O Hip-Hop e as ‘Narrativas de Formação’

No universo da música temos algumas narrativas que funcionam como verdadeiras cápsulas do tempo, possuindo a incrível capacidade de nos transportar ao passado da vida do artista musical. São poucos os artistas que têm uma técnica apurada para construir ‘histórias de formação’, em que temos no cerne da canção a passagem da infância até a fase adulta. Duas músicas que exploram habilmente essa temática e que podemos destacar são: ‘Legacy’ de Eminem, e ‘Relíquia’ do grupo Cone Crew Diretoria.

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Em ‘Legacy’, o rapper americano Eminem realiza de forma detalhada a reconstituição da sensibilidade de uma criança, sendo que o artista mergulha em seu próprio âmago com o objetivo de apresentar todos os tormentos, anseios e sonhos que possuía em sua infância. É necessário destacar que o rapper utiliza-se no percurso de sua canção de uma tonalidade vocal que lembra a de um menino, inclusive rimando pausadamente, para que assim, sua narrativa torne-se crível e consequentemente o ouvinte percorra junto com o artista as estradas do passado. O próprio refrão da música e sua batida possuem genialmente a mesma cadência das canções de ninar, funcionando como uma espécie de contraponto para os primeiros anos de vida extremamente conturbados e sofridos do eu-lírico. ‘Legacy’ é, acima de tudo, um rap de grande inventividade, tendo inúmeros elementos que contribuem para sua riqueza musical, como por exemplo, a utilização de uma tonalidade vocal capaz de causar inúmeros efeitos sensoriais no ouvinte e a fusão primorosa da batida, do refrão e das rimas que emanam uma atmosfera melancólica e intimista.

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Em ‘Relíquia’, temos como introdução o relato de uma das mães do componente do grupo ‘Cone Crew Diretoria’, especificamente a mãe do rapper Batoré, Dona Ana, relembrando a infância e a personalidade de seu filho. Temos uma fala saturada de amor que faz com que imaginemos em nossa mente o menino Batoré fazendo suas travessuras pela vizinhança, ou seja, desde o começo da canção os artistas musicais conseguem mexer com o imagético do ouvinte, fazendo com que este se sinta em uma poltrona de uma sala de cinema a espera de uma história de cunho introspectiva e saudosista. Após a fala de Dona Ana, inicia-se a batida e Batoré solta versos sonoros e rítmicos de forma pausada e depois de certo tempo o rapper aumenta a velocidade, já que ele entende que deve capturar cada um dos momentos importantes de sua vida, momentos esses que são de uma simplicidade única, nos fazendo lembrar os poemas de Charles Bukowski, cuja sua grande qualidade poética era a de aplicar lirismo em momentos comuns e nas coisas triviais do cotidiano.

Em certo momento de ‘Relíquia’, Maomé assume o microfone e, assim como Batoré, também constrói habilmente sua respectiva ‘narrativa de formação’, apresentando situações do passado metamorfoseadas em amadurecimento pessoal, temos esse exemplo nas seguintes rimas: “E de tanto que errei, aprendi a acertar/ A melhor chance eu agarrei e soube aproveitar/ Somente aquilo que sei é o que posso confirmar”.

Diante de tudo que foi exposto, têm-se a certeza de que o Hip-Hop vive um momento incrível, tendo artistas utilizando-se de inventividade, lirismo, flows incríveis e batidas que fundem perfeitamente com as composições escritas. Nada mais justo que esse gênero musical esteja cada vez mais ganhando a valorização artística e intelectual que tanto batalhou, mereceu e por fim, está conquistando.

Confira abaixo a canção ‘Relíquia’, do grupo de rap Cone Crew Diretoria:

1 responder
  1. Marcelo Severo says:

    Olha, muito bem colocadas suas palavras e trazem o que busco em uma literatura. Sua ´profundidade nos detalhes´ DE EXPRESSÃO que trazem novamente nosso prazer em ler e ter a visualização quase que imediata De sua historia contata.

    Att

    Marcelo

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