O eterno rádio

Era ligar a caixa de madeira e ouvir o seu peculiar chiado. “E agora, senhores radiouvintes, fiquem com os metais em brasa da orquestra do major Glenn Miller”… “Placar na Suécia , 2 a 1, o Brasil vence… Vavá, outra vez, em novo centro de Garrincha!” “Alô Houston, é um pequeno passo para o Homem, um grande passo para a Humanidade”…
Por Sérgio da Costa Ramos

O rádio. No começo era só um murmúrio, apedrejado pela estática. Mas um milagre aconteceu em Mogi das Cruzes. E por obra de um padre. Roberto Landell de Moura, valendo-se de uma válvula de três eletrodos, transmitiu e recebeu a palavra humana através do espaço, no longínquo 1892. O padre teria sido o inventor da radiodifusão, não tivessem os americanos patenteado a maravilha e a Westinghouse providenciado a primeira emissão radiofônica, em 1920, na cidade de Nova York.

Se o padre porto-alegrense Landell de Moura inventou o rádio, mas não “levou”, a CBN/Diário acaba de reinventá-lo, com marca própria, carta patente, estilo, e uma audiência que o mantém no topo, como o veículo que, há muito mais tempo do que a Internet, navega em rede há quase um século.
A era do rádio. Calça curta. Gumex no cabelo. Aquela caixa mágica de jacarandá, tecido de palhinha cobrindo a fachada, o “dial” como sentinela móvel, percorrendo o mostrador hertziano. Cheguei a profanar os pulmões daquele caixão encantado, arrancando-lhe a proteção de compensado furadinho, “só pra ver o que havia lá dentro”.
Surpreendeu-me a parafernália de circuitos e luzinhas, ao invés dos esperados marcianos, duendes eletrônicos, ou do Acy Cabral Teive, que já existia naquele tempo, falando escondido atrás de uma válvula. Ou do Roberto Alves, garoto, na pista do “Pasto do Bode”, entrevistando o capitão Valério Mattos, do Paula Ramos, na memorável campanha de 1959…


A galena é a primeira forma de rádio conhecida. Funcionava – e continua funcionando – sem a necessidade de energia elétrica. É de uma simplicidade acaciana e de um despojamento franciscano. No final da matéria tem informação para você montar o seu rádio galena.

A havia a “Ave Maria”, anunciada pelo monsenhor Frederico Hoboldt. Minha avó ciciando a prece, Gounot ao fundo. Os comícios dos velhos partidos. O tiro que martirizou Getúlio Vargas. Os programas de auditório, com a Hora dos Calouros. O teatro do microfone, com os seus Albertinhos Limontas, o contra-regra caprichando no galope dos cavalos, ao simples estalar da língua contra o céu da boca.
Da era do rádio para o rádio que é. O receptor do carro ou o earphone. O serviço que não dorme e que “acorda” junto com você. “Voz” prodigiosamente indispensável, como a água do seu banho, o pó do seu café, o trigo do seu pão, os olhos do trânsito e os anjos da estrada.
Antes, era o rádio do vizinho. Agora, é a rádio que fala do vizinho, da vizinhança, da cidade, do estádio. A rádio que ecoa o jeito de ser “de cada região” e que fala “aqui do lado”. Este é o novo segredo do rádio moderno: ser local, sem deixar de ser universal.
CBN/Diário, som digital e sem chiado. O tempo que está fazendo e o que vai fazer. Como está o trânsito? Já prenderam o Marcos Valério? Já acabaram de julgar o Saddam? E o Bush? Um canal aberto para o Mundo.
Sim, mas quanto é que foi Avaí x Figueirense? Ora, dirão os “figueiras”, essa é vitória previsível… Mas se o Avaí vencer, a CBN/Diário será a primeira a informar ao Mundo – e ao Guga, se ele estiver prestes a entrar em quadra no Bois de Bologne, Paris, pra disputar mais uma final do Roland Garros, ainda que de muletas…
Tudo se pode saber pelo rádio. Até que a última pesquisa vai dando um novo/velho favoritismo ao companheiro Lula. O homem que adora uma “conversa ao pé do rádio”, meio de comunicação que está na raiz de sua “recuperação” eleitoral…
“Deu na rádio” … – sentenciava minha avó, com a convicção de quem acabara de ouvir uma retransmissão da Bíblia, tendo na “locução” o próprio Noé, o do Dilúvio…

Sérgio da Costa Ramos é colunista do Diário Catarinense. Esta crônica foi publicada na edição da última sexta-feira, 17/02/2006. Autor de diversos livros Sérgio, como disse o também cronista Flávio José Cardoso “Há (nele) um jeito próprio, todo SCR de usar a palavra, na qual a metáfora e o adjetivo, em especial, encontram uma funcionalidade de (com franqueza) causar inveja”.
:: Para montar seu rádio galena: http://www.bn.com.br/radios-antigos/galena1.htm

:: Para falar com o Sérgio: [email protected]


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