O legado de Bolaños

A coluna “Mídia Criativa” é para tratar principalmente da mídia nacional, mas às vezes é necessário abrir certas exceções. Uma vez que o “Caros Ouvintes” é um instituto que prima pelo estudo da mídia, vale refletir sobre a importância de grandes nomes da radiodifusão mundial.

Chespirito_Divulgação

A repercussão do falecimento de Roberto Gómez Bolaños na última sexta-feira, dia 28 de novembro de 2014, é digna de uma reflexão. É, sem dúvida alguma, um fiel representante da mídia criativa. Devido à profundidade intelectual de seus personagens ganhou ele o “título” de “Chespirito”: um Shakespeare de baixa estatura (1,60 m).

Muito além de Chaves (“El Chavo Del Ocho”) e Chapolim (“Chapulín Colorado”), Bolaños é um dos pioneiros da televisão no México e na América Latina. Será sempre um dos principais nomes do humor televisivo mundial e foi ele um verdadeiro “embaixador” do México ao levar suas produções para todos os lados do planeta. Chaves falou espanhol, português, russo, japonês… Fez o mundo todo se curvar ao talento mexicano, ao seu humor simples e direto, tratando de temas delicados (como a pobreza na América Latina) com uma doçura incrível e muito humor na narrativa. Bolaños apaixonou e aproximou gerações com a mesma linguagem de sempre.

Uma vez perguntado à Chespirito qual era a maior dificuldade de sua carreira, ele disse que era escrever os roteiros sem malícia. Toda vez que escrevo um roteiro penso nisso, porque ele tinha uma preocupação grande: permitir que todos independentes de suas idades, pudessem assistir e sorrir de suas histórias. Pensar no público é seu maior legado. Dica que todos os profissionais da mídia deveriam pensar. Chespirito escrevia rapidamente seus roteiros, depois os relia rapidamente com os olhos de uma criança. Cortava, resumida, acrescentava… Tinha que passar “redondo” o roteiro, de não agredisse ninguém. Sem malícia, com pureza. Seu grande segredo, que faz seus roteiros inesquecíveis e eternos.

No último domingo, vi as imagens da transmissão internacional da Televisiva (“Chespirito Gracias Por Siempre”), retransmitida via SBT aqui no Brasil. Uma grande homenagem realizada a ele no Estádio Azteca (Cidade do México), que nos faz pensar que aquele lugar lotado e as demonstrações do público – muitos fantasiados como seus personagens – são apenas reflexos do mito que Chespirito se tornou. Saber de seu trabalho na Fundação Chespirito, pelas crianças de baixa renda e as com problemas de diabetes e obesidade, faz ver que o espírito de Chaves estava presente no próprio Bolaños. Seu olhar era puro e inocente, como de outro grande gênio das artes e da comunicação: Charles Chaplin, nosso eterno Carlitos.

Vimos demonstrações grandiosas em nossa própria televisão brasileira. Muitos além de briga pela audiência, vimos um SBT cuidando com todo cuidado de uma transmissão (e de especiais sobre Chespirito, durante toda sua programação) como quem trata a perda de um de seus maiores astros. A história do SBT com certeza é marcada pelas séries de Bolaños desde os anos 1980. Tratar da história desta emissora e não se referir à presença de Chaves e Chapolim, por exemplo, será um enorme erro. Outra demonstração bonita veio da concorrência do SBT. A Rede Globo, com todo respeito, se solidarizou à emissora de Silvio Santos e dos fãs da obra de Bolaños. Tanto em matérias em seus telejornais, como também no facebook, ao compartilhar um “post” da fanpage do SBT.

Chespirito criou produções para todas as idades em todos os tempos, de forma que dialoga com diversas gerações. Crianças de hoje, crianças de ontem: todos seus fãs. Crianças do Oriente se interligando com as do Ocidente… Afinal, fez ele a síntese bem feita do poder e da importância da infância. Roberto Gómez Bolaños nos mostrará sempre o papel da televisão na educação. Esse sim o maior de seus legados.

No ano de 2012, para comemorar 40 anos de carreira, a Televisiva realizou a comemoração internacional “América Celebra Chespirito”, apoiada por mais de 17 países – entre eles, Argentina, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Equador, Estados Unidos, Guatemala, México, Nicarágua, Peru.

No dia 20 de novembro de 2013, Chespirito foi condecorado com o Prêmio Ondas Iberoamericano, pela trajetória destacada na televisão mundial. Estava com 85 anos.
Com seu talento, “sem querer querendo”, Roberto Gómez Bolaños conquistou o mundo e ficará eternizado para sempre através de suas criações.

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