O Jornalista / Escritor: Confissões de um escritor frustrado

Silveira Júnior

Deem-me um editor e eu serei capaz de escrever um romance por mês. Por isso, nunca me admirei de um Jorge Amado, um José de Alencar, ou um Érico Veríssimo terem dezenas de livros na praça. Porque o duro não é exatamente escrever o livro, é encontrar quem o publique; melhor dizendo: quem o leia nos originais. Há vinte anos, pouco mais ou menos, entendi de escrever um romance em 30 horas. Eu trabalhava no Banco Inco e, depois das seis horas da tarde, o pessoal de apoio da secretaria normalmente ficava de plantão até as sete ou oito, dependendo dos diretores que estivessem no Banco. Então eu ficava aquele tempo mais ou menos sem fazer nada, mas com datilógrafos e máquinas à disposição.

Pensei: vou começar hoje a escrever um romance, contando a vida de uma moça do interior que vai viver na cidade grande as suas desventuras, os seus desvios de conduta, o seu relacionamento com homens e mulheres. E a cada dia ia para a máquina e dela não saia antes de haver escrito seis a sete páginas, numa datilografia tão imperfeita, que apenas a paciência de Dona Ida, minha secretária, conseguia decifrar.

E dentro das trinta horas, isto é, em trinta dias úteis, o romance estava pronto e acabado. Depois de passado a limpo, concluí que o livro seria muito pesado e simplesmente engavetei. Mas agora fui rever os originais e confesso que me agradei dele, mesmo porque a abertura que ocorreu nesses últimos vinte anos fez com que as cenas mais fortes possam ser lidas até por noviças.
Anos depois, resolvi escrever um livro de memórias, embora com o nome de romance. E também ele saiu de um jato. Em menos de 15 dias a estrutura estava pronta. O resto ficou por conta de Lia Leal, que me passou a limpo e corrigiu os erros do original.
Tinha um teste ainda a fazer: um romance de ficção científica. E também esse foi da primeira à página 203 em menos de um mês. Isso sem contar que o meu primeiro livro publicado “Um Brasileiro nos EE UU” são as cartas que eu todos os dias mandava para dona Lígia, minha mulher.

Modéstia à parte, o primeiro publicado (o de viagem) esgotou três edições; o segundo Memórias de um Menino Pobre está saindo também para a terceira edição.
Mas permanecem inéditos Confissões de uma Filha do Século e Depois do Juízo Final, ficção científica.

Odilon Lunardelli teve coragem de investir no Menino Pobre e creio que não se arrependeu.  Mas eu também entendo que arriscar tem hora e não me atrevo a levar-lhe os originais das “Confissões”, um livro estranho, por ter sido escrito por este marmanjo seu criado e, no entanto, ser contado na primeira pessoa por um personagem feminino.
Mas as poucas pessoas que o leram (Cláudio Carvalho, Celinda Sada, Senita Pedreira, Claudete Pegorin) gostaram. Garantiram-me que se não conhecessem o autor também teriam gostado.

Sobra inédito também Depois do Juízo Final, um enredo fantástico sobre uma imaginária explosão demográfica que ocorrerá em meados do século XXII.
Esquecia-me de dizer o seguinte: escrever u romance medíocre (e vamos admitir que todos os meus o sejam) não é mais fácil que escrever um bom romance, porque a mão de obra é a mesma: o mocinho, a mocinha, o bandido, o padre, o pai da mocinha, o amante da mãe da mocinha. Então eu concluí que quem pode produzir um mau romance por mês (e eu garanto que posso) talvez também possa produzir um bom romance nesse mesmo tempo.

O arguto leitor já se terá dado conta de que o difícil não é escrever o livro: é conseguir publicá-lo, num mercado saturado, onde o lixo da subliteratura americana empanturra todas as máquinas gráficas das editoras.

Um dia no Rio consegui furar uma fila e ter uma entrevista com Ênio Silveira, diretor da Livraria Civilização Brasileira. Ele me mandou entrar pensando que eu era banqueiro, mas quando lhe declinei a minha condição de escritor sem nome, a cara que ele fez, o desconforto que a minha presença passou a lhe causar foi tanto que, quando ele me disse: “Deixe o seu livrinho aqui que eu vou mandar ler” eu já sabia que vinha chumbo grosso. E veio. O crítico leu apenas umas páginas do romance, mas gastou duas folhas dizendo desaforos para o burro que havia escrito aquela porcaria. E o burro, já se vê – era eu…
Outra vez, peguei um romance e ataquei um editor de São Paulo, creio que o da editora Zahar. Ele me recebeu como quem recebe um mendigo, mandou a secretaria trazer a programação daquele ano e me provou que tinha 200 originais à espera de vaga, todos recebidos dos Estados Unidos, já com o fotolito da capa. Pedi muitas desculpas pelo incômodo e me mandei.

Esquia-me de dizer que tenho também o esboço de um Dicionário da Arte Universal e, pelas mãos do Flávio Cardozo, consegui chegar até a sereníssima presença do senhor José Bertaso, homem forte da Editora Globo. Contei-lhe atropeladamente o meu plano e perguntei-lhe sobre o eventual interesse de sua editora. E dele ouvi a informação mais burra e agressiva de quantas tenho ouvido nessa minha já longa vida: “Se houvesse interesse numa obra desse tipo, outro já teria feito…”.

Como terão observado, o escritor sem nome é, provavelmente, a criatura mais sofrida e humilhada do mundo. Mas graças a Deus nunca dependi de publicar um livro dos vários que já escrevi, para comprar uma sandália de dedo para uma filha. Já recebi direitos autorais, é verdade: da Tecnoprint, pela edição de Um Brasileiro nos EE UU, e da Lunardelli, pelas duas edições das Memórias, sendo que aquilo que recebi sobre a segunda edição foi pura liberalidade do editor, que detêm os direitos autorais da obra. Mas eu me refiro a esses editores dos grandes escritores nacionais, tipo José Olímpio, Ênio Silveira, Bertaso e outros figurões.

Criei até medo deles.

(Publicado em A Ponte – 3ª semana de julho de 1981 e no livro Imponderáveis do Destino lançado pela Academia Catarinense de Letras, em 2010. Pesquisa e organização de Lauro Junkes).

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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1 responder
  1. Mário Osny Rosa says:

    Aqui temos a mostra um relato sobre a vida de um escritor brasileiro, que não consegue editar seu livro que seria a literatura brasileira, para este povo brasileiro de baixo padrão cultural, que compra e lê traduções que nada tem a ver com nossa vivência literária.

    Tenho a mesma posição deste amargurado escritor.

    Parabéns amigo por seu grito e sua coragem!

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