O futebol das tardes de domingo na Rádio Guaíba dos anos 70

A voz de dicção perfeita de Armindo Antônio Ranzolin, de qualidades profissionais acentuadas pela precisa narração lance a lance, fica suspensa no ar quando o plantão de estúdio interrompe de forma quase peremptória:
– Tem gol, Ranzolin! – Onde, Antônio Augusto? Por Luiz Artur Ferraretto

O diálogo repetido centenas de vezes marca a memória dos ouvintes do rádio esportivo do Sul do país que viveram as tardes futebolísticas de domingo nos anos 70, ouvido colado ao radinho de pilha, seja no estádio, seja em todos os cantos onde o sinal da Rádio Guaíba alcançava. A qualidade das irradiações da emissora da Caldas Júnior é, na época, um poderoso consolo para quem é torcedor do Grêmio e sofre com as sucessivas vitórias do Internacional ou, em 1977, quando a situação inverte-se um pouco, para os que penam com as agruras do colorado. A maior prova vem em um dos momentos mais dramáticos da história do rádio brasileiro.


Equipe esportiva (anos 60)

No domingo, dia 21 de outubro de 1973, correndo com um Opala, número 22, o narrador Pedro Carneiro Pereira sofre um acidente, no qual se envolve também o automóvel de Ivan Iglesias. Naquela tarde, a Guaíba está presente nos estádios Beira-rio, em Porto Alegre, com Ranzolin e equipe, e Engenheiro Araripe, na cidade de Vitória, no Espírito Santo, onde Milton Jung, outro narrador de voz marcante e inconfundível, comanda as irradiações. Mantém também um posto no Autódromo de Tarumã, em Viamão. De lá, o repórter Clóvis Rezende informa o choque entre os dois carros que, devido ao impacto, incendeiam-se. Minutos depois, confirmada a morte dos pilotos, Armindo Antônio Ranzolin, que chega a narrar os primeiros 15 minutos de Internacional e São Paulo, interrompe as transmissões esportivas da emissora:
– Bem, este tipo de informação nós não estávamos preparados para receber.


Equipe esportiva (1982)

O Pedrinho corre há tanto tempo! Morre tanta gente nos autódromos, mas nós sempre imaginamos que, com o Pedrinho, isso não aconteceria. Confesso para os ouvintes da Rádio Guaíba que não há a menor condição para que o nosso trabalho prossiga. A partir deste momento, o Departamento de Esportes da Rádio Guaíba, hoje, vai encerrar as suas atividades. Nós não transmitiremos o jogo do Internacional e São Paulo [o público presente ao Beira-Rio começa a aplaudir], nem o jogo do Grêmio contra a Desportiva Ferroviária. Vamos colocar um ponto final na participação do Departamento de Esportes da Rádio Guaíba nesta Jornada esportiva Ipiranga e nesta transmissão aqui do Beira-Rio.

Em meio ao comunicado, a reação do público, com aplausos que partem de todos os pontos do estádio, atesta o predomínio da Guaíba no rádio do Rio Grande do Sul e o respeito ao então principal narrador esportivo da emissora: Pedro Carneiro Pereira. Predomínio que se consolida, nos anos seguintes, com Armindo Antônio Ranzolin assumindo a administração do Departamento de Esportes e consagrando-se como o principal narrador do Sul do país até os anos 90, quando passa a se dedicar à direção da Gaúcha, emissora para a qual se transfere em maio de 1984. De estilo denotativo – clássico no jargão das rádios – e voz metálica de fortes erres, Ranzolin vai acompanhar, pela Guaíba, os mundiais de 1974, 1978 e 1982; o tricampeonato brasileiro conquistado pelo Internacional, nos anos de 1975, 1976 e 1979; o primeiro título nacional do Grêmio (1981) e, na seqüência, a conquista das taças Libertadores da América (1983) e Toyota (1983) pelo tricolor gaúcho.


Antônio Augusto (1979)

Da super equipe da Guaíba na época ainda fazem parte nomes como Ruy Carlos Ostermann, comentarista que embasa seus argumentos, analisando a partida pelo número de arremates a gol, de chutes, de jogadas bem ou mal finalizadas, de escanteios cobrados ou cedidos, de faltas etc. Enfim, uma série de detalhes cuidadosamente planilhados que podem ser resumidos em uma única palavra: informação. Bacharel em Filosofia, Ruy leva também bagagem cultural ao ambiente esportivo, sem deixar de conferir caráter jornalístico a suas opiniões. Já Lauro Quadros, que desde 1969 ocupa o posto de comentarista, consagra expressões como “esse conhece o rengo sentado e o cego dormindo” ou “ele sabe a cabeça que tem piolho”, para definir profissionais ou elogiar um lance de brilhantismo; “ali é o caminho da roça”, indicando uma área do campo de marcação deficiente do adversário, por onde um time pode chegar ao gol; ou “é isto aí mais meio quilo de farofa”, forma de encerrar um raciocínio. O time se completa, entre outros, com repórteres como João Carlos Belmonte e Lasier Martins.


Armindo Ranzolin (1979)

A partir de 1983, com a crise financeira das empresas da família Caldas Júnior, quase todos estes profissionais passam pela Gaúcha e a Guaíba busca em novos valores a sua recuperação. São eles que vão marcar a memória das décadas seguintes.

Quem ouviu a rádio dos 720 kHz, no entanto, nos anos 70 e no início da década seguinte, nunca vai esquecer lances e descrições como esta do dia 3 de maio de 1981, quando o Grêmio vence por 1 a 0 ao São Paulo:
Armindo Antônio Ranzolin (narrador) – Paulo Isidoro arrancou no campo de ataque, prendendo a bola como convém, deixando respirar a sua meia-cancha. Entregou, agora, para Paulo Roberto. Paulo Roberto levantou. Chuveiro na área para Renato Sá. Subiu para cabeçada, atrasou para Baltazar… Matou no peito, experimentou, uma bomba, atirou… Gooooooooooooooooooooooool do Grêmio! Baltazar! Dezenove minutos e 35, no segundo tempo! Gol do iluminado, Baltazar! Gol do Chuteira de Ouro! O Grêmio faz 1 a 0 contra o São Paulo! Zero a zero serve! Um a zero, senhores, pode fazer do Grêmio, com 77 anos, campeão brasileiro em 1981! Cristalizou o Morumbi! Está derretendo o iceberg! O Grêmio está transformando o iceberg em picolé – e muito gostoso – no Morumbi, João Carlos Belmonte…

João Carlos Belmonte (repórter) – Quando ele perdeu o pênalti em Porto Alegre, no final da partida ele disse para a Guaíba: “Deus está reservando algo melhor para mim”. Estava com a razão! Renato Sá se deslocou pelo comando do ataque, cabeceou para trás, Baltazar dominou no peito e, antes que a bola caísse, emendou em um sem pulo sensacional! Venha comigo, ouvinte da Guaíba, e repita comigo, torcedor gremista: Grêmio 1, São Paulo 0! Campeão do Brasil, se Deus quiser!

Antônio Augusto (plantão) – É o décimo gol de Baltazar em 21 jogos. Gol 32 do Grêmio, que, agora, precisa o São Paulo fazer dois.

Lauro Quadros (comentarista) – Olha, zero a zero já servia. Um a zero é sensacional, mas não precisava ser golaço. Pegou na veia. Foi de voleio. Foi na gaveta com Valdir adiantado. Mas, importante: Renato Sá entrou e, em seguida, fez este jogadaço, a deixa de cabeça para Baltazar estufar as redes. A participação de Renato Sá. O São Paulo, agora, vai ficar louco, maluco, atucanado. Ótimo para o Grêmio, Ranzolin…


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5 respostas
  1. marcio cardoso says:

    No início dos anos 70 eu morava com meus pais em São Joaquim,sc.ouvia todas as narrações na radio guaiba com Armindo Antonio Ranzolin.Ranzolin,alem de trabalhar em uma equipe que privava pela perfeição,para mim,foi e será sempre,o maior narrador esportivo do radio gaúcho e um dos melhores do brasil.sua dicção,voz bonita,frases sensacionais,suas arrancadas nos contra-ataques da dupla gre-nal,o gol narrado mais bonito que ja ouvi no radio,são algumas das qualidades desse catarinense de Lges.Sou reporter esportivo com 30 anos de profissão e,com certeza,Ranzolin foi o grande narrador da década de 70 e 80(guaiba e gaúcha.são narrações que ouço com muita saudade.na última vez que vi o Ranzolin pessoalmente foi na final da copa do Brasil em 91,Criciúma x Gremio.que saudade…

  2. Gerson Geraldo Nichele says:

    Pedro Carneiro Pereira…quantas vezes ouvi este nome…marcava assim as as transmissoes da radio guaiba…estava no estadio naquele dia…nao acreditei que estava ouvindo aquele aviso tragico…ficamos paralisados…éra domingo..muito sol em porto alegre…ficou a lembrança de um profissional muito competente…extremamente emotivo e marcante…sempre marcante nas maravilhosas transmissoes…ainda lembro a copa de 1966….depois 1970 sua ultima copa….

  3. Adair says:

    Pedro Carneiro Pereira foi meu ídolo na infância. Lá na minha cidade ( Nova Palma) só se ouvia o rádio de bateria e foi ouvindo a Guiaba que aprendi a gostar de futebol. Inesquecivel a narração do gol de Oberti, em um gernal de 1xl. Maravilhoso.

  4. almir gomes says:

    Buenas, acompanhava as jornadas desta equipe imbatível da Guaíba, depois trabalhei, como redator, anos 80, no RJ, em uma ag. fundada no RS e tinha como cliente mais antigo o patrocinador destas jornadas, a Ipiranga, solicito se teriam, vocês, algo de anúncios daquela época? Nos jornais da Caldas Jr., óbvio. Tbém agradeceria foto de um dos fundadores das ag., in ício anos 60, quando locutor de turfe da Guaíba, Luís Macedo, da MPM, abs, grato.

  5. Vilmar Minozzo says:

    Foi,sem dúvida, um momento de glória para o rádio esportivo gaúcho e brasileiro. Destaca-se a qualidade dos profissionais, a proposta da Guaíba de informar,fazer das jornadas esportivas um estilo próprio. Criou-se, na época, um hábito e uma legião de fiéis ouvintes. Para alguns, como eu, serviu como faculdade, mesmo que mais tarde tenha concluído os cursos de Jornalismo, publicidade e propaganda. Escola seguida até hoje por mim e outros tantos profissionais do rádio!

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