O mundo encantado do disco – 2

Heber de Boscoli, saudosista por excelência, teve sua carreira sempre revestida de muito carinho e amizades por parte dos que o ouviam, extasiados, com suas raras joias musicais do passado. Ele era sobrinho-neto da legendária pianista e compositora do passado, Chiquinha Gonzaga, a quem se atribui, inclusive, a composição da primeira música com  a designação de “tango”, inspirada, presumo, no ritmo quente dos tambores indígenas dos primeiros habitantes das margens do Rio da Prata (que divide Buenos Aires de Montevideo): o tangó. (No podcast Suspiro, tango de Chiquinha Gonzaga. Interpretação do pianista Alxandre Dias, em cerimônia em homenagem a Chiquinha na embaixada de Portugal em Brasilia, em 2009).

Heber teve audiências dignas de nota, como a da portuguesa (naturalizada brasileira), Carmen Miranda. Tendo começado em 1937, na antiga Rádio Cruzeiro do Sul do Rio de Janeiro (depois Tamoyo), no ano de 1937.

Especializou-se em gravações brasileiras do início do século, com as quais deleitava seus ouvintes, até a madrugada, pois iniciava seu programa “Museu de Cera”,  exatamente à meia noite. Romantismo total, em contraposição à Rádio Tupi que, no mesmo horário (meia-noite), apresentava “Incrível, fantástico, extraordinário”, uma produção de Thalma de Oliveira com temas fantasmagóricos de arrepiar os cabelos.

Assim abria Boscoli seu programa: “Boa noite, amigos! Estão abertas as pesadas portas do nosso Museu de Cera… Vamos trocar momentos de sono por minutos de saudade…

Fui um dos ouvintes de Heber nos primórdios da minha carreira, muito jovem ainda.   Ali começava meu encanto pelas joias musicais de tempos idos, lembranças das histórias de compositores, músicos e músicas de um passado, para a época, muito distante. Imaginem agora a distância dos anos 1940, até 2012! No mínimo há 63 anos, quando eu “sentia” uma rádio por dentro e dela participava aos 14,5 anos de idade.

As primeiras composições gravadas que estamos aqui focalizando, vêm de mais de 110 anos (1900/1902). A memória da Casa Edison ficou tão indelével como o sulco de suas gravações, especialmente para a camada saudosista que admira a radiofonografia.

Apareceu em nosso primeiro trabalho da série “O mundo encantado do disco”, um selo daquele que se atribui como sendo o primeiro samba gravado no Brasil: “Pelo telefone”, com o cantor Bahiano. Está com selo da Odeon, quando o original tinha o selo da Casa Edison, evidentemente. É que em 1911, Fred Figner, fundador e proprietário da Casa Edison, do Rio de Janeiro, cujas aberturas das gravações eram anunciadas por um sobrinho seu, associou-se à Odeon, pertencente ao que hoje chamaríamos de conglomerado ou grupo holandês de nome Transoceanic, que em Vila Isabel, com cerca de 500 funcionários  produzia a edição de mais de 30 mil chapas (discos) por mês. Somente Estados Unidos e Alemanha batiam o Brasil em produção fonográfica. Bem de vida, Figner montou uma imensa loja de varejo do mercado especializado, desde a gravação até a venda direta ao consumidor final.

Voltando à fundação da casa Edison, destacamos uma nota veiculada pelo tradicional “Correio da Manhã”, de 05 de agosto de 1902: “A maior novidade da época chegou para a Casa Edison, Rua do Ouvidor, 107. As chapas (records) para gramophones e zonophones, com modinhas nacionais cantadas pelo popularíssimo Bahiano e pelo apreciado Cadete, com  acompanhamento de violão, e as melhores “polkas”,  “shottisch”, “maxixes” executados pela Banda do Corpo de Bombeiros do Rio, sob a regência do maestro Anacleto de Medeiros”.

A chamada fase mecânica das gravações girou entre os anos de 1902 e 1927, com lançamento de mais de 7.000 discos (mais de 3.500 da Casa Edison).

Chiquinha Gonzaga

Das primeiras gravações editadas faziam parte astros da época como Bahiano, Mário Pinheiro, Nozinho, K.D.T. (Cadete), seguidos de Patapio Silva, Ernesto Nazareth, Banda da Casa Edison, com ênfase para o Grupo Chiquinha Gonzaga que, além de pianista que era, compunha primorosamente e já ocupava lugar de destaque como arranjadora. Posteriormente vamos, não somente anunciar aqui, mas ouvir também, o que se considera o primeiro tango composto (de Chiquinha Gonzaga): SOSPIRO… Tenho essa relíquia em minha coleção

Chiquinha foi primorosamente educada na música clássica por seus pais, mas mostrou sempre a propensão de mostrar o que fazia e onde gostava. Assim que era por vezes criticada por frequentar e tocar em bares e ambientes (à época) considerados não muito dignos de uma dama…

“Vésperas do primeiro desfile oficial das escolas de samba do Rio de Janeiro, em 28 de fevereiro de 1935, no céu os anjos abriam alas para Chiquinha Gonzaga, a primeira maestrina do Brasil”. (Chiquinha Gonzaga.com)

5 respostas
  1. Agilmar says:

    Deve ter havido um cochilo da editoria (coisa que (sem qualquer intenção) acontece desde que se conhece a comunicação. No original consta o programa de Thalma de Oliveira como tendo sido por ele produzido na Rádio Record (SP), onde parmaneceu por quize anos e foi sua segunda emissora, depois de 1944. Chegou a ser diretor-artístico daquela emissora.

    Tenho uma próodiga memória e jamais esqueceria os tempos em que ouvia seu programa, até porque o que nos ocorre na infância e juventude, jamais olvidamos.
    Asim que, para confirmar, transcrevo (ipsis liters) trecho de sua biografia que está no Museu Histórico Nacional:

    “Sua carreira artística teve início na Rádio São Paulo, em 1º de abril de 1944. Logo conseguiu um bom salário, mesmo sendo principiante, pois tinha a função de programador. Da Rádio São Paulo logo passou para a Rádio Record, que também fazia parte da Rede de Emissoras Unidas, da família Paulo Machado de Carvalho. Na Record ficou por 15 anos consecutivos, e onde escreveu os mais diversos tipos de programas. O mais importante deles foi: “O Crime não Compensa”,que foi iniciado por Oswaldo Moles e continuado por Thalma e que fez enorme sucesso. Nessa série ele incluiu a biografia de Virgulino Ferreira, o Lampíão. Para isso , Thalma fez várias viagens ao nordeste, afim de retratar fielmente a vida do cangaceiro. Thalma também escreveu”O Teatro do Outro Mundo”,versando sobre assuntos sobrenaturais.Thalma de Oliveira chegou a diretor artístico da Rádio Record, quando levou a emissora à posição de prestígio, que havia perdido.”

  2. Antunes Severo says:

    Mea culpa, Agilmar. Misturei as histórias do Almirante (do Incrível, Fantástico, Extraordinário) com o incrível, fantástico, extraordinário Thalma de Oliveira do Teatro do Outro Mundo. Coisas da vida… Abraço e grato pela compreensão.

  3. Agilmar says:

    Deve ter havido um cochilo da editoria coisa que (sem qualquer intenção) acontece desde que se conhece a comunicação. No original meu consta o programa de Thalma de Oliveira como tendo sido por ele produzido na Rádio Record (SP), onde parmaneceu por quize anos e foi sua segunda emissora, depois de 1944. Chegou a ser diretor-artístico daquela emissora.

    Tenho uma próodiga memória e jamais esqueceria os tempos em que ouvia seu programa, até porque o que nos ocorre na infância e juventude, jamais olvidamos.
    Assim que, para confirmar, transcrevo (ipsis liters) trecho de sua biografia, que está no Museu Histórico Nacional:

    “Sua carreira artística teve início na Rádio São Paulo, em 1º de abril de 1944. Logo conseguiu um bom salário, mesmo sendo principiante, pois tinha a função de programador. Da Rádio São Paulo logo passou para a Rádio Record, que também fazia parte da Rede de Emissoras Unidas, da família Paulo Machado de Carvalho. Na Record ficou por 15 anos consecutivos, e onde escreveu os mais diversos tipos de programas. O mais importante deles foi: “O Crime não Compensa”,que foi iniciado por Oswaldo Moles e continuado por Thalma e que fez enorme sucesso. Nessa série ele incluiu a biografia de Virgulino Ferreira, o Lampíão. Para isso , Thalma fez várias viagens ao nordeste, afim de retratar fielmente a vida do cangaceiro. Thalma também escreveu”O Teatro do Outro Mundo”,versando sobre assuntos sobrenaturais.Thalma de Oliveira chegou a diretor artístico da Rádio Record, quando levou a emissora à posição de prestígio, que havia perdido.”

  4. Agilmar says:

    Caro Severo: como dixem os jovens de hoje (será que ainda está em moda???):
    “NÃO ESQUENTA”… Só que, como ainda não tinha sido moderada a minha mensagem anterior, tentei banir cettas trocas de letras (decuidos de quem ainda está dormindo…) que cometi na primeira e acabei publicando-a outra vez.

    Um abração matinal (e dominical) pampeiro carimbado e catarinense reconhecido…
    Agilmar

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