O Feriado da saudade

As crianças não estão frequentando as escolas como fazem nos dias de semana para se tornarem menos burras. Os empregados não se levantaram cedo para trabalhar nas empresas e enriquecer seus usurpadores patrões. Os políticos não estão nas repartições públicas realizando suas manobras para desviar o dinheiro dos altos impostos. As mães não acordaram para arrumar as casas que as crianças bagunçam querendo brincar, enquanto não sabem o que lhes espera na vida adulta.

Hoje, as pessoas ficaram em casa celebrando o primeiro feriado da saudade. Cada um tem seus motivos para senti-la no peito. Tem gente que chora a ausência de um familiar. Gente que lamenta a morte de um ente querido e gente que sofre com a perda precoce de um casamento.

Alguns, metidos a gostar de música antiga, sentem saudade de Raul Seixas, Renato Russo, Cássia Eller, Cazuza e lamentam a morte do rock movendo multidões e da capacidade de questionamento que esse estilo musical tinha. Sentem que a emoção desse ritmo morreu em alguma segunda-feira e sabem que agora está fazendo sucesso uma senhora porquidão.

É nesse dia que os adolescentes sentem falta da infância. Eles se arrependem de ter pedido para crescer tão rápido, porque pensavam que teriam liberdade para ganhar o mundo. Nessas ocasiões, como ainda eram crianças, seus pais não avisaram que o mundo é um perigoso lugar em que as pessoas têm que ganhar a vida, correndo o risco de esbarrar com decepções, desilusões e intermináveis dificuldades.

Os eleitores sentem saudades de poder dizer que os maus políticos do Brasil não receberam seus votos. Antes, a vergonha nacional era a ditadura dos generais, que além de perseguir, expulsar do país e tirar a vida de seus adversários, deixava os calhordas entrar e sair do poder quando bem entendessem. Agora, mantém-se pela via do voto e da confiança dos portadores de um povo que não entendeu porque eleitor tem um título.

As chuvas sentem saudades de cair sem causar desabamentos e desastres “aparentemente” naturais. O sol sente saudades de levantar-se quente para deixar as pessoas ir até a praia. Ele sente toda a culpa pela poluição dos mares.

Os domingos sentem saudades de exibir bons programas na televisão. Têm um aperto quando se lembram que, num passado nem tão distante, exibiam um programa fantástico, despreocupado com o tamanho da barriga do Ronaldo.

O futebol queria voltar a ser jogado por meninos na rua e não ser uma indústria explorada pelos empresários e por mercenários jogadores com menos futebol que muito peladeiro de final de semana.

O samba sente saudades de Noel Rosa e Adoniran Barbosa.

Os jornais sentem saudades dos bons repórteres.

O cachorros sentem falta do cuidadoso ser humano.

O amor sente saudades de existir nos casamentos.

Os filhos sentem saudades dos pais.

E os pais perguntam pelos seus filhos.

O tempo sente medo de passar, porque não sabe se as coisas vão melhorar. Ele ouviu uma frase que era mais ou menos assim: o tempo resolve todos os problemas. No dia da saudade, ele teme não conseguir cumprir essa promessa. Hoje, lembra-se nostálgico de quando passava calmamente, sendo aproveitado à exaustão pelo riso sincero e feliz da humanidade. Velho habitante da Terra que é, afetado pela perda da memória, se pergunta: quando foi mesmo que isso mudou?

Epílogo

Minha mãe tem insistido para que eu vá dormir cedo. Teimoso que sou, troco a noite pelo dia. Numa dessas tantas madrugadas, Raul Seixas cantou O Dia da Saudade para eu dormir. Não deu certo. Levantei, abri o programa de “escrivinhar” no computador e, de certa forma, plagiei o baiano. Devo confessar que também cometi plágio no caso da barriga do Ronaldo. Os guardiões dos direitos autorais de plantão encontram a mesma crítica no artigo O Editor na era digital de Gilmar R. Silva no e-book Novos Jornalistas – para entender o jornalismo hoje.

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Por Nicolas David

Estudante de jornalismo. Aos 13 anos, rabiscou as primeiras ideias, sentado no sofá de casa, brincou de fazer poesia e depois disso não parou de exercitar a escrita e a leitura. Costuma viajar em crônicas e se mete a analisar o mundo em artigos de opinião. O pretexto é ver integrados os distintos e distantes universos do acadêmico e do profissional da redação.
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