O jornalista / escritor: Debutando na Imprensa

Silveira Júnior

Era o ano da graça de 1937. Eu tinha 20 anos e trabalhava no Diário da Tarde, do finado Adolfo Konder, em funções tão diversas como acompanhar a leitura dos originais para que Tito Carvalho ou Lourival Câmara fizessem a revisão; ir atracadouro do Miramar apanhar os jornais do Rio que vinham com os hidroaviões  da Panair, para recortarmos as notícias, expedir 300 ou 400 exemplares que eram enviados diariamente a prefeitos e cabos eleitorais do interior; contar as linhas compostas para serem pagas aos tipógrafos e passar as manchetes para uma folha de papel que era colocada no atual Senadinho, com as novidades daquela edição. A essa folha de papelão a chamávamos de “placar” e todo o jornal que se prezasse deveria tê-lo ali na praça.

Eu fazia tudo aquilo com a mais indisfarçável má vontade. Tinha um desencanto por todas aquelas funções, porque nada do que eu fazia ia para o jornal. Quando o Lourival Câmara pegava a máquina de escrever e enchia uma lauda, como eu estou fazendo agora, ele sabia que no dia seguinte o seu pensamento, os seus conceitos estavam no jornal; quando mestre Tito Carvalho mandava apontar o lápis eu poderia prever que, dentro de poucos minutos, muitas tiras de papel linha d’água seriam cheias com sua letra redonda e uniforme e iam para a composição e, portanto, para o público. Osvaldo Melo era outro privilegiado que publicava no jornal de amanhã tudo o que escrevesse hoje.

Para falar a verdade, eu tinha inveja até dos tipógrafos que compunham as palavras e as frases, que se transformavam em notícias, notas, artigos e reportagens.

O um desejo era escrever alguma coisa que também fosse para as páginas do jornal. Para isso perdia horas lendo e relendo os artigos dos jornais d época: Tito Carvalho, Lourival Câmara, Altino Flores, Barreiros Filho, Osvaldo Melo, Martinho Calado, Gustavo Neves…

Nessa época eu tomei algumas aulas de Português num curso de madureza, com o competente professor Manuel Luiz. Nesse curso, lecionando também língua nacional, conheci Maura de Sena Pereira. Ela era muito gentil comigo, talvez por ser um dos alunos mais velhos. Um dia ela me disse: “Ontem nasceu a minha sobrinha Flávia” (estou quase certo de que esse era o nome da menina). Eu então perguntei como era o nome dos pais da criança e anotei. Fui para casa e comecei a ensaiar uma nota para a coluna de sociais do jornal.

“Nasceu na quarta-feira a menina Flávia, encantadora filinha do casal Fulano e Fulana e sobrinha da competente professora dona Maura de Sena Pereira”.
Não gostei da primeira redação. Tentei outra. “Flávia é o nome da interessante menina que veio a enriquecer o lar do senhor Fulano e dona Fulana e sobrinha da competente professora e escritora dona Maura de Sena Pereira”.

Pensei que pudesse melhorar a nota e tentei mais outra: “O lar do casal senhor Fulano e dona Fulana foi enriquecido com o nascimento da pequena Flávia, sobrinha de dona Maura de Sena Pereira, competente professora e autora do livro Cântaro de Ternura”.

No afã de melhorar as primícias do meu nascente jornalismo redigi, melhor dizendo, parturejei mais duas ou três variações em torno do mesmo tema, fui à mês de Tito Carvalho e lhe disse: “Seu Tito, eu queria dar uma notícia de nascimento de uma sobrinha de dona Maura Pereira…”. Ele me disse: “pois então redige…”. Era o que eu ardorosamente aguardava. Retirei-me de sua sala e depois de um tempo que não provocasse suspeitas, voltei com a nota que me parecia a mais perfeita.

Mostrei-a a Tito Carvalho e aguardei o seu veredito mais inquieto e mais temeroso do que Enrico Formi nos minutos que antecederam a primeira explosão atômica no deserto de Alamogordo.

Tito leu-a de um relance, apanhou o seu lápis vermelho sempre à mão, cortou algumas palavras com esta observação: “Pois se quem nasceu foi a Flávia por que esses elogios à tia da criança?” Refiz a notinha e Tito pôs nela o seu imprimatur.

No dia seguinte, quando o jornal circulou eu era um homem feliz. Tinha ganas de dizer a todo mundo: “Olha, cidadão, quem redigiu a nota do nascimento da Flávia foi eu…”.

Aquela notinha foi o início de uma carreira jornalística que tanto tem de modesta quanto longa. Dura até hoje, embora nunca tivesse ganhado nesse trabalho o suficiente para pagar o preço desta folha de papel em que escrevo.
Felizmente, convivi com Tito Carvalho o suficiente para redigir páginas inteiras do velho “Diário da Tarde”.  Inclusive aquele que fiz em março de 1939, descrevendo a posse do Pio XII, cujas cerimônias captei em espanhol através da estática de um rádio que transmitia do Vaticano para Buenos Aires. A coroação foi pela manhã, e à tarde o jornal já a estampava em detalhes. Sucesso total.

Tito leu minha reportagem e mandou publicá-la com um elogio que até hoje guardo como um troféu verbal: “Você já pode me substituir nesta cadeira”.
O que, aliás, era pura generosidade dele. (Publicado em A Ponte – 1ª semana de outubro de 1981 e no livro Imponderáveis do Destino lançado pela Academia Catarinense de Letras, em 2010. Pesquisa e organização de Lauro Junkes).

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