O fim da carreira de radialista – 2

Por aqui passaram milhares de vozes que fizeram a alegria de milhões de ouvintes no Brasil dos últimos 80 anos

Por aqui passaram milhares de vozes que fizeram a alegria de milhões de ouvintes no Brasil dos últimos 80 anos

Certa vez escrevi aqui sobre o fim da carreira de radialista. Na ocasião tinha ido a um estúdio para gravar um “piloto” como se dizia antigamente ou um “demo” como dizem hoje, de um programa de rádio para uma concorrência que a agência para a qual presto serviço estava participando. O diretor do tal estúdio, um jovem de 25 anos sugeriu que eu utilizasse um ator, já que “hoje em dia não se usa mais locutores”, afirmou. O texto a que me refiro está aqui, nos arquivos do “Caros Ouvintes” para quem quiser ler.

Estou relembrando este artigo porque nesta semana recebi no fórum do texto em questão um desabafo do colega e leitor Carlos Araújo. Ele diz:

“É complicado mesmo! Eu, por exemplo, sou radialista e tenho a voz grave! Eu não faço minha voz, mas as pessoas juram que eu a emposto de propósito! Por causa disso estou fadado ao desemprego! Hoje, em uma entrevista em uma emissora de São Paulo, o diretor da rádio me deu uma lição de moral de mais de 10 minutos para que eu parasse de fingir minha voz, como se eu a tivesse inventado! Honestamente, sai de lá tão triste que tive vontade de rasgar meu DRT! Claro que hoje não precisa ter voz bonita pra se radialista, mas você houve cada porcaria falando no rádio que, sinceramente, dá tristeza! É incrível que para muitos de nós radialistas, uma das coisas mais preciosas que temos tem se tornado nosso ALGOZ por causa dessa política, dessa moda! Claro que voz não é primordial, mas pelo amor de Deus, parece que ter uma boa voz hoje em dia é sinônimo de expurgação e escárnio!”

Estes fatos são emblemáticos e exigem uma reflexão. As novas tecnologias, sobretudo a internet mudaram o perfil do rádio como o conhecemos no passado. Quando tentamos traçar um parâmetro somos chamados de saudosistas e ultrapassados, mas, por outro lado, muitas vezes somos intransigentes quando ignoramos os avanços que a comunicação vem obtendo. Prefiro o meio termo. Se você não conhece a história do meio de comunicação em que você trabalha jamais conseguirá realizar um trabalho completo, eficiente. Será um trabalho caolho, sob um ponto de vista maniqueísta e autoritário. A questão é que o comando hoje está nas mãos dos mais jovens, herdeiros de uma experiência recente, que conhece apenas o rádio moderno, a partir do advento da FM, consolidado a partir da década de 70. Com o advento da internet e todas as suas possibilidades, os termos e os conhecimentos convencionais sobre rádio ruíram.

O que chamamos de rádio estava muito atrelado ao aparelho receptor e suas diferentes ondas (ondas médias, curtas, freqüência modulada, tropical). Hoje esse conceito é mais amplo quanto ao formato de transmissão e o Rádio passou a ser a maneira genérica de se identificar o novo trabalho de produção de conteúdo e suas diversas formas de fazê-lo chegar aos ouvintes.
A internet é um desses formatos e tende a assumir um grau de importância maior quando sua portabilidade se torna mais accessível. Hoje já existem “modems” para rádios de carro, que captam sinais da internet via satélite, de tal forma que o usuário poderá ouvir sua Rádio Web no conforto de seu carro. Já é uma realidade ouvir seus canais de “rádio” pelos celulares e, possivelmente em breve teremos tecnologias avançadas de portabilidade que nos permitam acessos ilimitados a conteúdos “radiofônicos”, com todas as possibilidades do novo significado de radiofonia.

Por aqui continuam chegando as vozes que você poderá tornar inesquec?veis

Por aqui continuam chegando as vozes que você poderá tornar inesquecíveis

Os atuais executivos do meio rádio conhecem as novas tendências, as utilizam e as defendem e os “artistas de rádio” começam a ter outro perfil no qual você, querido amigo Carlos, eu e muitos outros “talvez” não estejamos enquadrados. Somos considerados “convencionais”, ultrapassados, dinossauros, fora do contexto do rádio moderno. Mas alguns desses novos coordenadores, uma minoria creio eu, arrogantes, donos da verdade, como esse que o entrevistou esqueceram-se de combinar essas novas regras com os ouvintes.
É preciso ter em mente que praticamente metade da população brasileira terá mais de 50 anos já no ano 2010. Ela também tem sua memória, seus gostos, suas preferências. Esse imenso segmento é consumidor, representa um importante mercado e, com certeza dá grande valor às boas vozes, aos apresentadores inteligentes, aos programas bem elaborados, sem a mesmice e banalidade comuns em muitas rádios (um dos grandes motivos das baixas audiências) e, mais cedo ou mais tarde, o mercado vai exigir alternativas mais inteligentes desses criadores de conteúdo e seus veículos. Assim, com certeza, profissionais como você terão novamente muitos espaços para mostrar seus inquestionáveis talentos que não podem se limitar ao vozeirão.

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