O legado do radialista

Comprado por editora, acervo pessoal de Paulo Tapajós com 25 mil documentos sobre música popular aguarda garantia de restauro para ser doado à Rádio Nacional.
Por Nelson Gobbi
JB On-line – 16/11/05

Um dos maiores nomes do rádio brasileiro, o radialista, cantor e compositor Paulo Tapajós sempre foi um aficionado pela memória – tanto que fez do peixe o seu prato predileto, na esperança de que o fósforo contido no alimento o ajudasse a manter vivas as histórias presenciadas ao longo da carreira.
Da mesma maneira como arquivou na mente passagens da era de ouro do rádio, veículo no qual atuou por mais de cinco décadas, Tapajós acumulou, com paciência, um acervo material de inestimável valor histórico, constituído de cerca de 25 mil documentos sobre música popular brasileira e internacional. São discos, fitas magnéticas, fotos, partituras, livros, revistas, recortes de jornal e manuscritos, tudo impecavelmente organizado por ele em seu apartamento, em Botafogo, até sua morte, em dezembro de 1990, aos 77 anos.


A viúva Dona Norma em seu apartamento, em Botafogo, entre os tesouros de Tapajós.

Mantido no mesmo local pela família, tal patrimônio está ao alcance de alguns poucos pesquisadores, estudantes e interessados na história da música, que contam com a boa vontade da viúva dona Norma e dos demais herdeiros de Tapajós para a garimpagem dos tesouros culturais amealhados pelo radialista. Mas há esperança de que o público venha a ter, em breve, acesso a este conjunto, uma vez que a editora Nova Fronteira comprou o acervo na intenção de doá-lo à Rádio Nacional, tão logo esta providencie as condições técnicas de recuperação, digitalização e preservação previstas em contrato. A emissora na Praça Mauá – onde Paulo trabalhou por 30 anos e para a qual criou programas famosos como Um milhão de melodias e Quando os maestros se encontram – tem o prazo de dois anos, a partir de 31 de dezembro, para cumprir as exigências e receber a doação.
– O negócio será interessante para todos. A família pode garantir a preservação do acervo; a Nova Fronteira tem a chance de prestar um serviço à sociedade; a Petrobras, com seu patrocínio, associa sua marca a um projeto relevante; e a Rádio Nacional fica com documentos que fazem parte de sua própria história – avalia Carlos Barbosa, diretor editorial da Nova Fronteira.
A negociação para a aquisição do arquivo começou por causa do livro A Rádio Nacional, lançamento da Nova Fronteira que chega às livrarias esta semana. Parte dos documentos usados na publicação e numa exposição de fotos, que será inaugurada na própria Rádio Nacional no dia 2 de dezembro, pertence aos arquivos do radialista. O projeto, que contou com verba da Petrobras, através da Lei Rouanet, teve investimento total de R$ 700 mil – incluídos os custos com a publicação do livro e com a exposição.
– Depois que o papai morreu, apareceram vários interessados em adquirir o acervo, mas a gente nunca quis fazer negócio sem garantir sua preservação e sua utilização pelo público. Não queremos repetir o erro de herdeiros que cederam seus arquivos e depois viram o material se perder. Queremos salvar os documentos antes de eles serem levados para a Rádio Nacional, já que muita coisa pode se deteriorar ao ser manuseada e precisa ser tratada antes do transporte – explica o cantor, compositor e produtor Paulinho Tapajós, filho do radialista e irmão do também compositor Maurício Tapajós e da cantora Dorinha Tapajós. 
Nelson Gobbi, escreve para o Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro. 10/11/2005


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