O eterno dilema sobre a manipulação do rádio

Recentemente, trocando idéias via internet, com Antunes Severo comentávamos sobre as rádios ligadas às religiões. Antunes argumentou que, mesmo comprometidas com suas idéias religiosas elas podem ser bem feitas e gerar emprego.

Pode haver certo viés de verdade nisso. Nosso companheiro e cronista Edmar Annusek voltou a narrar futebol (o que faz muito bem), através de uma rádio ligada à Igreja Universal, a Rádio Record de São Paulo, assim como outros profissionais esquecidos por outras emissoras, como Zé Bettio e Gil Gomes.

Mas continuo cético. Mesmo admitindo que emissoras religiosas ecléticas possam ser bem feitas e empregar muita gente, me resta a dúvida sobre a gestão desses veículos. Geralmente os cargos de confiança são de pessoas ligadas à denominação religiosa (as verdadeiras donas das concessões), o que limita a liberdade de idéias e eventuais contestações meramente profissionais, além da capacidade artística duvidosa da maioria dos coordenadores. Essa postura zelosa dos religiosos não significa certeza de boa gestão, pelo contrário; pode ser um poderoso instrumento de intimidação e chantagem.

Para exemplificar, li na coluna de Flavio Rico, “Força Tarefa”, de 23 de abril, na internet, que a contratação de Paulo Barbosa teria “estourado” o orçamento da emissora do Bispo Macedo, que 40 pessoas seriam demitidas e que o futebol poderia ser “limado” da programação para baixar custos. A noticia dava conta de que é o ex-bispo Rodrigues (o mesmo ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro defenestrado por seu envolvimento com o mensalão), quem dá as cartas na emissora e que teria sido o responsável pela contratação do famoso apresentador, bem como pela sugestão de acabar com o futebol.

Claro que a alta direção da emissora desmentiu tudo, informando que o diretor é Cássio Lima Rosa, mas quem ligar para a Record poderá falar com Carlos Rodrigues, que tem sala, telefone e secretária na emissora, além de ter sido coordenador de rádios da Igreja Universal antes de ser deputado e apresentador de programa na Rádio Bahia AM (bom apresentador, diga-se), portanto, sem trocadilho, “Eminência Parda” da Universal dentro da rádio.

O que sempre questionei e questiono é sobre a linha editorial de uma rádio com tais orientações. O objetivo claro é o de atrair para seus programas comuns um universo de desavisados e induzir essas pessoas à sua religião ou a seus políticos preferidos e, de quebra disputar o mercado publicitário leigo para ajudar o caixa da empresa. Isso ocorre com todos os credos: católicos, protestantes, espíritas, budistas, muçulmanos ou judeus, uns com mais competência que outros e em todos os lugares, com todos os tipos de rádio, desde as grandes corporações até a rádio comunitária, nas mãos do pastor da igreja pentecostal, o que tira dos meios de comunicação ligados às religiões sua validade.

O mesmo ocorre com rádios de políticos, o que deixa em aberto a eterna discussão sobre como fiscalizar os meios de comunicação para que eles sirvam realmente a população, com entretenimento, informação, cultura, educação e prestação de serviço, tudo ao mesmo tempo e sem segundas intenções.

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