O nascimento da Televisão do Paraná – 5

Eu já tivera uma experiência anterior na área técnica do rádio e tinha grande paixão pela eletrônica. Por isso, passei a acompanhar, mesmo de forma superficial, a montagem do equipamento trazido a Curitiba por Nagibe Chede.  Até então, porém, não passava de pura curiosidade.

Durante os trabalhos e enquanto se aguardava as peças faltantes, no local só permaneciam o João Graff Schreiben, que operava a improvisada câmera de filmes, e o Olavo Bastos.

Quando as instalações, já estavam praticamente concluídas, o Dr. Nagibe não suportou mais a ansiedade de ver a transmissão de um programa e determinou que se fizesse qualquer emissão de imagens do estúdio, captadas pelas novas câmeras aptas para entrar em operação.

As dificuldades ainda eram enormes e não se contava com ninguém preparado para a operação, mas tratou-se de atender a vontade do chefe. Um esboço de programa foi produzido e montado pelo Romualdo Ousaluk, que era produtor da Rádio Emissora e um dos mais festejados criadores do rádio curitibano. Era uma apresentação lírica, tendo como atração principal a impecável soprano paranaense Claudete Rufino, que seria acompanhada ao piano pelo não menos aplaudido maestro Athaíde Zeike.

O detalhe importante da história é que, sem o transmissor definitivo, a transmissão teria que ser feita pelo aparelho do Olavo, que só transmitia imagem. Mas como fazer uma audição musical e do nível da projetada, sem som? Aí entrou em cena o processo de criatividade que acabaria sendo uma exaustiva constante em todo o processo de implantação da televisão no Paraná. Convencionou-se que seriam avisadas as pessoas que já possuíam aparelho televisor e que elas deveriam captar a imagem através do canal 7 e o som utilizando um radio receptor, na freqüência da Rádio Curitibana (640 kHz). Quer dizer: imagem pelo televisor e som pelo rádio, imaginem só!

Solucionada a forma de transmissão, foi preparado um set bem decorado para a Claudete Rufino, com um piano de meia cauda. Afinal, aquele seria o primeiro programa realmente produzido para a emissora que estava sendo montada e com sua fase experimental por ser iniciada. Mas ainda não contávamos com nenhum operador nem iluminador. Somente com o Olavo Bastos, que, por ser engenheiro técnico e o único com conhecimento, podia operar as câmeras, e com o João Schreiben, que operava o telecine, meio de manter a imagem em teste todos os dias.

Mesmo assim, tudo foi devidamente preparado. Percebeu-se, então, a necessidade de mais uma pessoa, um diretor de TV, para comutar aas câmeras e controlar o vídeo. O Dr. Nagibe determinou que, para tal função, fosse chamado o Azor Silva, uma excelente pessoa e grande amigo, que, entre outras atividades, era um competente e de muito bom gosto sonoplasta da Rádio Emissora Paranaense. Nagibe achava que havia familiaridade entre as funções e que Azor não teria dificuldades para adaptar-se à nova tarefa. Aconteceu, porém, que, poucas horas antes do horário previsto para a apresentação do programa, alguém da família do Azor comunicou que, por motivo de força maior, ele não poderia comparecer. Quer dizer, não seria possível fazer nenhum movimento no estúdio.

Nagibe ficou inconsolável. Tudo iria por água abaixo, seria um fracasso retumbante. E ele já havia avisado uma porção de gente para assistir o programa. Até receberia em casa um número significativo de amigos para comemorar o evento.

Foi quando, já desesperado, ele me ligou na rádio. Pediu-me encarecidamente para que eu fosse ao estúdio da TV, auxiliar o Olavo no possível. Naquela época, eu era diretor artístico das rádios Emissora e Curitibana, e também possuía boa experiência nos setores técnicos do rádio e, em especial, na atividade de sonoplastia, alem de ter acompanhado a instalação dos equipamentos da TV, o que me permitiria, na opinião de Nagibe, absorver rapidamente a nova forma operacional.

As emissoras de rádio tinham os seus estúdios na Rua Senador Alencar Guimarães, a poucas quadras do Edifício Tijucas, onde estava a televisão. Para lá me dirigi imediatamente. As câmeras já estavam ligadas, e o Olavo, sabendo que eu não teria nenhuma condição imediata de operá-las, levou-me ao switch, que era onde eu deveria ficar. Minha função seria colocar no ar as imagens que fossem sendo geradas por cada uma das câmeras. Deveria, também, proceder ao ajuste do vídeo, que se altera em razão dos movimentos, pela diferença de luz.

Após informar-me, de modo geral, como levar ao ar as imagens, como acionar os novos projetores, etc. e tal, ele me explicou a maneira como seria conduzido o programa. Em seguida, contou-me como operaria, sozinho, as duas câmeras: faria a tomada com uma delas e a fixaria. Eu, então, colocaria a imagem no ar. Ele movimentaria a outra, e eu colocaria a imagem no ar. E assim sucessivamente. Poucas horas nos separavam do início do programa, mas foi o suficiente para que assimilássemos o que nos caberia fazer naquele momento.  Para operar a mesa de som, fora designado o Eurico Beraldo, que havia passado a tarde treinando. No momento do programa, o João Schreiben faria a função de boom-man, ou seja, seria o responsável pela movimentação do microfone. Mais alguns minutos de observação, todos respiramos fundo e, finalmente, o programa foi iniciado.

Postado impecavelmente para a apresentação daquela que seria a primeira atração da fase pré-experimental da TV do Paraná, estava lá o Elon Garcia, grande figura e uma das melhores vozes do rádio paranaense.

Iniciado o programa, coloquei no ar a imagem do Elon, que explicou como estava se desenvolvendo a instalação da emissora e, em seguida, anunciou a primeira participação da Claudete. Coloquei no vídeo a imagem dos primeiros acordes do piano; posteriormente, as imagens da Claudete. E assim foram sendo movimentadas as câmeras pelo Olavo, que fazia a troca de lentes, desdobrando-se para operar ambas as câmeras, com movimentos e tomadas de cena. Eu, de minha parte, vivia momentos de ansiedade e apreensão para cumprir a tarefa que me fora confiada na última hora. Mas, apesar de estar com os nervos à flor da pele, tudo transcorria perfeitamente.

Em um determinado momento, porém, ao passar de uma câmera para outra, acabei colocando no ar as duas câmeras simultaneamente e o resultado, inesperado, foi a fusão das duas imagens. Foi o meu primeiro erro, gerado pelo nervosismo, já que eu jamais havia visto uma emissora de televisão em funcionamento. Corrigi a falha e continuei sem que nenhuma outra, felizmente, ocorresse até o final. Mal sabia eu que o “erro” que havia cometido se converteu, na verdade, num efeito especial que agradou muito o Dr. Nagibe.

– Renato, você fez coisas belíssimas – disse-me ele depois, cheio de entusiasmo. “A partir de agora, quero que você vá todas as noites para a televisão. Das emissoras de rádio você toma conta de manhã e um pouco à tarde, até definirmos quem poderá substituí-lo. Esqueça das rádios, se precisar. Lá na televisão é que será seu lugar definitivo”.

Aceitei a determinação e comecei a dedicar-me exclusivamente às novas tarefas. Ou melhor, procurei entender como é que deveria funcionar realmente a tal televisão. Assim, todos os dias, a partir das 15h, eu chegava aos estúdios, ligava os equipamentos e tentava descobrir os comos e porquês. Queria saber qual a razão de três lentes em cada câmera, qual o efeito que cada uma delas produzia, quando e por que deveriam ser usadas, o que acontecia com o uso de cada uma, como poderia ser a movimentação, como fazer a aproximação com suavidade de movimentos, qual a altura ideal da câmera, o que isso poderia representar em relação ao objeto focalizado, como funcionava o controle de vídeo, quais os recursos que se podia extrair dele, qual a utilidade dos potenciômetros, que efeitos eu poderia conseguir, etc.

Na época, o cinema era o principal veículo de diversão e arte que existia. Por isso, tinha toda a minha atenção e eu procurava conhecê-lo máximo possível. Para conseguir esse intento, normalmente assistia a cada filme pelo menos duas vezes. A primeira para conhecer a história e a segunda para observar os aspectos técnicos da produção. O mesmo interesse existia em relação á fotografia. Em função disso, passei a tentar repetir o que acontecia nos filmes com movimentos das câmeras de TV. Foi aí que comecei efetivamente a dominar o assunto. Pela similaridade. Colocava um objeto num pedestal e realizava um tipo de movimentação com a câmera diante dele: aproximação, afastamento, travelling para a esquerda e para a direita, chicote, sempre anotando os efeitos que poderia obter deslocando a torre das lentes da posição normal, juntando duas imagens ou fazendo fusão de imagens. Naquela época, só existiam os recursos de conectar as câmeras com corte seco, pois a mesa de corte não dispunha de alavancas para a fusão de imagens. Eu tentava avaliar como poderia aproveitar os recursos que descobria.

O passo seguinte foi conhecer os efeitos da iluminação, a quantidade de luzes a usar em cada situação, o uso de panelões, o uso dos spots e tudo mais. Na época, eu me dedicava a ensaios de fotografia e a iluminação fazia parte do contexto, com similaridade com o cinema. Isto me permitiu que, aos poucos, fosse sentindo o que também poderia realizar, aproximando-me dos resultados que estava acostumado a ver nos filmes. A grande diferença era que os filmes, por suas características, não tinham a necessidade de muita luz, o que não acontecia com a televisão, uma vez que a sensibilidade do vidicom (o olho das câmeras) era bem menor do que a das películas cinematográficas. Conseqüentemente, maior deveria ser a carga de iluminação.

Para atingir a condição ideal era necessária a utilização de vários panelões de luz em cada elemento a ser mostrado. Graças a isso, os 1000 watts de potência de cada um dos panelões transformavam o estúdio numa verdadeira fornalha, em qualquer época do ano. Com o agravante de que o pé-direito da sala era o de um apartamento comum, com menos de três metros de altura, nada próprio para um estúdio de televisão. E não podíamos utilizar ventiladores porque eles interfeririam nos cenários, normalmente integrados de tapadeiras montadas sobre uma armação de madeira revestida de tecido. Além disso, qualquer movimento extra poderia afetar também as pessoas e, sobretudo o penteado destas.

Nem mesmo ar condicionado podia ser usado porque os que existiam na época produziam um forte ruído, que atingia a captação do som, já que naquela época nem se cogitava do uso de microfone de lapela. Normalmente, era um único microfone, de grande sensibilidade e de captação direcional, instalado num pedestal articulável em todos os sentidos, chamado de “girafa” ou boom, que era comandado por um operador especialmente treinado para a função (o boom-man), que conduzia todos os movimentos, com a devida rapidez, para o acompanhamento da cena. Trabalhávamos também com um microfone super direcional, chamado canhão.

Os demais equipamentos foram sendo gradativamente instalados. Quando faltava pouco tempo para entrarmos em definitivo na fase experimental e eu já dominava razoavelmente bem o setor de câmeras, iluminação, som e controle de vídeo, passei a interessar-me pela área de projeção, procurando entender como poderia o equipamento ser bem operado, posto que, com toda a certeza, seria o mais solicitado durante a programação. Já era possível antever que os filmes ocupariam quase a totalidade do horário da programação. Além disso, deveríamos ter os filmes comerciais, com diversos tempos de duração, ou seja, dez, quinze, trinta, quarenta e cinco e sessenta segundos, o que exigiria agilidade dos operadores durante os intervalos comerciais.

Aprendi como fazer para carregar rapidamente o projetor, sem que isso fosse afetado pela limitação do tempo. Quando familiarizado com essa função, o operador de telecine conseguia carregar um projetor, apesar de seu complicado circuito, em apenas quatro segundos, marca apenas conseguida em Curitiba pela TV Paranaense. Nas demais emissoras, cada anunciante seria obrigado a fornecer tantas cópias de filmes quantas inserções teria por dia. Os filmes eram, então, montados num só rolo e disparados em cada intervalo, enquanto que no canal 12 nós carregávamos individualmente cada comercial nos intervalos.  Portanto, apesar das nossas dificuldades, executávamos uma operação muito mais difícil, em menor tempo e com menor exigência de cópia dos comerciais filmados.

Toda essa odisséia inicial acabou por transformar-me no primeiro diretor de TV do Paraná. Decidimos, então, formar a primeira equipe técnica da futura emissora. Convocamos vários jovens para selecionar aqueles que apresentassem melhor perfil para a nova profissão.

Nessa ocasião, conheci Silas de Paula Assis, que era gerente noturno de um hotel de Curitiba e tinha alguma noção de televisão por ter morado em São Paulo. Convidado a integrar o nosso time durante o dia, ele completou o treinamento para a operação de câmeras do porte das nossas e assimilou outros conhecimentos a partir do que eu havia aprendido em minhas pesquisas para, juntos, formarmos os novos operadores de estúdio.

Silas dava o acompanhamento na movimentação câmeras e eu treinava os enquadramentos de cada tipo de programa. E assim formamos a primeira equipe, ensinando a ela o que havíamos aprendido.

1 responder
  1. Simone Kyomi Yamamoto Assis says:

    Bom Dia Srº Reanto Mazanek,

    É com muita Felicidade que assisti a reportagem do Srº na RPC em comemoração aos 50 anos de história da RPC onde tive a satisfação de ver o meu Pai em foto e Videos e recordar essa pessoa linda que ele era…sou filha do Sylas de Paula Assis e gostaria muito de fazer contato com o Senhor, pois gostaria muito de ver fotos do meu Pai se possível é claro e mostrar algumas das quais ele tinha…

    Peço com muito carinho seu retorno,
    Simone K. Y. Assis

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