Elóy Simões e o Juízo Final

1. “O sol… há de brilhar mais uma vez / A luz… há de chegar nos corações / O mal… será queimada a semente / O amor… será eterno novamente / É o juízo final, a história do bem e do mal / Quero ter olhos pra ver, a maldade, desaparecer”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA2. Conta-se que Nelson Cavaquinho, o autor do samba cuja letra transcrevi, tinha horror da morte. Uma noite, teve um pesadelo: sonhou que morreria às três horas da madrugada. Acordou, outro susto: faltavam dez minutos para as três.
Não teve dúvida: destruiu o relógio. Às três de hoje não morro, observou ao contar o ocorrido.
3. Os sinais estão aí, pra quem quiser ver: agora mesmo, a Anvisa enfia a colher enferrujada onde não foi chamada, e propõe a mudança da regulamentação da propaganda de bebida. E o ministro da Saúde bota mais pimenta no nosso prato, quando afirma: artistas não devem fazer publicidade de cerveja.
Mas o pior não é esse.
4. Sobre o pior venho falando e escrevendo há não sei quanto tempo.
Estou me referindo à forma como a imprensa se refere à publicidade: jamais fala em investimento, sempre em gasto. E não é só ela que faz isso – tenho ouvido isso de autoridades, anunciantes, profissionais de marketing e até de publicitários.
Enquanto isso ocorre, entidades, agências, profissionais, fazem ouvidos moucos.
Só que o juízo final está chegando.
5. Empresas anunciam investimento em comunicação, alguns jornalistas “denunciam”. Mais gastos para enganar o cidadão, dizem. Livros começam a aparecer condenando “a ditadura das marcas”. As oposições aos governos tiram partido disso,  denunciam os governos, os Tribunais de Contas concordam, esquecidos de que investimentos em comunicação pelos governos são fundamentais para o próprio regime. Fundamentais porque lhes permitem orientar e incentivar o cidadão em épocas como vacinação, volta à escola, ou, como foi feito recentemente, em defesa do Samdu etc. Isso, sem falar das empresas do governo que disputam mercado com outras.
6. Defesa do mercado me lembra as empresas privadas e os investimentos que elas fazem visando ao desenvolvimento de seus negócios. Investimentos, gastos não, porque, que eu saiba, nenhuma delas rasga dinheiro.
7. Vamos, você e eu, refletir em termos do juízo final, das três horas da manhã citadas na história sobre Nelson Cavaquinho. Vamos que os governos, pressionados pelos Tribunais, parem de fazer propaganda. E que empresas, constrangidas, diminuam seus investimentos.
Quem vai perder com isso? Quem vai pagar pela nossa atual indiferença, porque então não adiantará quebrar o relógio. [ Matéria publicada originalmente neste site em 03 de junho de 2007 ].

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