O Estado: o livro e o depoimento de Marcelo Fernandes

O livro “Loucos e Memoráveis Anos: o Centenário do Jornal O Estado” foi lançado no último sábado (30), na Fiesc. Organizado pelos jornalistas Laudelino José Sardá e Mário Medaglia, com depoimentos de 58 jornalistas, o livro tem 416 páginas e resgate fatos históricos registrados entre 1972 e 1986. O lançamento integra as comemorações pelos 10 anos de fundação de O Estado. A obra tem o selo da Editora da Unisul.

Capa O Estado 100 anos 2Transcrevo aqui, com prazer, um texto histórico do competente companheiro Marcelo Fernandes Correa, que trabalhou no “mais antigo”. Agradeço seu registro que retrata uma época de ouro do jornalismo catarinense.  Leia:

Foi nos Anos 90 que trabalhei pela última vez no Jornal O Estado. A primeira vez foi em 1986, meu segundo ano de trabalho em Santa Catarina.

No início, costumava entrar na bonita sede da SC 401, pela frente, mesmo sendo empregado. Adorava a imponência de um pôster enorme – do rodapé ao teto – da capa inaugural de O Estado, de 13 de maio de 1914.

Passados cerca de 30 anos, sinto não ter olhado toda aquela sede com mais atenção e carinho, apesar de ter dedicado boa observação a tudo que vivi naquela redação, na lanchonete, no laboratório fotográfico, na sala de montagens, na fotoliteira, na salas do Dr. Comelli e do Seu Osmar, na ampla sala da rotativa, no saudoso bambuzal, onde convivi menos do que deveria com meus colegas.

A primeira vez que trabalhei no “mais antigo” foi para produzir uma ampla reforma gráfica e industrial. Fui secretário gráfico durante um ano inteiro, quando mudamos a cara de O Estado, incluindo a inauguração das edições em cores, na capa e nos cadernos dominicais, entrando na briga editorial de frente com o seu novo concorrente, o recém chegado Diário Catarinense.

Mas, foi nos Anos 90 que voltei para aquela redação, na condição de repórter especial, setorista (assim chamávamos) de Palácio e Assembleia, cobrindo o executivo e o Legislativo, diariamente.

Vivi muitas alegrias e tensões em O Estado. Aprendi demais e quase tudo que sei em termos de jornalismo puro. Mas, especialmente, ganhei lições de amizade, de viver, de companheirismo, demonstrações importantes de humanidade e profissionalismo. Foi ali, no mais antigo e querido que já conheci.

Sou do tempo do Dudu, do Ricardo Garcia, do Mário Pereira, do Carlão, do Marquinho, do Riva, do Bonzon, do Damião, da Débora Matte, do Marinho, do Edison, do Celso Martins, da Lena, da Lu, do Paulão, e tantos queridos colegas…

O Jornal O Estado é inesquecível para quem trabalhou nele, inesquecível para quem o leu, diariamente. Ele faz muita falta pra todos nós.

Em homenagem a estes 100 anos, quebro o protocolo editorial e publico aqui um conto inédito do livro “Diário de Bordo de um Repórter”, que ainda estou devendo pra mim mesmo. Um dia sai. Talvez este ano. Vai aqui uma das histórias bonitas do jornalismo, protagonizada pelo exemplar colega Moacir Pereira, o mais ilustre colunista da minha fase de O Estado.

O conto é uma aula.

“Troféu profissional

(…) Foi em 1987, e o governador Pedro Ivo Campos já mostrava fortes sinais de uma doença grave, que lhe encurtaria a história. Naquela época, por vontade do próprio Pedro Ivo, havia uma tentativa de esconder o seu real estado de saúde. O governador não gostava de tratar de sua vida pessoal, era íntimo demais para ele, um homem discreto e de costumes militares. Dizia a amigos mais chegados que se sentia invadido, como se estivesse despido em público, toda vez que tinha de tocar do assunto sobre seus males de saúde. Um direito seu, que tinha lá seus limites, já que era o chefe do Executivo.

O Moacir recebe um telefonema de uma fonte, a qual lhe afirmava que o governador Pedro Ivo havia sido reservadamente internado às pressas no Hospital da Polícia Militar. A informação precisava de um “check up” mais preciso. No dia seguinte, pela manhã, Moacir liga para o comandante da PM, coronel Guido Zimmerman, conta o que sabe e pergunta.

-Coronel, qual é o sinal, é vermelho, amarelo ou verde?

Numa segunda ligação, dez minutos mais tarde, o coronel foi definitivo. -É verde, ele está internado mesmo Moacir.

Diante do fato Moacir fez o óbvio – muitas vezes subestimado por nós. Vestiu, sutilmente, uma camisa branca, uma calça creme e foi até o Hospital. Entrou pela porta da frente, intocável, e ainda ganhou de quebra uma continência do policial que dava guarda na portaria. Vestido como um médico, Moacir talvez tenha confundido o soldado. Era, de certo, um médico militar. Não foi difícil percorrer os andares do hospital e localizar o que queria. Moacir viu, claramente, por uma porta entreaberta, Pedro Ivo numa cama, recebendo soro num dos braços. Estava confirmada a informação da fonte, um furo jornalístico.

Moacir, imediatamente, liga para o jornal O Estado, onde mantinha sua intrépida coluna. Consegue a tempo com o jornalista Cesar Valente, o editor-chefe. Na época, O Estado fechava suas últimas páginas da edição domingo, no sábado até o meio-dia. Com aquela bomba, tudo parou. A edição dominical sai com uma manchete reveladora. “Pedro Ivo está internado!”. Numa página interna, em matéria jornalisticamente perfeita, Moacir Pereira contava detalhes do estado de saúde do governador, dando hora e local da internação.

As primeiras horas foram de total surpresa para todos, evidenciando o estado grave de Pedro Ivo e o desvendamento de um mistério, de uma verdade, escondida pelo governo. A imprensa cumprira sua missão.

Mas, um contra-ataque inimaginável colocaria O Estado e, principalmente, Moacir Pereira, sob uma suspeita fatal. O Jornal de Santa Catarina, editado e impresso em Blumenau, controlado naquela época por empresários vinculados ao governo do PMDB, entra em banca, no domingo, com uma foto em seis colunas, mostrando Pedro Ivo, com seu neto, na Banca do Beck – em frente à Praça XV, em Florianópolis – lendo o jornal O Estado, que trazia a manchete do seu internamento. Como requinte, o governador sorria. Era a desmoralização pública do “furo” de Moacir. Um dia e uma noite transcorrida jamais esquecida pelo jornalista.

Na segunda-feira seguinte, o assunto não poderia ser outro. A gafe do jornal O Estado. Mas Moacir sabia que aquilo era impossível. Vira Pedro Ivo na cama, no soro. Uma ação maquiavélica e desesperada teria feito o governador levantar e ir até a banca para fazer a foto do “Santa”. Difícil imaginar, mas era a única explicação plausível.

Naquela tarde, é convocada às pressas uma entrevista coletiva do governador, no palácio residencial da Agronômica. Diante de toda a imprensa, numa enorme mesa de banquetes, Pedro Ivo se apresenta abatido, magro e de fala entrecortada por uma respiração ofegante.

Moacir não se contém e, quebrando toda a lógica da coletiva, pede a palavra a faz um verdadeiro discurso sobre todo o episódio, numa homenagem ao bom jornalismo e menciona respeitosa e sinceramente o desejo que todos tinham de ver o governador melhor de saúde.

Pedro Ivo, emocionado, agradece a Moacir e comunica que estaria deixando o governo, temporariamente, para uma licença médica e reconheceu, contando em detalhes, que havia se internado na sexta à noite, no Hospital Militar.

Moacir recupera o seu furo. A verdade estava incólume. “Foi meu troféu profissional”, lembra o jornalista.

(…)”

[Do blog de Moacir Pereira, com texto de Marcelo Fernandes, CLICRBS, 30/05/2015]

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