O número certo

Não era novidade para os amigos de Arnaldo que grande parte de seus problemas eram os jogos.

Não os jogos de futebol e demais esportes; seu problema era a quantidade de dinheiro que perdia em jogos de baralho e até em corridas de cavalos. Aliás, muitas vezes apostava o dinheiro que não tinha; aí até o casamento desmorona. Um homem trabalhador, educado e bom companheiro, daqueles que a família e amigos costumam dizer: “Se não fosse por esse vício seria um cara nota 10”.

Numa tarde de quarta-feira, Arnaldo chega à barbearia de Otávio. O Barbeiro e os demais amigos se reúnem para saber como o amigo está. Afinal de contas, fazia 4 meses que ele não aparecia no salão dos grandes encontros. Até o Felisberto deixa o Ceará cuidando do seu bar e corre para a barbearia. Um a um os amigos perguntam ao Arnaldo como ele tem passado. Não querem tocar na “ferida”; todos sabem que problemas ele têm enfrentado.

Arnaldo pergunta pelo amigo radialista, Álvaro Antunes Carriel. Otávio responde que ele está bem e já aproveita a brecha:

– E tu meu amigo, tens jogado?

Arnaldo fala primeiro com ar de tristeza, em seguida com empolgação e confiança:

– Olhem meus amigos, a minha situação não anda nada bem; vocês sabem. O pior é que a Lúcia pediu a separação. Disse que não aguenta mais tantas dívidas e tudo o mais; enfim, quer se divorciar. Mas hoje ela terá uma bela surpresa.

Ansioso, Juvenal pergunta:

– Qual a surpresa? Vai dizer que conseguiu um bom dinheiro emprestado e vai colocar todas as contas em dia, é isso?

– Não. Nada disso. Hoje descobri o jeito de ganhar; a luz que me faltava brilhou. E sabem o que é? O número, o número certo. Logo mais haverá uma corrida de cavalos em Curitiba. Um amigo meu, o Torquato, fará a aposta por mim.

Seu Victor pergunta:

– Meu amigo, não me leve a mal, mas se até a tua esposa pediu o divórcio, você ainda vai apostar? Gastar seu dinheiro?

– Na verdade consegui um empréstimo. Vou explicar. Estou com uma dívida de 40 mil reais. Então saí pelas ruas bem abatido e sem nenhum dinheiro. Sabia que tinha uns trocados em casa. Peguei um táxi. O motorista era um cara muito legal e por uma incrível coincidência seu nome era Torquato. Acontece que lá em Curitiba, nas corridas de cavalos, conheci um cara muito legal que também se chama Torquato. E acreditem, a placa do táxi era: VAI 4444. Vão me dizer que isso não é um sinal, uma luz? Então, continuando, quando cheguei em casa o Torquato disse que a corrida tinha custado 40 reais. Entrei na casa que alugamos há 4 meses, que por sinal tem o número 44, e que por sinal é a minha idade, 44 anos. Bem, entrei em casa e fui para o meu quarto; até nisso pensei, quarto. Abri minha gaveta e vi meu revólver. Tenho ele há muitos anos e até o registro. Confesso que por alguns segundos pensei em fazer uma besteira. Lembrei do taxista. Verifiquei se o revólver tinha munição e vejam só, tinha 4 balas. Guardei a arma bem no fundo da gaveta e ali estava todo o meu dinheiro; 40 reais. Paguei o taxista, o tal de Torquato e o agradeci muito.

– E então? O que vai fazer e como apostar com esses números? – Perguntou o barbeiro.

– Liguei para o Torquato lá de Curitiba e contei a história. Ele vai apostar no meu palpite e me emprestou 4 mil reais para a minha aposta.

– E vai apostar em qual cavalo? – Pergunta, Juvenal, ansioso e em nome de todos.

– Ora que pergunta, meu amigo. No cavalo número 4. Simples assim. Dessa vez vou ganhar um dinheirão. E vejam só, tudo isso teve início na segunda-feira, quando o Brasil conquistou as quartas de final. Viram? Quartas de final. E que dia é hoje, dia em que estou aqui com vocês e é o dia da corrida. Hoje é quarta-feira. Ah, não me leve a mal, Otávio. Não tenho dinheiro para te pagar. Vou te pagar esse corte de cabelo e barba no final de semana com o prêmio que vou ganhar. Aliás, quanto vai custar o cabelo e a barba?

– Quarenta e quatro reais. Meu Deus – disse o barbeiro – eu disse 44 reais.

O Juvenal levantou rapidamente e disse:

– Sou obrigado a concordar com o Arnaldo. Isso tudo não pode ser coincidência.

Felisberto deu um baita susto na turma quando gritou:

– Olhem o relógio, são 4 e 44 da tarde.

Agora a turma toda acompanhava a convicção do Arnaldo.

Seu Victor recapitulou com todos:

– Realmente dá o que pensar. Ele tem uma dívida de 40 mil reais. Pegou um táxi com a placa: VAI, vejam que as letras formam uma palavra e o número 4444. O Arnaldo tem 44 anos. O número de sua casa alugada há 4 meses é 44. O taxista se chamava Torquato. A corrida custou 40 reais, o exato valor que ele tinha em casa. Sem contar as 4 balas do revólver. O amigo lá de Curitiba também é Torquato. Ele lembrou que tudo isso aconteceu na segunda-feira, dia em que o Brasil ganhou do México conquistando a vaga para as quartas de final. Hoje é quarta-feira. O Felisberto observou que enquanto falávamos o relógio marcava, 16:44 ou 4 e 44.

– É ou não é um sinal meus amigos? – Pergunta o endividado apostador, Arnaldo – Ah, e o seu Victor esqueceu da minha conta com o Otávio, cabelo e barba, 44 reais. Final de semana tá na mão, meu amigo barbeiro.

De repente, toca o telefone de Arnaldo. É Torquato. Arnaldo atende com entusiasmo:

– Alô meu amigo. Que tal o nosso cavalo. Quando vamos pegar o dinheiro?

Arnaldo, perplexo, desliga o telefone.

Juvenal, super empolgado, pergunta:

– Fala logo meu amigo, em qual posição chegou o cavalo número 4? Quanto tu ganhastes?

Arnaldo se senta e diz:

– O cavalo número 4 no qual apostamos chegou em quarto lugar. Quatro, parecia o número certo. Mas foi, vejam só. O número 4 chegou em quarto lugar. Não parece mesmo um sinal?

Os amigos se olham, dão uns tapinhas nas costas de Arnaldo e o convidam para tomar umas cervejas no bar do Felisberto. O amigo, dono do bar, com pena do apostador, diz sem pensar duas vezes:

– É isso. Chega de tristeza e apostas por hoje. As 4 primeiras cervejas são por conta da casa.

Quando Arnaldo escuta mais uma vez o número 4 se levanta sorrindo e diz em voz baixa:

– Esse é o número certo. Só falta acertar.

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