O gênio do mundo digital

Steve Jobs revolucionou mais a eletrônica digital do que qualquer outro líder setorial na segunda metade do século 20 e começo do século 21. Sua contribuição talvez seja ainda maior do que aquela dada por Henry Ford, um século antes, à indústria automobilística e à mecânica em geral. Na semana passada, Jobs deixou o comando da Apple, por problemas de saúde. Para muitos analistas, ele recriou o Vale do Silício à sua imagem e semelhança. A marca essencial de seu trabalho apoia-se na criatividade.

A empresa que fundou, aos 21 anos de idade, em companhia de Steve Wozniak, num fundo de quintal em 1976, transformou-se em agosto de 2011 na corporação de maior valor do mundo.

Filho adotivo de Paul Jobs, um operador de máquinas, e de Clara Jobs, uma contabilista, de Mount View, na Califórnia, Steve Jobs nasceu em Los Altos, no Vale do Silício, em 24 de fevereiro de 1955.
Terminou o curso colegial em 1972 e chegou a matricular-se numa universidade, o Reed College, de Portland, em Oregon, focada essencialmente em humanidades, cultura geral e artes, famosa por seu rigor acadêmico. Ali experimentou drogas, até LSD, frequentou um templo Hare Krishna e vendeu garrafas vazias de refrigerantes para comprar comida. Mas Steve abandonou a faculdade depois de apenas um semestre. Foi em 1974 trabalhar na Atari, em Sunnyvale, no Vale do Silício, da qual saiu logo para uma viagem à Índia, onde viveu algum tempo numa comunidade rural e converteu-se ao budismo, que adotou como filosofia de vida, embora se confesse ateu.

Apple I e Apple II

Jobs e Wozniak em 1975

Ao retornar da Índia, em 1975, associou-se ao Homebrew Computer Club, que tinha como presidente Steve Wozniak, do qual se tornara amigo quatro anos antes. Ambos se reuniram para trabalhar no projeto de uma placa lógica de computador, da qual resultou o Apple I em 1976.

Wozniak foi, na realidade, o pai do protótipo do primeiro computador pessoal, do qual foram fabricados apenas 500 exemplares, sem nenhum sucesso comercial. O Apple I já era bem mais do que uma placa de circuitos integrados (a placa lógica), mas não chegava a ser um computador completo, como o conhecemos hoje. Rodava com um sistema operacional Basic, pouco confiável, e não tinha monitor. Mas impressionou engenheiros da HP, quando a dupla Jobs e Wozniak demonstrou seu funcionamento. Para sorte de ambos, a HP decidiu não fabricar o Apple I, como pretendia a dupla.

Para reunir o capital e fundar sua própria empresa, Jobs e Wozniak venderam uma velha Kombi e uma calculadora HP 65. Nasceu, então, a Apple, no final de 1976. Foi quando começaram a trabalhar no Apple II, que daria o grande salto não apenas na vida de Steve Jobs, mas também na empresa. Com os recursos da venda de 500 computadores Apple I, Wozniak começou a trabalhar no projeto do Apple II, que não seria um simples aperfeiçoamento do primeiro, mas um conceito totalmente novo e mais avançado.

O Aplle II

A empresa, consolidada em 1977, lançou então o Apple II. O sucesso da nova máquina superou o de todos os concorrentes, como Amiga, Commodore, TRS-80 e outros. Milhões de pessoas no mundo descobriram o computador pessoal usando essa máquina. A empresa passou, então, a crescer rapidamente e fez sua oferta pública de ações em 1980, atraindo só no primeiro dia a impressionante quantia de US$ 1,2 bilhão. Com apenas 25 anos, Jobs já acumulava uma fortuna de US$ 239 milhões.

É bom relembrar que um terceiro modelo do Apple, denominado Apple III, foi um fracasso. Ainda bem que a empresa não abandonou o Apple II.

Em 1981, Steve Jobs assumiu o cargo de presidente (chairman) da Apple. Em agosto desse mesmo ano, a IBM, embora tenha ridicularizado a ideia de computadores pessoais, lançou seu primeiro PC.


Lisa, um fracasso

Steve Jobs lançou com grande entusiasmo um computador ambicioso, o Lisa, em 1983. Durante a apresentação do novo computador, tudo parecia mais avançado. Com mouse e interface gráfica com ícones, o Lisa foi, na verdade, o precursor do Mac. Mas não fez o menor sucesso, até porque seu preço era muito elevado, na faixa de US$ 11 mil.

Nesse mesmo ano, Steve Jobs contratou um executivo famoso da Pepsi Cola, John Sculey, para CEO da Apple.Macintosh, a revoluçãoLançado em 24 de janeiro de 1984, o Macintosh transformou-se logo no microcomputador mais revolucionário do mundo, com os ícones tão atraentes de sua interface gráfica e o mouse. Depois dele, a microinformática não foi mais a mesma, em todo o mundo.

 

Macintosh, revolução total

O grande diferencial do Macintosh resume-se em cinco qualidades essenciais: 1) facilidade de uso (user friendly); 2) estabilidade; 3) maior capacidade de processamento; 4) extraordinária flexibilidade no processamento de imagens e 5) abundância de software para multimídia e aplicações educacionais.

Muitos usuários, a princípio, não sentiram muito entusiasmo pelo Mac, pois ele parecia ser apenas uma versão miniaturizada do Lisa. Mas logo mudaram de atitude, diante da contagiante vibração e das informações de Steve Jobs, mostrando que o Mac faria tudo que o Lisa fazia, por menos de um terço de seu preço, graças a três inovações ousadas.

Uma delas era o sistema operacional mais amigável criado até então, baseado em interface gráfica de usuário (Graphic User Interface – GUI), com a simplicidade e a clareza dos ícones. Em segundo lugar, o poder de fogo do primeiro microprocessador de 32 bits para computadores pessoais, o chip Motorola 68000. Por fim, a novidade de maior impacto: o mouse, ou ratinho, recurso incorporado definitivamente nos anos seguintes como peça essencial do computador pessoal.

Curiosamente, nenhuma dessas três inovações havia sido criada pela Apple. Além do chip da Motorola, o Mac utilizava o mouse e a interface gráfica de usuário, recursos que foram desenvolvidos no famoso Centro de Pesquisas da Xerox, em Palo Alto, o Xerox Parc (Palo Alto Research Center).

A trajetória do Macintosh nos últimos 27 anos mostra, acima de tudo, ousadia nas inovações, embora a Apple tenha enfrentando momentos de crise. Mas nenhuma outra linha de computadores pessoais poderia hoje retratar de forma tão completa e precisa a evolução da informática em todo o mundo nas últimas duas décadas.

O G5

Assim, quando comparamos o primeiro Mac com o modelo G5, lançado em 2003, vemos que a memória de acesso aleatório (Randomic Access Memory – RAM) deu um salto de mais de mil vezes, passando de 256 quilobytes (kB) para 256 megabytes (MB), com a possibilidade de expansão até 8 gigabytes (GB).

Nos modelos sucessores do primeiro Mac, como o Macintosh II, a Apple anunciava com orgulho a elevação da memória RAM para 512 kB. E, em 1986, a possibilidade de expansão da memória passou para até 4 MB. O clock saltou de 8 MHz no primeiro Mac para 16 MHz em 1986.

Além do avanço representado pelo mouse e pelo sistema operacional amigável, o primeiro Mac inovava, na época, com o uso de disquetes de 3,5 polegadas, com 400 kB. Com os novos chips Motorola 68030, em 1989 e 1990, o Mac SE/30 tornou-se o primeiro computador pessoal a oferecer um slot de expansão e disco rígido interno.

MacBook

Mas a primeira tentativa da Apple de lançar um computador portátil, com o Mac Luggable, por volta de 1990, foi um fracasso total. Ele pesava quase oito quilos e ainda usava os chips 68000, de 8 MHz. Mas em 1991 surgiu a série vitoriosa de portáteis, os Mac 170, com tela monocromática de cristal líquido e já com a designação geral de Powerbooks.

 

Jobs deixa a Apple

A primeira vez em que Steve Jobs pediu demissão da Apple foi em 1985, numa queda de braço com Sculley, que assumiu a presidência da empresa. Logo em seguida, Jobs lançou a empresa NeXT, baseada em Redwood, na tentativa de criar um microcomputador ainda mais sofisticado do que o Macintosh e que pudesse revolucionar a pesquisa e a educação superior.

O NEXT

Em 1986, Steve Jobs comprou por US$ 10 milhões a Pixar Animation Studios, do diretor de cinema George Lucas. Dois anos depois, lançou o computador NeXT, um cubo preto de 30 centímetros de altura, que custava US$ 10 mil. No ano seguinte, Steve Wozniak também deixou a Apple, embora mantenha até hoje seu vínculo como empregado e receba um salário mensal. Em 1991, Steve Jobs casou-se com Laurene Powell, que ele havia conhecido em 1989, quando ela fazia um curso de pós-graduação na Universidade de Stanford.

Toy Story, um sucesso

Em 1995, Jobs lançou Toy Story, o primeiro filme da Pixar, distribuído pela Disney, que se tornou um imenso sucesso desde o primeiro dia de exibição. Sua fortuna passou, então, de US$ 1 bilhão, com a oferta pública de ações da Pixar.

Volta à Apple

Na metade da década de 1990, a situação econômica da Apple era preocupante. A empresa estava sem perspectivas no mercado e corria o risco de entrar em decadência. Sua decisão estratégica e salvadora em 1996 foi comprar a NeXT por US$ 400 milhões e recontratar Steve Jobs, como conselheiro.

O então presidente da Apple, Gil Amelio, executivo famoso, ex-presidente da National Semiconductors, foi demitido da Apple e Steve Jobs assumiu o cargo de presidente executivo (CEO) interino, em 1997.

O iPod

Em 1998, a Apple lançou o iMac, o computador de venda mais rápida da história. Em 2000, Jobs assumiu o cargo de presidente permanente da Apple. O lançamento do iPod em 2001 marcou o início de uma revolução na indústria da música digital.

Embora já existissem diversos modelos de dispositivos tocadores de música digital, o iPod começou a dominar o mercado em menos de um ano, passando a vender mais do que todos os concorrentes juntos. Até um novo modo de comercializar a música na internet e de combater a pirataria foi criado pela Apple, com o lançamento do software de download chamado iTune Music Store, que passou a vender faixas de CDs isoladamente, a US$ 0,99 cada uma.

Saúde abalada

Num e-mail enviado aos empregados da Apple em 2004, Steve Jobs anunciou que ia ser submetido a uma cirurgia para tratar de um câncer raro, no pâncreas.

Em 2006, Steve Jobs vendeu a Pixar para a Disney Studios por US$ 7,4 bilhões, trocando ações. Com isso, tornou-se o maior acionista da Disney e passou a integrar o conselho dessa empresa, uma das seis maiores de Hollywood.

iPhone, maior sucesso

Em 2007, foi o maior lançamento da Apple, até então. A empresa decidiu entrar no mercado de telefonia celular com o iPhone. Sem teclado, com apenas uma tela sensível ao toque e ícones, o celular transformou-se no smartphone de maior sucesso em todo o mundo. Nos últimos quatro anos, a Apple lançou quatro novos modelos do iPhone. Em outubro, deverá chegar o iPhone 5, com o máximo de novidades.

O sucesso do iPhone supera o de todos os demais produtos da Apple. Seu computador Apple II levou quase 15 anos para vender 20 milhões de unidades; o iPhone 4 vendeu esse mesmo número nos últimos 12 meses.

A saúde de Steve Jobs agravou-se em 2009, levando-o a afastar-se por seis meses da Apple, para fazer um transplante de fígado.

O impacto do iPad
Anunciando o iPadEm janeiro de 2010, a Apple revolucionou mais uma vez o mercado de dispositivos móveis, com o lançamento do tablet mais inovador, o iPad. Sua tela de toque, com excelente imagem, consolidou a própria ideia de um aparelho capaz de integrar tudo: internet, música, celular, banda larga, livros, jornais e revistas. O sucesso foi tão rápido que a Apple apressou-se em lançar a segunda geração desse tablet, o iPad 2.

Carta de despedida

Anunciando o IPad

No dia 24 de agosto de 2011, Steve Jobs encaminhou sua carta de renúncia e despedida da Apple, indicando seu sucessor, como presidente executivo, Tim Cook.

Eis a carta de Steve Jobs:

“Aos diretores e à comunidade da Apple: Eu sempre disse que, se chegasse o dia em que eu não pudesse mais dar conta de minhas obrigações e expectativas como presidente executivo da Apple, eu seria o primeiro a dar conhecimento disso a vocês.

Infelizmente, esse dia chegou. Por meio desta carta, eu renuncio ao cargo de presidente executivo da Apple. Eu gostaria de servir, se a diretoria assim concordar, como presidente do conselho, diretor e empregado da Apple.

Tão logo meu sucessor chegue, eu recomendo que seja executado o plano de sucessão e nomeie Tim Cook como CEO da Apple.

Acredito que os dias mais brilhantes e inovadores da Apple estão por vir. Espero ver e contribuir para seu sucesso numa nova função.

Fiz na Apple alguns dos melhores amigos de minha vida, e agradeço a todos pelos muitos anos que pude trabalhar junto com vocês.
Steve”

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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