O futuro do rádio

Transmissões por satélite e softwares que criam emissoras personalizadas modificam os negócios no mundo do rádio
Por Manoel Fernandes*

Orson Welles adoraria a novidade. Em 1938, o cineasta americano simulou uma invasão de marcianos a Terra durante uma transmissão de rádio. Cerca de 6 milhões de ouvintes acreditaram na farsa. Hoje o estrago seria maior. Bastaria que Welles tivesse a seu favor dois fenômenos que estão modificando o meio eletrônico de difusão de informações mais antigo do mundo: a transmissão de áudio por satélite direto para o aparelho portátil sem a intervenção de antenas e o Podcasting, um conjunto de softwares que permite a criação de emissoras personalizadas na internete. A revolução em andamento perpassa a essência e o modelo de negócio criado pelo rádio desde a sua estréia no início do século 20. As mudanças começam com o crescimento substantivo das rádios via satélite que extrapolam os

Mercado. Nos EUA, 4 milhões de pessoas têm rádios por satélite

limites geográficos e territoriais. Hoje já é possível, por exemplo, um motorista atravessar os Estados Unidos de ponta a ponta – Nova York até Los Angeles – sem mudar de emissora. Quatro milhões de americanos têm à disposição esse serviço, no qual o áudio chega com qualidade digital. Outra vantagem é a ausência de comerciais em algumas estações. Associada a essa transformação por satélite, há outra em andamento que pode ter para os rádios o mesmo impacto que os blogs — os diários eletrônicos espalhados pela internete — tiveram sobre a mídia impressa. Batizada de Podcasting, a tecnologia permite a qualquer pessoa ter a própria rádio.

Na freqüência das rádios por satélite, os números são suficientes para impressionar o mais cético ou conservador defensor das rádios tradicionais. Nos EUA existem duas companhias que exploram o novo filão. A XM e a Sirius ofertam juntas 100 canais de música, informação e entretenimento para seus clientes, que em troca pagam uma mensalidade de US$ 13. Do outro lado da cadeia há 23 fabricantes que disputam o mercado de equipamentos capazes de receber o áudio dessa tecnologia em casa, no carro ou durante uma caminhada. São acessórios que começam em US$ 100 e podem chegar até US$ 300. A americana Delphi, uma das maiores companhias de autopeças do mundo, já vendeu sozinha mais de 3 milhões de rádios por satélite. A empresa foi a pioneira em colocar rádios dentro dos carros em 1936 e assumiu novamente a dianteira dessa inovação. Há uma explicação de negócio por trás dessa estratégia. Só em território americano há 200 milhões de carros. No Brasil, o número é dez vezes menor. Pelos cálculos do banco de investimento Leman Brothers, os usuários desse novo mundo chegarão a 35 milhões no mundo.

As operadoras de rádio por satélite nos EUA cobram US$ 13 e não exibem propaganda

As rádios por satélite são diferentes daquelas emissoras que existem no mundo real e usam a internete como extensão para captar ouvintes. Só no site brasileiro www.radios.com.br   estão catalogadas 7 000 rádios em todo o mundo, a maior parte comerciais. Esse grupo necessita de alguém do outro lado da linha conectado a um computador, preferencialmente com banda larga, para receber o áudio. “Essas tecnologias permitirão o ressurgimento do rádio em todo o mundo”, afirma Willians Spinelli, diretor do radios.com.

Quem ameaça as emissoras na internete é a tecnologia de Podcasting (fusão das palavras Ipod e broadcasting). Com ela é possível a partir de um conjunto de softwares transformar arquivos de áudio e distribuí-los automaticamente pela internete ou em tocadores de MP3 como o Ipod da Apple. Programas inteiros podem ser feitos sob esta nova visão. O ídolo dessa comunidade é Adam Curry, ex-VJ da MTV que vislumbrou nesse novo mundo uma grande oportunidade de negócios. Desde que lançou o seu próprio software aproximadamente 500 mil pessoas copiaram e montaram suas rádios em tempo real. O crescimento desse universo é ilimitado porque reúne dois mundos dinâmicos — aquele formado por fãs ardorosos de máquinas como o iPod e o outro dos fãs de arquivos de MP3. Dessa vez, o rádio mudará para sempre. Orson Welles iria adorar. 

_____________________________________________
*Manoel Fernandes escreve na revista Istoé Dinheiro

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *