O estopim da revolução

Revolução: do latim revolutìo,ónis: ato de revolver. Segundo o Dicionário Houaiss é uma grande transformação, mudança sensível de qualquer natureza, seja de modo progressivo, contínuo.

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Thaís Teixeira

Celso Vicenzi (E) , Valmir dos Passos, Wander Levy e Júlio Pimentel

Ainda estamos longe de viver uma revolução brasileira, assim como em 2011 os países do Oriente Médio viveram sua primavera árabe. Mas caminhamos, vagarosamente, para as vias de uma verdadeira mudança social. O que levou milhares de pessoas às ruas em junho de 2013, de norte a sul do Brasil, ainda gera questionamentos e diferentes opiniões.

No Painel Manifestações Populares – A mídia, os slogans e as consequências sociais, promovido pelo Estopim e pelos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Unisul na última terça-feira, 13 de agosto, os posicionamentos dos quatro convidados foram divergentes, embora concordassem em um ponto: O Brasil estava indignado demais para permanecer em casa.

Da esquerda para a direita Celso Vicenzi, Valmir dos Passos, Wander Levy e Julio Pimentel

Na apertada mesa da Unisul, no interior da sala 321 do Bloco B e mediados pelo cientista político Valmir dos Passos, o jornalista Celso Vicenzi, a cientista social e antropóloga Carmem Susana e os publicitários Wander Levy e Julio Pimentel permaneceram por quase quatro horas discutindo com os alunos de Comunicação Social as manifestações populares que explodiram no país em junho deste ano.

O publicitário Wander Lewy abriu a conversa. A barba grande e a voz imponente foram marcas registradas de sua fisionomia. Enfático, Wander colocou seu posicionamento em relação aos protestos “Desde o início fui contra essas manifestações!”.

Completou dizendo que não acreditava em um protesto iniciado e conduzido pela classe média. Ele contou também que um dia leu no Facebook um comentário de um colega que dizia “Estou indo para a manifestação, alguém sabe se tem estacionamento por lá?”. Da mesa, Wander foi o mais cético com relação aos movimentos. Para ele, o gigante nunca acordou, continua e continuará dormindo. O resultado das manifestações: nenhum.

No contraponto, o jornalista Celso Vicenzi foi mais otimista. Por aproximadamente 20 minutos ele leu um artigo preparado para ocasião em que amarrou a democracia, a mídia e a política. “Todos queriam participar daquele momento político”, assim que Celso sintetizou o mar de pessoas vistas nas ruas. De fato, muitos dos que estiveram nos protestos viveram um marco histórico que, ao contrário do que se diz, não foi proporcionado pelas redes sociais. Celso enfatiza “Não são as redes sociais que levam as pessoas às ruas”.

As redes são um meio, uma plataforma fácil e ágil de disseminar a informação. Mas para ele, assim como foi consenso entre os que estavam ali, o que realmente fez encher as ruas do país foi o cansaço, a revolta, a indignação com a política, a educação, a segurança pública, o transporte público e com todas as outras diversas pautas que foram levantadas pela população. Celso encerrou falando sobre a cobertura realizada pela grande imprensa. É preciso avaliar e analisar o que de fato é notícia e o que é fabricação de interesses de grupos específicos. Para ele, a mídia é uma marionete do jogo político.

Julio Pimentel foi o seguinte a falar. Ele é um senhor simpático, um publicitário que sabe o valor que uma boa comunicação. Para Júlio a repercussão dos protestos iniciou a partir das transmissões pela televisão. Não foi pra rua, mas permaneceu alguns dias publicando textos em sua rede social sobre as manifestações. Trouxe o assunto dos slogans utilizados durante os protestos, que em sua visão são apenas acessórios. Bem humorado, disse o porquê não foi nos protestos em Florianópolis “Eu moro aqui no continente. Os protestos foram lá na ilha. Se fosse, não ia ter como voltar porque iam fechar as pontes! Então fiquei protestando daqui mesmo”. Encerrou falando sobre os partidos políticos, “são todos farinha do mesmo saco”.

A última convidada, Carmem Susana, era a única mulher da mesa. Antropóloga, cientista social, trabalha nas causas feministas, nos diversos movimentos sociais populares como o Movimento Passe Livre (MPL). Professora no curso de História da Udesc, ela abriu seus apontamentos falando um pouco sobre o que é o Movimento Passe Livre. “Quem tem essa legitimidade para se indignar sobre a questão do transporte?”, colocou Carmem que explica de forma muito clara o que o Passe Livre propõe.

O MPL vai além do apenas usar ônibus de graça e passa a ser algo maior quando se começa a pensar no direito constitucional de ir e vir, bem como o direito que as pessoas têm sobre a cidade. Ela contou que em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, por um tempo foi implantado a Tarifa Zero nos últimos domingos de cada mês e que nesse dia se via a cidade completamente cheia de gente. Carmem expôs alguns números e deixou mais possível a viabilidade do passe livre para todos, que atualmente está sendo estudada pelos militantes do Movimento Passe Livre.

Sobre os protestos, especificamente aqui em Florianópolis, a professora colocou que eles foram o reflexo real do que é a sociedade hoje. Ali se via todos os tipos de pessoas e como exemplo dessa pluralidade ela citou que até as capas de chuvas usadas eram diferentes e expressavam as diversas classes sociais que o movimento abraçou. Ela criticou também o discurso pacifista da Rede Globo e encerrou dizendo que “o mundo sem utopia é muito triste”, que é preciso protestar todos os dias, incansavelmente e acreditar na real mudança.

Já passava das 21h quando se abriu espaço para as perguntas dos alunos. Poucos questionaram, mas duas perguntas mereceram destaque. Aluna da 5ª fase de jornalismo, Bruna de Moraes questionou os convidados sobre o futuro. O gigante dormiu de novo? O que vai acontecer agora? E, em sequência, Sara Padilha, aluna da 8ª fase também de jornalismo, quis saber sobre a reforma política. Seria essa a solução? O final da participação dos alunos se encerrou com o comentário, abraçado por todos os painelistas, do acadêmico da 6ª fase de jornalismo, Leonardo Contin “Eu acho que a melhor consequência que essas manifestações poderiam ter é essa. Estarmos todos aqui dentro da universidade discutindo os problemas sociais e o sistema político”.

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