O NÁUFRAGO

O nome dele é José Carlos e o sobrenome, que herdou  dos avós germânicos, é difícil de escrever, pronunciar e lembrar. Nem os melhores locutores se arriscavam a falar quanto mais dizer ao microfone. Ficou conhecido como Alemão. Fotógrafo profissional dos mais competentes do país, teve dezenas de seus trabalhos publicados em grandes revistas de circulação nacional.
Por Jamur Júnior

Quando chamado de “Alemão” costuma brincar; “sou um legitimo índio Borrrrorrrró”, dizia acentuando o erre gutural , muito popular na October Fest.
Alegre, espirituoso e divertido, cultiva suas paixões com dedicação quase religiosa. Ama sua profissão, não larga da máquina fotográfica um instante.  Sua segunda paixão é o ciclismo, esporte que praticou na juventude e manteve durante grande parte da vida adulta até atingir a terceira idade.
Foi campeão brasileiro de ciclismo, competiu fora do pais com excelentes resultados. Fora da bicicleta adora uma boa pescaria. Muitas vezes saiu de Curitiba para Barra Velha em Santa Catarina, pedalando sua bicicleta e levando na mochila  seus apetrechos de pesca e um radinho de pilha.
Quando pode viaja mais de mil e quinhentos quilômetros até o Mato Grosso do Sul, com o amigo Nelson para pescar dourados, pacus e pintados no Rio Cochin. Sempre conservou excelente forma física, mantida graças às pedaladas diárias pelas ruas de sua cidades e as rodovias próximas.  Apesar do bom condicionamento físico tinha medo da água  quando embarcava para suas pescarias nos rios e baias. Era um  receio plenamente justificado pelo fato  de ser um atleta terrestre que nunca aprendeu a nadar.
– Olha, Nelson, toma cuidado para esse barco não virar, costumava dizer ao companheiro de pescaria.
Numa de suas passagens pelos rios mato-grossenses, aconteceu o que poderia ter sido uma tragédia. Contrataram um “piloteiro” meio afoito e acabaram naufragando.
Quando caiu do pequeno barco  pensou na morte, na  família, nos amigos e na vida alegre que vivia. Em poucos segundos passaram dezenas de pensamentos por sua cabeça. No momento de grande desespero entendeu que tinha que lutar por sua vida e que toda hora é hora de se aprender alguma coisa. Foi o que fez.
Com um colete de pescador lotado de anzóis, bóias, linhas e canivete, que dificultavam seus movimentos, começou a bater os braços de qualquer maneira para não afundar. Com tanta agitação e no desespero para se salvar, perdeu de vista o companheiro de pescaria. Depois de quinze minutos batendo braços e pernas, exausto e já pronto para entregar a alma aos céus, parou e viu ao seu lado o amigo em pé com a água pela cintura. Nelson com braços cruzados  ria do desespero do Alemão que só então entendeu que o barco havia virado na parte mais baixa do rio.

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Por Jamur Júnior

Radialista e jornalista e foi apresentador noticiarista de rádio e televisão em emissoras de Curitiba e Florianópolis. É autor dos livros Pequena História de Grandes Talentos contando os primeiros passos da TV no Paraná e Sintonia Fina – histórias do Rádio. Jamur foi um dos precursores do telejornalismo em Curitiba.
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