Adelaide Chiozzo). Angela Maria (Rainha do Rádio de 1954) foi impedida de coroar Vera Lúcia (Rainha de 1955) porque não prestou contas de todos os votos que lhe deram a vitória no ano anterior. Dóris ganhou em 1956, exatamente como Marlene ganhara em 1949: um forte patrocínador disposto a gastar o que fosse preciso. Em 49 foi a Cia Antartica Paulista e em 56 os Diários Associados de Chatô.

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