O off-tube no futebol

Almoçando dia desses em Curitiba fui questionado por que motivo narradores, comentaristas e repórteres estão deixando de transmitir os jogos de futebol no rádio e tevê diretamente dos estádios.
Por Edemar Annuseck

Na Copa do Mundo !
Consta que já na Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, teve rádio brasileira que utilizou tal expediente, transmitindo diretamente dos estúdios da BBC, em Londres, ou do International Broadcasting Center (IBC). Como não estive nesse mundial, não posso confirmar.
Mas em 1974, na Copa do Mundo da Alemanha, muitas emissoras – e não só brasileiras – transmitiram jogos diretamente do IBC montado em Frankfurt.
Houve revolta do José Italiano da Rádio Gazeta que foi filmado pela TV alemã quando transmitia uma partida.
Ao colocar o material no ar, a tevê germânica dizia: “vejam os brasileiros transmitindo do IBC, fingindo estar no local do jogo.” A gozação para cima dos companheiros da Gazeta foi grande.
Deu zebra !
Já no Mundial da Argentina, em 1978, teve narrador que fez off-tube forçado. Como tinha nevado na região de Mendoza, onde o Brasil jogou contra a Polônia, houve sérios problemas para o deslocamento até o local da partida.
Na Jovem Pan, rádio na qual eu trabalhava, José Silvério, Orlando Duarte, Cândido Garcia e Flávio Adauto conseguiram chegar em Mendoza, para transmitir a vitória brasileira.
Me preparava para almoçar na praça de alimentação do ABC Color quando chegou Osmar Santos, com quem eu trabalhara anos antes, na Jovem Pan.
Surpreso, indaguei: Ué, bodão, você não foi a Mendoza? E ele mais do que chateado contou que fora vítima do mau tempo. A neve que castigara Mendoza provocou o fechamento do aeroporto e tornou inviável a utilização do transporte ferroviário. Osmar teve de transmitir do estúdio da Rádio Globo, no Centro de Imprensa, em Buenos Aires.
O comentarista Loureiro Junior e os repórteres estavam no estádio.
Muito natural !
Depois disso, essa prática tornou-se usual, em eventos mundiais.
Convém deixar claro que eventos como a Copa do Mundo de Futebol, Copa dos Campeões, Jogos Olímpicos obrigam as emissoras de rádio, as redes de tevê e jornais a pagarem pelos direitos de cobertura.
No Mundial de 2006 os direitos variaram de acordo com a situação geográfica e populacional da emissora de rádio. Teve rádio que pagou de 150 a 300 mil dólares.
No caso das emissoras de rádio, há também o custo adicional do estúdio a ser utilizado no centro de imprensa. E para transmitir os jogos do estádio paga-se mais alguma coisa em torno de 5 mil dólares pelas posições de narrador, comentarista e repórter.
Até a Copa de 1998 na França, muitos participaram de redes nacionais, dividindo os custos, colocando os profissionais no mesmo estúdio para fazer o off-tube. Para as rádios ficou interessante. Cada emissora fazia sua transmissão em separado.
Acabou a farra
Mas essa situação acabou. Já a partir de 2002 isso acabou.
Agora só poderão transmitir o Campeonato Mundial de Futebol as emissoras detentoras dos direitos. As outras só participando em rede.
O Comitê Organizador da FIFA fechou o cerco. Quem for pego transmitindo jogo de Copa do Mundo sem direitos será juridicamente responsabilizado. Na Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, até as emissoras de rádio e tevê que estavam habilitadas foram proibidas de reproduzir a transmissão dos jogos pelas internet. Agora quem atua na rede mundial de computadores também precisa comprar os direitos para a cobertura do evento.
Regra quase geral !
Hoje a grande maioria das rádios brasileiras adotou a filosofia do off-tube, até em campeonatos estaduais. Não é só o ouvinte que está sendo enganado, mas,  especialmente, o anunciante.
E até na tevê isso está acontecendo.
Mas o que estaria por trás disso? Ganância? Ausência de anunciantes? Ou simplesmente a falta de qualidade dos produtos que são levados ao ar?
Deixe sua opinião!
 


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Por Edemar Annuseck

Edemar Annuseck, jornalista, narrador esportivo que iniciou na Rádio Nereu Ramos de Blumenau em 1964 e depois atuou nas Rádio Jovem Pan, Tupi, Record de São Paulo, Clube Paranaense, Cidade e Globo/CBN de Curitiba, TV Jovem Pan e SPORTV, Editor da página de esportes do Jornal A CIDADE DE BLUMENAU, cobrir 5 Copas do Mundo (74, 78, 82, 86 e 90).
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1 responder
  1. bruno says:

    o custo de deslocar profissionais e equipamentos, tempo da viagem e seguranças nos locais dos eventos… agora isso é ruim para quem trabalha e péssimo para quem assiste!
    os narradores ficam sem emoção e voçe percebe, (…) pior é que eles negam que estejam nos seus estudios!

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