O legado da Rádio Diário da Manhã

“A Diário, nas décadas de 50 e 60, oferecia ao músico e ao compositor um suporte e uma infraestrutura que nenhuma outra emissora, nem de rádio, nem de TV, em nenhuma época ofereceu”. Zininho, 1993.

Francisco Mascarenhas

Francisco Mascarenhas

A visão empresarial que conduziu à concepção de um ‘conglomerado de comunicação’ é primeira contribuição trazida ao mercado. Pois mesmo que os objetivos prioritários tenham sido políticos, os princípios empresariais foram sólidos e bem fundamentados.

A segunda, o investimento num profissional reconhecidamente vitorioso como foi o caso de Francisco Mascarenhas, um dos fundadores da Rádio Difusora de São Francisco do Sul, figura simples e cativante que pegava junto com a equipe em todas as atividades da rádio.

Em seguida vem o adequado investimento disponibilizado para aquisição de equipamentos de última geração, recém introduzidos no Brasil.

Acoplado a isso, foi decisiva a liberação de recursos para a contratação de profissionais de primeira linha com projeção nacional como o caso do paranaense Souza Miranda, então atuando na Rádio Tupi de São Paulo, primeiro locutor a ser contratado.

Outra ação impactante foi oferecer remuneração acima do que pagava a concorrência, ocasionando a transferência em massa dos principais nomes do talento local. Casos notáveis foram os experientes Edgard Bonassis da Silva e Gustavo Neves Filho que faziam locução comercial e apresentações de auditório; narravam futebol e participavam do cast de radioteatro. Em nível destacado podem ser citados ainda os irmãos Ciro, Nívia e Iran Nunes; e os novatos, mas talentosos Humberto Mendonça, Rozendo Lima, Carminatti Júnior, Neide Maria Rosa e Cláudio Alvim Barbosa, o Zininho.

Outra grande conquista foi a contratação de Dakir Polidoro que lançara com sucesso o programa a Hora do Despertador na Rádio Difusora de Laguna e que se transformou no carro chefe da programação matinal da Diário da Manhã. E para concluir, o esvaziamento da concorrência se completou com a contratação do diretor de radioteatro Aldo Silva que se transferiu para a nova emissora levando vários integrantes do cast da “Mais Popular”, como era conhecida a Rádio Guarujá.

Em menos de um ano Francisco Mascarenhas, o Chiquito, havia transformado o projeto da família Bornhausen numa empresa que se equiparava às mais importantes emissoras do país, sendo reconhecida num grupo formado pelas cariocas Nacional, Tamoio, Mayrink Veiga e Tupi; pelas paulistas Record, Bandeirantes e Tupi; pelas Farroupilha e Gaúcha de Porto Alegre e Rádio Clube Paranaense de Curitiba. Nessa época a Rádio Diário da Manhã mantinha programas também em italiano, espanhol e inglês: Itália Eterna com Carminatti Júnior, Ritmo de Las Americas com Carlos del Rio e Turismo e Cidades com Athos Jacinto.

Para chegar nesse patamar, além dos recursos de competência profissional da equipe e a avançada tecnologia, dois outros fatores foram fundamentais: as condições de trabalho e o clima de relacionamento onde reinavam a simplicidade e correção, características predominantes do mestre Chiquito Mascarenhas.

Para sustentar 18 horas de programação ao vivo a emissora matinha uma discoteca das mais atualizadas com os tradicionais discos em 78 rpm, e os compactos em 33 e 45 rpm nos formatos de 10 e 12 polegadas, os famosos LPs.

Na parte de pessoal, cerca de 20 a 30 locutores, repórteres, redatores, comentaristas políticos e esportivos, apresentadores de programas de auditório e mais outros 10 radioatores criavam, produziam e apresentavam – entre programas diários de segunda a sexta-feira e os de final de semana:

Jornalismo

  • Três jornais falados, dois de 30 minutos pela manhã e ao meio dia, e outro de uma hora, às dez da noite.
  • Um programa de variedades – notícias e serviços – das seis as sete horas da manhã.
  • Doze edições de noticiosos de cinco minutos no período das oito da manhã às 21 horas.
  • Dois programas esportivos de 30 minutos pela manhã e no final da tarde
  • Um talk show de 30 minutos às onze e trinta da manhã.

Entretenimento

  • Quatro capítulos de novela de trinta minutos, distribuídos pela manhã, a tarde e à noite.
  • Programas semanais completos radioteatralizados: Bar da Noite e Alma Sertaneja, Lendas Brasileiras
  • Música e humor – programa de auditório as terças, quintas e sábados, pela manhã.
  • Música popular, regional e clássica: programas de auditório geralmente à noite durante a semana e aos sábados e domingos pela manhã e a tarde.
  • Programas Românticos, com produção e apresentadores exclusivos: Encantamento e Música e Romance (Aldo Silva), Saudade do Passado (Humberto Mendonça), Rosa de Tango (Souza Miranda)

Resumo histórico

Paulo Konder Bornhausen, deputado Dario Salles e Jânio Quadros na campanha em Jaraguá do Sul.

Paulo Konder Bornhausen, deputado Dario Salles e Jânio Quadros na campanha em Jaraguá do Sul.

Citando a edição de 29 de janeiro de 1955, do jornal Diário da Tarde, de Florianópolis, Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira, registram no livro História do Rádio em Santa Catarina (Editora Insular, 1999), “A inauguração da emissora deu-se no dia 30 de janeiro de 1955, em torno dos fundadores Irineu Bornhausen, Eduardo Santos Lins, Francisco Mascarenhas, Paulo Konder Bornhausen e Antônio Carlos Konder Reis”.

Medeiros e Vieira, comentam a seguir: “No segundo dia de operação a emissora realiza uma programação especial pelos quatro anos de governo de Irineu Bornhausen, conforme registro do jornal Diário da Tarde”, que é a seguinte:
“Da primeira parte do programa participou o Coral da Catedral, sob a regência do Maestro Peluso, entoando o Hino ao Creador (Beethoven). Em seguida, Gilda de Oliveira cantou Ária de Llara (Carlos Gomes – Lo Schiavo)”.

“Na segunda parte da homenagem, intitulada Sinfonia da Ilha, Sílvio de Oliveira declamou um poema com acompanhamento musical de (Luiz Fernando) Sabino e seu conjunto e a participação da cantora Maria Alice Barreto”.

Também integraram o evento Vilma e o Trio Válter, Vilma e Osni; Nabor (Ferreira) e Regional, juntamente com os cantores Neide Maria (Rosa) e Jairo Silva. Logo após, sob o comando de “Avez-Vous”, entrou em cena a Escola de Samba Embaixada Copa Lorde”.

“Na terceira e última parte do especial que homenageava Bornhausen, um dos expoentes da União Democrática Nacional, a cantora Gilda de Oliveira apresentou-se novamente com acompanhamento ao piano de (Luiz Fernando) Sabino. No encerramento, um solo de piano da menina Maria Palmira da Veiga Soares e o Hino de Santa Catarina”.

Um núcleo de comunicação

Como se pode perceber a emissora nasceu da necessidade política de um partido – a União Democrática Nacional – UDN – que surgira com o final da ditadura Vargas, em 1945, mas que carecia de um meio de comunicação simples e direto como o rádio.

No estado de Santa Catarina, desde o início da década de 1940, a família Ramos liderava mantendo o controle das Rádio Guarujá de Florianópolis e Difusora de Laguna através da coordenação do Partido Social Democrático – PSD.

Irineu Bornhausen, no centro da foto

Irineu Bornhausen, no centro da foto

Até que no final de 1949, o banqueiro Irineu Bornhausen, então líder da UDN, elege-se governador do Estado, assume em janeiro do ano seguinte e em 1952 determina a constituição da sociedade que se denominará “Diário da Manhã Ltda” e que previa a “aquisição e exploração comercial do jornal ‘Diário da Manhã’ e ‘Gráfica Diário da Manhã’ e ainda a instalação e exploração comercial de uma estação rádio-difusora, a qual deverá se denominar ‘Rádio Difusora Diário da Manhã’, ou terá outra denominação dependendo da vontade dos fundadores da presente sociedade”. Dos três empreendimentos previstos somente a rádio vingou, permanecendo com a família até meados de 1970.

A concessão do canal na frequência de 1.010 quilociclos veio com a portaria nº 663, de 21 de julho de 1954 com a permissão de instalação de uma emissora com 250 Watts de potência. A emissora foi instalada no final do mesmo ano e inaugurada em janeiro de 1955.

A conquista, embora importante, ainda deixava o grupo em inferioridade, pois a Rádio Guarujá, há 12 anos no ar com uma emissora de onda média, havia conquistado potência, no mínimo quatro vezes maior.

A família Bornhausen, sentindo a potencialidade do meio de comunicação rádio, logo no início de 1956, sai na frente e consegue a licença para instalar uma emissora de ondas curtas com 10.000 Watts de potência e alcance em todo o Brasil e em outros países latino-americanos e europeus, chegando, inclusive a receber confirmações de audiência do Japão, por exemplo.

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