O morro musical

Sem ter sido convidado, e sem sair da cidade, conheci, neste fim de semana, o morro da Mangueira. Não que tivesse essa ambição, mas certa vez, com Aldírio Simões, surgiu uma conversa sobre tal possibilidade, quem sabe uma visita ao Rio, uma volta pelas quadras das escolas de samba, onde ele circulava com desenvoltura, amigo de gente do carnaval, de compositores e jornalistas familiarizados com os segredos da folia e seus protagonistas. A viagem nunca saiu, mas no sábado, vendo “O samba que mora em mim”, tive uma noção do que é o morro mais célebre da capital fluminense. 

O documentário de Geórgia Guerra-Peixe é despojado, despretensioso, e não se propõe a endeusar personagens que a mídia costuma reverenciar. Cartola, por exemplo, nem é citado. As estrelas são figuras comuns, assalariados, pessoas que convivem sem pejo com a segregação que separa a favela do mundo, do glamour da Zona Sul, da Marquês de Sapucaí.

Os personagens do filme falam a linguagem do morro, e são gente como a gente, que tem um aparelho de tevê por aposento, faz “gatos” com luz e água, trai o marido ou a mulher, se rende aos modismos e à cultura de massa. Foi dessa forma que a comunidade permaneceu no imaginário da cineasta, cujo pai foi diretor da Mangueira, mas que nunca morou ali e nem tinha desfilado numa escola de samba.

A câmera sobe as escadas, desce as ladeiras, invade a privacidade alheia e revela figuras impagáveis, como Vó Lucíola, chamada por todos de Vovó, com mais de 100 anos, filha de ex-escravos, que não perdeu aquela pontinha de humor que está em todas as falas e frases ditas pelos cariocas.

Também há apenas referências sutis à violência, ao tráfico, à bandidagem que dá as cartas nos morros do Rio. E, surpresa, não existe passarela, com seu requinte e a sofisticação feita para turistas. Os ensaios, a preparação das fantasias, os bailes, tudo se passa na quadra da escola, dentro dos barracos, nos bares e clubes onde o funk, hoje tão forte quanto o samba, leva multidões a chacoalharem madrugada adentro.

Há um cuidado com a emoção de cada depoimento, de cada olhar, de cada reminiscência. E mesmo com as armadilhas que espreitam a tradição em cada esquina, o samba está ali, vivo, nos passos ainda tímidos das crianças que já nascem gingando e batendo num tambor.

Mesmo quem é doente dos pés se enternece com a felicidade desarmada daquela gente que vive num plano à parte, alheia ao barulho da metrópole e de seus trens ruidosos. Não é preciso sair, porque o céu é ali mesmo.

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