O impressionante baú de relíquias de Altino Flores

Altino Corsino da Silva Flores foi um dos intelectuais mais importantes de Santa Catarina no século 20.

Nascido em São José, Altino Flores foi dono do jornal O Estado por mais de 20 anos. Seus artigos no jornal eram marcados pelo espírito crítico e polêmico – Álbum de família

Trinta e cinco anos após sua morte, familiares do professor, tradutor, jornalista e acadêmico preservam documentos, fotos e objetos que marcaram sua rica trajetória na imprensa, na política, na educação, na literatura e na Academia Catarinense de Letras, da qual foi um dos fundadores.

A única filha viva, Noemi Flores Boppré, 89 anos, guarda boa parte desse tesouro, que é apreciado pelos descendentes de Altino Flores, além de amigos da família. “No futuro podemos digitalizar todo esse material e socializá-lo, porque não faz sentido guardar no baú tantas preciosidades históricas”, diz o vereador Afrânio Boppré (PSOL), filho de Noemi. “Colocar esse acervo à disposição da comunidade servirá como um ‘memorial’ público de meu avô”, completa.

Esquina das ruas Tenente Silveira e Arcipreste Paiva. As duas edificações foram demolidas na década de 1950. No lugar delas foi construído o Edifício das Secretarias (depois Secretaria da Fazenda, hoje sede da prefeitura) – Álbum de família

Entre as fotos de Florianópolis, há registros dos escombros do prédio da Assembleia Legislativa do Estado, destruído por um incêndio em 1956. Há também uma imagem mostrando como era a esquina das ruas Arcipreste Paiva e Tenente Silveira antes da construção do Edifício das Secretarias (depois sede da Secretaria da Fazenda e hoje do gabinete do prefeito). A edificação de características coloniais foi demolida no início da década de 1950, durante o governo de Irineu Bornhausen (UDN). A escolha do local se deu por uma razão prática: a proximidade com o Palácio dos Despachos, sede do governo, e a facilidade de circulação e acesso dos secretários e funcionários públicos. O sobrado já era utilizado como extensão do palácio.

Como Altino era ligado à UDN (União Democrática Nacional), foi secretário dos governos de Irineu, Jorge Lacerda e Heriberto Hülse. Sua proximidade com os líderes do partido era muito anterior à própria fundação da UDN (1945). Foi amigo e companheiro de política dos irmãos Adolfo Konder e Victor Konder; o primeiro, governador do Estado entre 1926 e 1930, o segundo, deputado estadual entre 1919 e 1924. Por essa razão, há inúmeras imagens dos Konder, de Irineu, Lacerda, e de outras personalidades políticas das décadas de 1930 a 1950.

Nos anos 1920 ele “herdou” o jornal O Estado dos irmãos Konder, transformando o principal matutino de Florianópolis num dos mais importantes de Santa Catarina. Foi dono do jornal até a década de 1940, quando numa manobra bem-sucedida do governador Aderbal Ramos da Silva, OE mudou de mãos, de linha editorial e orientação política (da UDN para o PSD, o Partido Social Democrático). Altino era apaixonado pelo jornalismo diário. Atuava como repórter, redator, editor e fotógrafo. Entre seus registros fotográficos constam cenas do cotidiano da cidade, do comércio, do Miramar, das ruas históricas e do Mercado Público, e da vida nos morros, onde moravam os pobres.

Catedral Metropolitana antes da radical transformação arquitetônica, registro do fim da década de 1910 – Álbum de família

As fotos de aspectos e personagens da cidade e do mundo intelectual chamam a atenção de imediato. Como uma pequena imagem que mostra a Igreja Matriz (Catedral Metropolitana) no fim da década de 1910, ainda com os traços originais, depois alterados durante o processo de “modernização” do templo católico. A nova característica arquitetônica, mais monumental, foi projetada e executada para as comemorações do centenário da Independência, em 1922.

Os óculos de Altino sobre a primeira edição de “A Ilha” (1900), que ele conservou com zelo de bibliófilo – Carlos Damião

Primeira edição de “A Ilha”

Um dos tesouros mais bem guardados é a edição original (de 1900) do livro “Santa Catarina – a Ilha”, de Virgílio Várzea, até hoje uma obra fundamental para se compreender a história, a geografia, a cultura e a gente da Ilha de Santa Catarina (disponível digitalmente, graças a iniciativa da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Os óculos, com armação de ouro, que Altino usava para suas leituras, também estão nesse inventário de relíquias, além de inúmeras fotos familiares.

Entre personalidades intelectuais há no arquivo imagens de Cruz e Sousa (que morreu quando Altino tinha seis anos), do romancista Ladislau Romanowski, do artista plástico Estanislau Traple, do jornalista e poeta Colbert Malheiros (tio da escritora e professora Eglê Malheiros), e do também jornalista Petrarcha Callado, cunhado de Altino, uma das testemunhas do assassinato de Crispim Mira, em 1926, dentro da redação do jornal Folha Nova. Militante de esquerda, Petrarcha foi preso político torturado durante o Estado Novo (1937-1945). Publicou em 1947 o livro “Comandos Socialistas nas Terras onde Dias Velho foi o primeiro a desembarcar”.

Altino (esquerda) com o romancista paranaense Ladislau Romanowski, registro de 5 de agosto de 1928 – Álbum de família

Fundador da ACI

Nascido no arraial de Capoeiras, então pertencente a São José, em 4 de fevereiro de 1892, Altino viveu toda a sua vida em Florianópolis, onde exerceu cargos públicos, foi professor, jornalista, tradutor e notável polemista literário. Além da Academia Catarinense de Letras foi fundador e primeiro presidente da ACI (Associação Catarinense de Imprensa), em 1934. Morreu em 19 de outubro de 1983. Era casado com Zilda Callado, com quem teve cinco filhos: Percival, Ênio, Marília, Noemi e Zita. Além de Afrânio, são seus netos o jornalista e escritor Sérgio Lino e o dirigente esportivo Norton Boppré. Entre os bisnetos estão os jornalistas esportivos Carlos Eduardo (Cacau) Lino e André Lino.

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