“O papel do jornalista será cada vez mais o de certificador”

Como aconteceu com o rádio na época do surgimento da televisão, diz-se hoje que o jornal impresso pode desaparecer com o advento e crescimento da internet. O rádio, como se sabe, sobreviveu. O que acontecerá com o jornal?

Pelos próximos dois anos, o Fórum Mundial de Editores (WEF), que representa cerca de 20 mil executivos e chefes de redação do planeta, será presidido por um brasileiro, o diretor-executivo de Jornalismo do Grupo RBS, Marcelo Rech.

A eleição ocorreu na véspera do 67º Congresso Mundial de Jornais, que começa hoje e vai até quarta-feira, em Washington, nos Estados Unidos. A escolha foi feita pelo conselho do fórum, formado por líderes de jornais de todo o mundo.

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“A palavra jornal ainda remete, equivocadamente, a um passado restrito à impressão de notícias. Os jornais hoje estão muito além do registro em papel dos fatos ocorridos no dia anterior. Jornais são, antes de tudo, plataformas de produção de conhecimento, de análise, de informações exclusivas, de um jornalismo de alta densidade, que não pode ser encontrado em nenhum outro lugar. E tudo isso em todas as plataformas disponíveis. Jornais com essa visão têm futuro radiante pela frente.” diz Marcelo Rech.

Quais os desafios para a sobrevivência do jornal impresso? E as oportunidades de expansão?

O desafio do impresso é se converter em plataforma de análise e interpretação de fatos e fenômenos em ciclos de 24 horas. Quanto mais se tem acesso a retalhos de informação em meios digitais e eletrônicos, mais difícil fica de entender os significados e porquês dos acontecimentos. O dever do impresso é resolver esse problema, decantando fragmentos informativos e gerando uma compreensão completa dos fatos. Revistas devem fazer essa revisão do cotidiano em ciclos de uma semana, enquanto livros podem fazer até com anos de distanciamento.

Como os jornais estão reagindo aos desafios da Era Digital?

Usando o que têm de melhor: seu relacionamento com o público e os anunciantes. E apostando em suas redações para produzir informação diferenciada, premium, em todas as plataformas disponíveis. Os meios digitais expandiram drasticamente o alcance dos jornais. Quando comecei no jornalismo, há 35 anos, nem em sonho a gente podia imaginar que o que a gente escrevia seria lido em minutos no outro lado do mundo.

Segundo a Unesco, em um momento em que “o ambiente da mídia está mudando constantemente com a tecnologia”, é necessário melhorar a qualidade do jornalismo. Além dos jornais, o jornalismo também precisa se reinventar?

Sim, e progressivamente isso está ocorrendo. Jornalismo profissional tem de ser ainda mais profundo, mais preciso, mais independente, mais transparente, para se diferenciar dos oceanos informativos disseminados pelas redes sociais sem selo de origem. O papel do jornalista e dos veículos será cada vez mais o de certificador da realidade, numa espécie de avalista de que fatos e comentários que já circulam por aí são verdadeiros ou não, e em que medida.

Quais os maiores riscos hoje à independência dos jornais?

No mundo livre, é a redução da publicidade. Todas as pesquisas mostram que jornais, impressos ou não, são altamente eficazes na construção de marcas em razão de sua credibilidade, mas nem sempre os anunciantes leem as pesquisas. Se os jornais se enfraquecem, podem se tornar vulneráveis a pressões de governos, empresas ou organizações. Jornais fortes são essenciais para a democracia.

Como você enxerga as ameaças à liberdade de imprensa e ao exercício do jornalismo no Brasil e na América Latina? E como garantir a liberdade de imprensa diante das tentativas de cerceamento do direito à informação?

A América Latina está, infelizmente, vivendo um retrocesso brutal na liberdade de imprensa. Além de Cuba, a Venezuela e o Equador amordaçam a imprensa com toda sorte de pressões. Bolívia e Argentina vão pelo mesmo caminho do “controle social da mídia” para tentar enquadrar a imprensa independente. No Brasil, esta conversa volta e meia reaparece. O que garante a liberdade é que as instituições, e a opinião pública em particular, percebem as manobras e as repelem. Outro problema dramático na América Latina são os assassinatos de jornalistas. O Brasil é o 10º país mais perigoso para jornalistas: desde 1992, 33 foram assassinados aqui, dois deles nas últimas duas semanas. E a impunidade é um dos tantos absurdos que mancham esta parte do mundo.

Que marca você pretende imprimir na presidência do WEF?

Como o fórum reúne líderes de redação de todo o mundo, da Noruega ao Sri Lanka, vamos atuar principalmente no denominador comum: apoiar os editores na transformação dos conteúdos para a era digital e na elevação permanente da qualidade. A solução para o jornalismo não é menos jornalismo: é mais e melhor.

[Por Diário Catarinense, 01/06/2015]

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