O jornalismo sem Mário Pereira

Um admirável currículo no jornalismo, em que consta passagens por grandes redações do Brasil como O Jornal, publicação que era carro-chefe da cadeia de Diários e Emissoras Associados de Assis Chateaubriand e Zero Hora, a versão gaúcha de Última Hora, de Samuel Wainer. Também deu uma passadinha em O Globo, da família Marinho.

Apesar dos caminhos notáveis, Mário Pereira marcou época mesmo no Diário Catarinense, do Grupo RBS, meio de comunicação da família Sirotsky e também no jornal O Estado, do empresário Aderbal Ramos da Silva.
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Inquieto, Mário Pereira foi além da notícia e resolveu usar seu texto para publicar literatura. Seu primeiro livro, Jornalismo Fazendo a Cabeça, a primeira vista aparenta ser composto de histórias, além de trazer seus feitos e algumas opiniões bastante críticas a respeito da profissão. Só quem já tinha 27 anos de experiência poderia falar com tanta propriedade. A obra começa assim, mas vai adiante, revelando um excepcional crítico literário e um surpreendente crítico de cinema.

Ocupou por muitos anos um importante cargo de confiança no Diário Catarinense. Mário escreveu os editoriais do jornal, deixando a função há cerca de um ano.

Mesmo com a agenda cheia, não abandonou a literatura, afinal, para ele, escrever era um vício poderosíssimo. O vício de escritor levou-o a consagração entre os literatos. Mário Pereira passava, no final da vida, algumas tardes tomando café com seus confrades na Academia Catarinense de Letras. Ele ocupava a cadeira número oito dessa instituição. Quando aconselhado a candidatar-se à vaga, relutou, mas ao final dos burburinhos resolveu aceitar a proposta, pois substituiria um grande amigo.

Foi para falar sobre a carreira que o professor Mário Pereira retornou a Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) há dois anos. Retornar é o verbo ideal, e foi o mesmo utilizado por ele, na palestra com a qual presenteou os alunos de jornalismo da instituição. É que há não muito tempo atrás ele ministrava aulas da disciplina de Redação I e II dessa universidade. Foi organizador de três publicações que reuniram crônicas de seus alunos, e orgulhosamente, durante sua fala, lembrou destes trabalhos.

Na abertura, o literato falou sobre sua iniciação no famigerado e amado jornalismo, explicando que ao acaso, enquanto salpicava açúcar no seu cafezinho, lá em terras gaúchas, encontrou um amigo que acabava de assumir o comando do jornal Zero Hora. Lá foi feito o esquizofrênico pedido: “venha trabalhar comigo”.

Quem conheceu a capacidade intelectual de Mário Pereira sabe que não havia nenhuma esquizofrenia na atitude de Paulo Amorim. Mas é preciso levar em conta que, naquela época, um novato era convidado para a redação do ZH, um moço recém-formado em direito e com nenhuma experiência em jornalismo.

Todos estavam acomodados no Espaço Hipermídia, na Unisul, quando, repentinamente, os olhos de Mário se distraíram ao fitar o chão. Foram dois cães que chamaram sua atenção. Ele era um apaixonado por cães e gatos. Um de seus felinos chama-se Ernesto, uma homenagem ao escritor norte-americano Ernest Hemingway. O gato, aliás, é cubano e seu vendedor empurrou-o a Mário dizendo que o bicho pertencia a uma ninhada dos gatos de Hemingway, quando o americano esteve em Cuba.

Ficamos, agora, sem a experiência de Mário Pereira. O jornalismo local, esperto que é, há algum tempo já havia deixado Mário de escanteio. Ou será que o próprio fez esta opção? O fato é que muitas vezes ele confessou a mim sua aversão ao modus operandi do qual aos poucos se afastou.

Ficamos, agora, com os ensinamentos de Mário Pereira. O jornalismo local, esperto que pode ser, daqui para frente, deve visitar Mário Pereira quando não souber como agir profissionalmente. Deve copiar seu texto, quando não souber como escrever com brilhantismo.


O jornalista e escritor Mário Pereira morreu na manhã desta segunda-feira, no dia em que completaria 73 anos. Membro da cadeira de n°8 da Academia Catarinense de Letras (ACL), ele estava internado desde sábado (19/07) no Hospital Baía Sul, em Florianópolis, por causa de um edema pulmonar.

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