O lobisomem pinguço

Henrique chegou em sua barbearia e encontrou o Valdemar dormindo logo ao lado de sua porta. Valdemar vivia bêbado e dormia em qualquer canto. Não era um sujeito ruim, mas incomodava moradores e comerciantes do bairro pedindo dinheiro para a cachaça, ou ficava enchendo a paciência dos outros com seu papo-furado. Um dia Henrique teve uma ideia e disse a Valdemar que precisava falar um sério assunto com ele. Era só uma brincadeira. Henrique só não imaginou que Valdemar levaria a brincadeira tão a sério. Henrique disse:

– O Valdemar você que anda por aí a noite toda já viu o lobisomem? – Valdemar, com sua voz rouca e português enrolado, respondeu:

– Que lombisomem que rapaz. Nunca vi lombisomem nenhum.

– Sabe por que você nunca viu o lobisomem? Porque você é o lobisomem.

– Eu não so lombisomem coisa nenhuma – Valdemar saiu indignado com Henrique.

Uma hora depois Valdemar voltou com um cigarro na boca e perguntou ao barbeiro:

– Me diz uma coisa. Ta vendo que eu to fumando? Lombisomem fuma? – Henrique argumentou:

– Quando vira lobo não fuma, mas quando está como homem fuma sim. A prova está bem aqui na minha frente – E lá saiu Valdemar indignado mais uma vez. No final da tarde Valdemar voltou:

– O Henrique, se lombisomem existe por que eu nunca vi?

– Mas é claro Valdemar, você vira lobisomem e nem percebe.

Valdemar, preocupado, perguntou:

– O Henrique. E se alguém quiser matar o lombisomem?

– Aí você tem de se cuidar. Valdemar, você sabe como se mata um lobisomem?

– Ah, isso eu sei. É com uma bala de prata – respondeu Valdemar, meio assustado com a própria resposta.

Os comerciantes do bairro estranharam o sumiço de Valdemar. Quando aparecia era no final da manhã ou no início da tarde. À noite ninguém mais o via pelas ruas do bairro Bela Vista, em São José.

Dias depois Valdemar apareceu na barbearia. Já havia tomado algumas pingas. Esperou até o último cliente sair e perguntou ao Henrique:

– O Henrique sabe se tem alguém desconfiado de mim? Daquele assunto sabe né?

– Não. Será que você tem andado muito por aí à noite? – Perguntou o barbeiro Henrique. Valdemar vendo que não havia mais ninguém na barbearia, falou:

– Que nada rapaz. Consegui uma corrente e um cadeado. Amarro uma mão na outra e passo a corrente até o pé e fico quietinho. Deixo a chave meio longe e só solto de manhã rapaz. De repente tem um maluco por aí que tem uma bala de prata. Eu é que não vou me arrisca. Ó, não conta pra mais ninguém.

O pobre do Valdemar levou a sério. Achou mesmo que havia um lobisomem pinguço no bairro.

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