O fascínio das roupas velhas

Quase todo mundo parece ter fascínio por peças de roupa velhas. Aquela camisa, aquele vestido, aquela calça, aquela saia têm alguma coisa que faz com que nos prendamos a elas, coisa que as roupas, quando novas, não nos podem oferecer.

roupasQue mistério envolve essas roupas usadas que as fazem despertar nossa atenção? O conforto, sem dúvida, é parte disso. Nosso corpo e a peça de roupa criam uma simbiose; a textura, da pele e da roupa, se harmonizam; as dobras, da roupa e da pele, se adequam absolutamente. Com isso, sentimo-nos à vontade, num conforto impossível de conseguir com roupas recém-chegadas, peças que ainda não estabeleceram essa espécie de cumplicidade com nosso corpo, e que as torna quase parte dele.

Uma roupa velha é confortável até por causa de seu cheiro. Ou, talvez, porque, a despeito das mais eficientes lavagens, incorporou o nosso cheiro. Então, nossas células e as fibras do tecido, parecem ter se amalgamado, se fundido, compondo uma trama única, que às vezes dá a impressão de que o tecido e nossa pele são a mesma coisa. Quando isso acontece, o conforto é total e insubstituível.

Ultrapassando o limite das coisas físicas, e indo talvez na direção das metafísicas, uma roupa velha que nos fascina torna-se praticamente parte de nosso ser. Em certos casos extremos somos nossa roupa. Quando isso acontece, ao vestirmos uma roupa mais nova, podemos até ter a impressão de que não somos nós mesmos. Nestes casos extremos, podemos ter até a impressão de uma certa nudez existencial. Sem aquela roupa, não somos a mesma pessoa; não nos apresentaremos aos outros da mesma forma; não seremos aceitos do mesmo jeito.

Claro que as roupas velhas que nos fascinam são o terror da moda. Elas são um obstáculo quase intransponível para os voos tresloucados dos ditadores e ditadoras do mundo fashion. Por mais que uma mulher, ou um homem, se renda aos ditames da moda, haverá sempre um lugarzinho reservado para aquela peça tão velha e tão amada.

Tanto isso tudo é verdade que a própria modernidade da moda rende-se aos recursos do retrô. Nessa guerra sem trégua entre a necessidade de fabricar o novo, imposta pela moda, e nossa necessidade interior de conservar certas roupas velhas, nascem as imitações do antigo, do velho. “Repaginadas” em roupas novas, lá estão as roupas velhas, as queridas roupas de nosso coração, presentes, pelo menos em aparência.

Mas nada disso supera o fascínio das roupas realmente velhas. Quando o jeans saltou da dimensão de roupa rude, de trabalho, para a condição de roupa ao mesmo tempo prática e chique, trouxe consigo o bordão da “velha calça desbotada”, que sempre significou, muito mais que roupa, um estilo de vida.

Porém, caro leitor, onde o fascínio das roupas velhas se apresenta mesmo, e de forma avassaladora, é em nosso cotidiano, sobretudo dentro de casa, nos momentos em que desejamos e precisamos estar “largados”, confortáveis, à vontade, com nossos prazeres ou com nossas dores. Nesse espaço sagrado de nossa intimidade, nada nos serve melhor do que uma roupa velha que nos fascina.

Quantos de nós mantém aquele par de meias velhas e furadas, que calçamos nos dias frios? Ele, seguramente, parece aquecer mais nossos pés que o par de meias de lã tinindo de novo que temos na gaveta. Por que será que isso acontece?

Um paletó surrado tem também as marcas de nossa vida vivida, dos dias e dias em que o tivemos abraçando nosso corpo e, de certa forma, partilhando de nossas tensões, angústias, momentos de prazer, dias de sucesso.

Aquele vestido velhinho, prezada leitora, lá está no armário olhando para você. Banido das luzes do mundo, excluído pelo rigor da moda, continua ali, esperando que você o vista, nem que seja apenas num passeio pela casa, ocasião em que estará, talvez, vestindo com esse vestido seu manto de lembranças e de felicidade. Em momentos assim, amiga leitora, nenhuma mulher será mais linda que você.

A vida é impermanência, sabemos disso; nada fica para sempre. Não obstante, esse fascínio por certas roupas velhas, por peças queridas, acessórios estimados, complementos de que gostamos, pode nos dar a ilusória, mas em alguns momentos necessária, sensação de que alguma coisa permanece, pelo menos provisoriamente, até que o novo se transforme novamente em velho, e nos conduza outra vez ao fascínio por coisas velhas, simples, confortáveis, praticado sem exagero e sem extremo e escravizador apego.

Será que agora, caro leitor ou cara leitora ou ouvinte, ao terminar de ler ou ouvir esta crônica, não lhe veio uma vontade quase irresistível de vestir aquela fascinante e querida roupa velha?

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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