O nascimento da televisão no Paraná – 13

Os primeiros meses após a inauguração foram os de maiores dificuldades. Saídos de uma fase experimental relativamente cômoda, passamos a encontrar, a cada dia, um crescente volume de novas exigências, principalmente pelo interesse que a novidade passou a gerar nos anunciantes.

Primeira câmera da TV Paranaense, Canal 12

Primeira câmera da TV Paranaense, Canal 12

Na época contávamos apenas com duas câmeras para todas as operações de estúdio, o que levava, quase sempre, a impasses. Isso porque, em cada intervalo, eram apresentados, em média, de seis a oito comerciais ao vivo. Cada um deles exigia o uso das duas câmeras, pois era preciso mostrar a anunciadora, os detalhes do produto que estava sendo apresentado, o preço e o endereço do anunciante, que constavam de uma arte desenhada em papel afixada em um painel. Isso era repetido tantas vezes quantos fossem os comerciais do intervalo. Na sequência, as câmeras teriam que mostrar o relógio com a hora certa, as artes com as chamadas dos programas, as artes dos comerciais que não foram possíveis de serem transformados em slides, as informações de abertura do programa seguinte, os créditos e toda a inserção de texto sobre as imagens. Uma loucura! E tudo deveria ser feito de forma impecável e rapidíssima movimentação. Depois, a cada dia, tudo era repetido, em proporção geométrica.

Indignado com aquela aflição diária obrigatória, motivada principalmente pela falta de equipamentos adequados, resolvi procurar novas soluções, já que a situação estava se tornando insustentável. Lembrei-me de que, quando estive na TV Record, conheci um equipamento de grande dimensão (cerca de 3,00 m x 2,00 m) denominado gray tellop, que era utilizado na captação de opacos, ou seja, artes com textos e / ou imagens produzidas em cartões de 120 x 90 mm, destinados a abertura e encerramento de programas e outros tipos de informação, que seriam, depois, descartados e evitavam a produção de slides. Esse equipamento ainda permitia a fusão de imagens entre cartões, possibilitando a realização de vários comerciais com apenas um recurso, sobretudo nas ofertas do dia, que eram substituídas diariamente.

Sabendo de antemão, porém, que não dispúnhamos de capital para a aquisição de tal aparelho, certo dia decidi que iria construir uma máquina semelhante. Depois de algum estudo, pareceu-me encontrar a solução. Esbocei um projeto de como poderiam ser captadas as imagens, quais os materiais necessários, e coloquei mãos à obra. Inicialmente pensei realizar a estrutura de metal, mas isso levaria a um custo muito elevado. Fiz, então, estudos com outros materiais e varias posições dos espelhos que seriam necessários, até conseguir uma imagem possível de ser captada, e ainda encurtar o tamanho do equipamento. Pois não hão de ver que acabei construindo um móvel, cuja estrutura era toda e madeira e, ainda apor cima, num tamanho bem reduzido (120 cm x 100 cm x 35 cm), bem menor até que aquele que eu havia conhecido em São Paulo!

Consegui ainda uma boa posição de iluminação fixa, mas esbarrei numa dificuldade: o uso dos espelhos que transportavam as imagens refletidas. Quando chegavam à câmera ali fixada, as imagens se tornavam invertidas e, para a correção dessa situação, não havia como utilizar nenhum outro espelho. Imaginei, então que a solução poderia estar na alteração da câmera. Mas, a câmera que seria instalada no equipamento, era uma das primeiras RCA TV EYE, sem wiew finder, e, para essa condição, precisaria sofrer modificações que somente poderiam ser feitas no departamento técnico.

O responsável técnico era o Olavo Bastos, um profissional de excepcional qualidade, totalmente autodidata, com uma fisionomia sempre sisuda, própria de um gênio que esconde toda a sua genialidade.

Não era dado a conversas fúteis e não lhe agradava interromper o que estivesse fazendo por um motivo qualquer. Para ressaltar o talento dele é oportuno dizer que foi no período em que dirigiu o Canal 12 que ele desenvolveu a primeira bateria eletrônica, constituída por um conjunto complicado, e que seria a precursora do circuito integrado aparecido no mercado somente anos depois.

Era uma estrutura de tamanho avantajado para acomodar as válvulas necessárias. Por isso, tudo o que o Olavo ganhava com o salário investia em seu invento, que lhe consumiu também as economias. Com esse equipamento ele desenvolveu a primeira caneta digital, feita para escrever diretamente sobre o vídeo, que ainda nem existia em São Paulo ou no Rio de Janeiro, cidades que se encontravam pelo menos uns 10 anos a nossa frente. E o pior é que os direitos sobre essas invenções acabaram sendo cedidos por um valor insignificante para uma indústria internacional.

Para completar o meu projeto, aproximei-me do Olavo com muita sutileza, por conhecer bem o temperamento dele. Com muito tato, perguntei-lhe se seria possível fazer a inversão da imagem, observando que era a única coisa que faltava para que eu terminasse a máquina. Com o seu jeito peculiar, ele não respondeu nem sim nem não. Disse-me apenas, com displicência, que era difícil e que tinha outros trabalhos mais urgentes e prioritários para fazer.

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Por Renato Mazânek

Operador de som, sonoplasta, locutor, e escritor. Participou da fundação da Rádio Ouro Verde de Curitiba e dirigiu as rádios Curitibana, Emissora Paranaense, Guairacá, Clube e Itaguaçu. Fundou e dirige a agência de publicidade Teorema. É autor do livro Ao vivo e sem cores – o nascimento da televisão do Paraná.
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2 respostas
  1. gabrielladourado says:

    comecei na rádio como recepsionista . depois fui para locução logo logo.eu já achava minha voz muito romantica foi facil .trabalho na rádio mania fm bela vista de goiás .87,9.tenho muitos ouvintes

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