O menino e o monstro

J. Feliz Nolasco*

Corria o ano de 1951. A família do Sr. Antonio Braga Nolasco morava em uma fazenda, escondida em longínquo sertão do Triângulo Mineiro, já na região que rumava para o ainda mais inóspito território goiano. A Fazenda Pirapitinga, de propriedade do Sr. Antônio, distava cerca de três léguas (18 km) do lugarejo mais próximo que era o Vilarejo de Santa Rita das Andorinhas.

Distante mais além, a seis léguas (36 km) do Vilarejo, situava-se a grandiosa cidade (para a época) de Patos de Minas. A viagem da fazenda para o vilarejo só se fazia através de carro de boi ou a cavalo. No vilarejo existia, à época, apenas um carro pequeno, do Sr. Raul, que os moradores locais chamavam de V8, alusão creio eu ao tipo de motor que impulsionava o velho Chevrolet, além de dois caminhões antigos (de marca International). A estrada para a fazenda era totalmente intransitável mesmo para esses caminhões.

A vida na Fazenda da Pirapitinga era extremamente primitiva. Os únicos bens de consumo que provinham da civilização eram o sal e, eventualmente, algum maço de macarrão ou um saco de açúcar, quando os engenhos da fazenda não produziam açúcar mascavo suficiente. Ressalte-se que ali se produzia tudo o que a família necessitava para os padrões modestos da época: porcos eram engordados no chiqueiro, os pastos abrigavam bois e vacas suficientes para a produção de carne para o consumo, além do leite e dos conseqüentes queijos, requeijões e manteiga. O vasto quintal abrigava árvores frutíferas variadas, alternando em amadurecimento sazonal ou contínuo: eram frondosas mangueiras, jabuticabeiras, goiabeiras, laranjeiras, bananeiras, jambeiros etc. Arbustos menores constituíam a produção de limões, limas, marmelos, cajuzeiros, abóboras, gabirobas, cocos variados, mandioca, inhame etc. Conviviam no mesmo espaço aves variadas, tais como galinhas, angolas, patos, cuja produção de carne e ovos era também vital para a nutrição dos moradores. As lavouras proporcionavam feijão, arroz, milho, amendoim, etc. Nas pastagens naturais, algumas piores por serem campos com gramíneas mais pobres, mas outras mais ricas próximas a várzeas, geravam capins mais saborosos e nutritivos para alimentar o gado vacum.

Naquele dia, que seria talvez em julho de 1951, Sr. Antônio voltou-se para o filho menor, Felix, com seus seis anos, e lhe disse: “Olha, filho, amanhã vamos ao Vilarejo, e eu vou lhe mostrar um objeto maravilhoso, que só Deus pode ter criado! É uma coisa nunca vista! Você irá comigo em seu cavalinho manso!” O filho, em sua inocência brejeira, ficou a meditar o que poderia ser. De brinquedos ele apenas conhecia dois objetos que apreciava e que o pai, quando podia, trazia do Vilarejo: caminhãzinho de madeira e bolas de borracha.

Felix sonhou toda a noite com as coisas mais maravilhosas que permitiam sua pouca idade e o pouco tempo de aprendizado que tivera com um professor que percorria aquele longínquo meio rural, para alfabetizar os filhos de “matutos”.

No dia seguinte, como combinado, rumaram para o Vilarejo, percorrendo aqueles caminhos ínvios, sulcados dos dois lados pelas rodas dos carros de boi. Após mais de três horas, curtindo um sol ardente, apenas amainado pelas sombras amplas das árvores que cobriam as laterais da estrada, adentraram o Vilarejo. As ruas eram poeirentas, com casarões antigos, dotados de amplas varandas. Felix já conhecera ali, meses antes, uma maravilha que se constituía nos picolés de coco e nos sorvetes da Sorveteria do Sr. Mano.
Seu pai lhe falou: – filho, nós vamos ao armazém do Sr. Zé Rodrigues, pois lá tenho de comprar um saco de sal e alguns pacotes de macarrão. Lá você verá, continuou, uma nova maravilha!

Felix reavivou sua curiosidade e emoção com a informação. Atravessaram a praça central, chamada Largo pelos locais e pegaram, à esquerda, a Rua José Felix (era o nome de seu bisavô!). Os cavalos marcharam firme para uma casa ampla, a cerca de uns 500 metros. Era ali o armazém do Sr. Zé Rodrigues. Felix não continha em si, dentro de um misto de curiosidade, ânsia e emoção.

Sr. Antônio apeou do garboso cavalo alazão e ajudou o filho a descer de seu cavalinho.
– Espere um pouco aqui na porta, disse ele, vou chamar o Zé Rodrigues!

Pouco depois, veio o Zé Rodrigues, todo solícito, e disse ao menino Felix: – venha, você vai ver a coisa mais espetacular que existe no mundo! Tem uma caixa aqui, que fala, que canta, conta histórias, piadas! E apontou com o indicador para uma caixa de madeira, meio quadrada, que falava em voz alta. Felix foi acometido de um medo terrível, pior que aquele a que se referiam as tias acerca do demônio que, diziam, aparecia de vez em quando.

– venha ver de perto, disse Zé Rodrigues. Mas Felix se afastou ligeiro para a entrada do estabelecimento, ficando a contemplar, de longe, aquele objeto estranho. Ocorreu-lhe, então, uma história que o Professor narrara acerca de um monstro estranho que atacava as pessoas. Quando olhou de novo a caixa misteriosa, ela já estava cantando uma música sertaneja, que seu pai costumava tocar na viola.
Para piorar as coisas, Sr. Zé Rodrigues lhe disse que, dentro daquela caixa, havia pessoas e cantores diversos, em miniaturas, e que eles falavam de tudo, tocavam vários instrumentos, contavam histórias. Felix se recusou a entrar de novo, pois temia que aquele objeto estranho ou “monstro” pudesse atacá-lo. De nada valeram os conselhos e admoestações dos presentes. Felix se recusou a entrar de novo e, quando o pai completou suas compras, montou sozinho seu cavalinho e se afastou rápido com o pai.
Muito mais tarde, vim a saber, quando meu pai adquiriu um rádio semelhante, que aquele era um rádio Mullard, dos mais apreciados na época. Ainda vim a ouvir, com minha mãe, trechos da novela “Direito de Nascer”, que a Rádio Nacional do Rio de Janeiro transmitia. O monstro fora domado e era amigo!

*Sou aficionado pelo rádio, que, em várias circunstâncias, é mais interessante que a televisão. Não pretendo abandonar o costume de ouvir rádio e vejo com otimismo o advento do rádio digital, pois a qualidade das transmissões tenderá a melhorar. Uma das grandes dificuldades atuais, com o rádio analógico, é a sintonia de emissoras na faixa de AM, o que deixará de acontecer com o rádio digital.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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