O grito de socorro das mulheres em Juárez

“À meia-noite tocou a campainha. Estávamos deitados e nos vestimos rapidamente para atender à porta. Eram dois policiais. “São vocês os pais de Hester van Nierop?’ O que ocorreu depois é indescritível. Por Ingrid de Vries (*).


“O mundo caiu sobre nós. ‘Temos que lhes contar algo terrível’, disse a polícia. Hester está morta. Foi assassinada’. Desconhecemos os detalhes, mas aqui está o telefone da embaixada holandesa no México”.

Arsène van Nierop descreve assim em seu livro “Grito de Socorro de Juárez”, como foi informada sobre a morte de sua filha Hester. É possível para uma mãe superar a morte de uma filha? Quem souber o que é ser mãe dirá que não. Arsène van Nierop nunca irá superar a perda de sua filha, no entanto, ela conseguiu tirar uma força incrível da sua desgraça, que a tem levado a ser capaz de ajudar a outras mães que enfrentam a mesma dor.

“Grito de Socorro de Juárez” é o testemunho da luta de uma mãe para conseguir justiça pelo assassinato de sua filha em Ciudad Juárez no México. Apesar de sua insistência ante as autoridades mexicanas, até agora, ela não conseguiu que o suposto agressor fosse levado a julgamento.

Hester era uma jovem de 28 anos, que acabava de terminar o curso de arquitetura. Havia viajado para o México para visitar a sua irmã e se dirigia aos Estados Unidos onde queria trabalhar alguns meses. Por azar escolheu Cuidad Juárez como lugar para passar a noite, antes de atravessar a fronteira.

Por razões totalmente desconhecidas, foi ao Hotel Plaza, onde, segundo testemunhas dos funcionários, teve uma discussão com um senhor, um tal Roberto Flores Reyes. Ninguém sabe até hoje porque ela subiu ao quarto dele. O corpo de Hester foi encontrado no dia seguinte, debaixo da cama de Roberto Flores, que já havia abandonado o hotel.

Graças à informação de uma jornalista holandesa, Arsène soube que sua filha era uma das muitas vitimas da violência contra a mulher naquela região mexicana. Em 2003, a Anistia Internacional prestou atenção ao feminicídio em seu informe anual e mencionou especificamente a morte de Hester. Este feito deu força a Arsène e sua família para entrar em contato com os meios de comunicação. Arsène viajou então a Juarez com uma equipe da televisão holandesa.

Em Ciudad Juárez Arsène conheceu Esther Chávez Cano, fundadora da “Casa Amiga”, um refúgio para mulheres vítimas da violência doméstica e para familiares de mulheres e meninas assassinadas.

Arsène decidiu criar uma fundação, que leva o nome de sua filha Hester, com o propósito de reunir fundos para a “Casa Amiga”. Graças às doações e aos rendimentos das vendas do livro, a “Casa Amiga” pôde contratar uma psicóloga e uma pediatra para assistir às vítimas da violência de gênero e seus familiares em Ciudad Juárez.

Diversas organizações dedicaram atenção ao tema do assassinato de mulheres, entre eles a Anistia Internacional e a Radio Nederland Wereldomroep, que em cooperação com as agências humanitárias Oxfam/Novib organizou um seminário na Holanda e no México sobre o problema. Do seminário participaram inclusive representantes do governo mexicano. Em parte por conta dessa publicidade, o Parlamento Europeu se pronunciou, em uma sessão extraordinária, sobre o assassinato de mulheres na América Central. Muitos testemunhos, entre eles o de Arsène foram feitos durante a sessão.

Graças a toda essa publicidade em torno do tema, o governo holandês decidiu subvencionar a “Casa Amiga”. Além do mais, a embaixada da Holanda no México subvenciona a investigação forense das vítimas.

Em seu livro Arsène fala também da indústria maquiladora nas cidades fronteiriças do México, uma das muitas circunstâncias que contribuem para difícil situação das mulheres da região. Nestas indústrias são contratadas principalmente mulheres, porque trabalham duro e são mão-de-obra barata.

Entre essas empresas está a multinacional holandesa Philips. Arsène entrou em contato com a Philips, para perguntar sobre as condições de trabalho das empregadas da fábrica em Ciudad Juárez e para informar-lhes sobre o trabalho da “Casa Amiga”. A multinacional assegurou a Arsène que trata bem a seus empregados e que paga mais que o salário mínimo. Na fábrica de Juarez, segudo a empresa, regem regras estritas e são tomadas medidas severas em caso de intimidação sexual.

“Que sorte temos, que felizes somos, era algo que repetíamos muito no passado, mas era em outra vida, uma vida já muito distante, quando tudo era normal. Quando não sabíamos o que era a dor. O assassinato de Hester mudou nossas vidas radicalmente. “A ingenuidade se perdeu para sempre”.

“Mas conseguimos retomar nossas vidas. (…) Sigo sentindo dor, isso não desaparecerá nunca, mas somos capazes de encontrar bons momentos”. Apesar da tristeza que emana, o livro é ao mesmo tempo esperançoso. Arsène deu voz a todas essas meninas e mulheres desaparecidas e assassinadas e agora na Holanda se escuta também o grito de socorro de Juárez.

(*) Escreve no site da Rádio Nederland

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