O menino que traficava livros

Aristides Nepomuceno é um jornalista atento aos acontecimentos da sua cidade. Repórter há 23 anos, trabalha no jornal de maior circulação da cidade, onde escreve a coluna Gente. Há dois dias, ouviu boatos de que um menino traficava livros na região. Aristides queria uma matéria e conversou com as pessoas que já tinham visto o garoto. “Ele não tem pai nem mãe. Não trabalha, vive com esses livros em baixo do braço e sempre está com obras diferentes. Dizem que rouba das livrarias para vender a preços mais baixos na estação rodoviária. É um marginalzinho. Seu Antonio da banca o pegou roubando uma vez também. Depois a polícia veio, deram uma coça nele, mas não adiantou”.

 

“Não creio que leia os livros. Parece que só repassa mesmo, porque não fica muito tempo com eles e não pode ler tão rápido. Ele me roubou um livro certa vez. Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac. Uma raridade. Não é difícil achar o bandidinho. Ele é magricelo, carequinha, está sempre com os livros e anda apressado. É um fugitivo”.

A sede jornalística de Aristides aumentou depois da conversa com a gente da cidade. As senhoras, os comerciantes, os bons moços foram unânimes no julgamento: havia naquela cidade um marginal capaz de entrar imperceptível em bibliotecas, livrarias, sebos, bancas e furtar uma obra valiosa para depois vendê-la a preço de banana. Mas, se ele era bom criminoso, por que levava livros?

Na rodoviária. Segundo o relato de D. Candinha, o menino vendia os exemplares na estação rodoviária. Aristides pegou o gravador, a câmera fotográfica, um bloco para anotações e a sede de uma boa matéria moveu-o até a estação, possível habitat natural da sua fonte.

Os olhos do jornalista por pouco não saltaram do rosto ao ver o garoto cercado de livros. A abordagem não podia ser agressiva. Era necessário primeiro quebrar o gelo e, depois, tentar a entrevista e conquistar a matéria de capa do jornal do dia seguinte com uma bela foto do menino maltrapilho.

Aristides inventou que pretendia dar um livro de presente a uma amiga, que era jornalista e pediu ao garoto o que poderia agradar a moça. O menino conhecia bem seus produtos e apresentou-lhe as sugestões, dando aula de conhecimento e surpreendendo Aristides como era comum com todos os clientes.

“Tenho um conjunto que chamo de boas histórias de vida. Três biografados e três biografistas. O primeiro é uma obra sobre Getúlio Vargas. É o primeiro volume de uma trilogia. Se a sua amiga for uma jornalista séria e pretende ser competente ela precisa entender um pouco de história e conhecer as transformações que o pai dos pobres fez no Brasil. Ela vai se deliciar com a escrita objetiva de Lira Neto, o biografista. O biografado gaúcho tem uma história riquíssima: esse livro fala da infância, dos anos que frequentou o curso de direito, da entrada na vida política, cita a famosa desavença entre ximangos e maragatos que ocorreu no Rio Grande do Sul, e termina no começo do governo provisório, em 1930. Tua amiga vai conhecer um dos políticos mais habilidosos que esse país já viu. E ela vai querer comprar os próximos volumes, aliás, diga a ela que venha comprar comigo que faço um bom preço”.

“O segundo livro, a sua amiga tem a obrigação de ler. Chatô o Rei do Brasil conta a história de Assis Chateaubriand, considerado um crápula, escroque, patife, estuprador, pelo próprio biografista, o também jornalista Fernando Moraes. Chatô saiu da pobreza do nordeste para ser uma das figuras mais influentes do país à sua época. Presidente nenhum queria se eleger sem o apoio dos Diários e Emissoras Associados, a cadeia de jornais que ele criou. Chatô determinava as regras até para os industriais da época e atirava nos culhões de quem não aceitasse suas opiniões, ou imposições. Seus artigos funcionavam como uma navalha a dilacerar seus opositores. Os feitos não são estritamente jornalísticos, ele criou o MASP, foi imortal da Academia Brasileira de Letras e foi senador. Sua amiga não precisa inspirar-se nas traquinagens de Chateaubriand para ser boa jornalista, mas ela precisa saber quem foi ele na história do nosso país, manobrando sua cadeia de rádios, jornais e de televisão”.

“Por último, O cavaleiro da esperança, Luis Carlos Prestes, o terceiro biografado. O autor do livro é Jorge Amado. Que enredo esse sobre o Prestes! Jorge Amado bem disse, era sua obrigação como escritor contar a história do herói do povo. Prestes é dono de uma nobreza reconhecida e assimilada pelos soldados que comandou nas suas revoluções. A Coluna Prestes é o símbolo da valentia desse homem que desde cedo ele mostrou ser. Prestes é o Brasil. É o povo. É a dignidade. Tua amiga tem ainda um outro motivo pra ler essas três publicações. Prestes, Chateaubriand e Getúlio são contemporâneos e influenciaram a vida um do outro. Eles são personagens de um tempo passado que deve constar na memória de todos os brasileiros. Eu não sei se a sua amiga é brasileira, mas sei que ela é jornalista e como escolheu esse ofício é sua obrigação vasculhar esses arquivos da história”.

Aristides desistiu da matéria de capa. Desistiu de qualquer matéria. Perguntou o preço dos livros, pagou, deixou o garoto ali e saiu. O jornalista preferiu não mudar o curso das coisas. Se o garoto fosse exposto em qualquer jornal, ele não entraria em sebo, em livraria nenhuma sem ser reconhecido e o tráfico de livros seria apenas história de jornal.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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